Kanye West – Jesus Is King

 

Gênero: Rap
Duração: 27 minutos
Faixas: 11
Produção: Kanye West
Gravadora: Def Jam

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Serei bem honesto com vocês: não gosto de Kanye West. Apesar de ser um cara talentoso no estúdio e com boas ideias, ele é insuportável fora dele. Gosta de causar da pior maneira, se acha absolutamente sensacional e frequenta muito mais as páginas de fofocas do que as das revistas especializadas em música. Sendo assim, quando foi anunciado o lançamento deste seu novo álbum, “Jesus Is King”, já me coçei para ouvir e falar muito mal dele. Mas, pessoal, (in)felizmente, o disco é muito mais interessante do que poderia sugerir uma “guinada gospel” na carreira de Kanye. Porque é exatamente o que este trabalho significa: Kanye West gravou um disco inteiramente gospel, no qual Jesus é a inspiração.

 

Claro, a gente pode – e deve – ter nossas próprias opiniões sobre religião e a minha é que não precisamos de modelos pre-determinados para alcançar a comunicação com o divino, se é que ele existe mesmo. Prefiro achar que temos religiosidade e isso não nos obriga a ter religião, mas, bem, este é o meu ponto de vista. Dito isso, vamos ao que Kanye quis dizer com este novo trabalho. Em 27 minutos de duração, distribuídos em onze faixas, o sujeito mostra que tem a manha na produção. Com samples de velhas canções gospel, ele insere climas e batidas totalmente modernas, compondo quase uma peça única de meia hora, na qual se expressa totalmente devoto da figura de Jesus Cristo.

 

Sabemos que o velho JC é um objeto de vigorosa adoração, por gente que acredita na conciliação, no amor ao próximo e na igualdade de todos, bem como de gente que discorda de tudo isso, que vê o Cristo como um soldado, uma figura forte, que deve revidar agressões e impor seu modelo de fé e visão de mundo. Por mais absurdo que isso pareça, basta olhar o naipe de certos seguidores confessos do cristianismo na atualidade, seja católico, seja evangélico. Kanye não parece muito preocupado com esses caminhos, apesar de soar muito mais neopentecostal do que qualquer outra vertente conhecida. Sua adoração a Jesus é total, incondicional e decisiva. É a razão deste álbum existir.

 

Se as letras são de amor, de moral e de vida espiritual vinculada a este dogma, as músicas são o grande tesouro do disco. Há alguns achados muito bacanas por aqui, a começar pela soberba “Water”, que tem um clima eletrônico em meio ao rapping, fazendo-a singela, leve e quase parecida com o que fazia PM Dawn há mais de 20 anos. Dignas de nota também são “Follow God”, “God Is”, “Hands On” e “Use This Gospel”, que tem participação de … Kenny G, com um de seus solos característicos, soando … bem. O fim com “Jesus Is Lord” é um fecho digno e de acordo com o clima.

 

Kanye West consegue fazer um disco muito bom, totalmente coerente com sua proposta e … com potencial para brigar em listas de melhores do ano. No terreno do rap, provavelmente vai estourar a banca, balançar a pança e comandar a massa.

Ouça primeiro: “Water”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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