“Juliet, Nua e Crua” na HBO

 

Minha mulher, Maria, me disse que havia gravado um filme e que gostaria que víssemos juntos. Seu título: “Juliet Nua e Crua”. Como ela geralmente faz, não leu nada sobre o roteiro ou do que se tratava, apenas deu uma olhada e achou que poderíamos gostar de vê-lo juntos. Sim, fazemos isso um pelo outro, com uma baixíssima margem de erro. O elenco trazia Ethan Hawke – um ator de quem gosto e cujo gosto musical eu respeito bastante – e alguns outros nomes relativamente desconhecidos – Rose Byrne, Chris O’Dowd… – Qual não foi minha surpresa quando identifiquei que se tratava de uma adaptação cinematográfica de um romance de Nick Hornby…

 

Já tive tempos de acompanhar a obra do escritor inglês de perto. Hoje em dia, confesso, me cansei um pouco da visão branca de classe média que Nick imprime em seus personagens, especialmente em sua relação com o gosto pela música. Talvez por isso haja um belo reboot de “Alta Fidelidade” no qual seu personagem principal é transmutado em uma adorável mulher negra, vivida por Zoe Kravitz, com substancial ganho, mas isso é assunto para outro texto. O fato é que os personagens de Hornby têm o amor pela música como charme e razão de existir. Ele tem o mérito de encontrar um jeito de inserir essas informações como algo que parte da formação do caráter destes personagens, de uma forma intrínseca, mais ou menos como se gostar de um artista fosse necessário para dizer quem a pessoa é. E, confesso, também levo isso em consideração.

 

Vamos ao filme. Inspirado num livro de Hornby lançado em 2009, “Juliet Nua e Crua” é uma comédia romântica na qual Duncan e Annie vivem juntos numa cidadezinha litorânea da Inglaterra, chamada Sandcliff. Ele é professor, ela é curadora de um museu. Ele é um fã de música obsessivo, especialmente quando se trata do único disco lançado por um tal de … Tucker Crowe, um artista americano obscuro, considerado uma promessa no início dos anos 1990, mas que lançou apenas um disco: “Juliet”, em 1993 e desapareceu dos holofores, nunca mais sendo visto. Annie acha tudo isso um exagero, não liga para a obra de Tucker, especialmente porque é obrigada a conviver com um chato abissal dentro de casa, que venera o álbum e dá mais importância a ele do que a quase tudo em sua vida.

 

Um belo dia, chega pelo correio um CD para Duncan, enviado pela gravadora responsável pelo lançamento de “Juliet” anos atrás. Annie abre o envelope e vê que se trata de versões-demo das canções do álbum, intitulada “Juliet, Naked”. Ela ouve as faixas antes do namorado, que se enfurece com a situação, especialmente porque ela não viu nada demais no conteúdo do disco. Duncan resolve escrever uma resenha apaixonada no fórum que administra online, apenas com fãs de Tucker. Annie resolve se vingar da briga e escreve uma outra resenha, na qual diminui a importância das demos e diz que elas são chatas, banais, sem graça. A briga se acirra, mas, momentos depois, ela recebe um e-mail que concorda com sua opinião. Um e- mail escrito … pelo próprio Tucker Crowe.

 

Tudo isso ocorre nos primeiros vinte minutos do filme. A partir daí, veremos a vida de Tucker, que vive numa garagem nos fundos da casa de sua quarta ex-esposa, Cat, com a qual tem seu quinto filho, Jackson. Com o passar do tempo, ele entrou num permanente ostracismo e deixou sua carreira de lado, totalmente desiludido. Sua relação com Annie se torna mais importante à medida em que o relacionamento dela com Duncan irá se deteriorar por conta de uma traição. E o filme irá avançar num andamento bem próximo do livro, com pouca ou nenhuma modificação.

 

“Juliet, Nua e Crua” é dirigido por Jesse Peretz, integrante fundador do Lemonheads, ao lado de Evan Dando. Peretez deixou o grupo de Boston antes deste fazer sucesso com o álbum “It’s A Shame About Ray”, em 1993, mas dirigiu todos os clipes que a banda fez, especialmente a versão de “Mrs. Robinson”, maior sucesso dos Cabeças de Limão. Não só isso, ele se tornou um diretor de sucesso, levando prêmios por vídeos que gravou com Foo Fighters, Breeders, entre outros. Sua direção é precisa e convencional, que deixa espaço para os diálogos – característica marcante das obras de Hornby. Em algum ponto do filme, uma bela discussão entre Tucker e Duncan tem lugar sobre o valor da arte para público e para artista, culminando num bate-boca interessante, no qual nos vemos sem saber para lado correr diante do dilema que se coloca. É um bom momento do filme, talvez o segundo melhor, perdendo apenas para a interpretação que Tucker faz de “Waterloo Sunset”, canção dos Kinks, ao piano.

 

“Juliet, Nua e Crua” foi rodado em 2017 e lançado em 2018. Confesso que nem sabia da sua existência mas ele está por aí, dando sopa num dos canais da HBO, o HBO Euro, se não me engano. Se você topar com ele, não perca, especialmente se você admirar a capacidade que Hornby tem de dar ao gosto pela música a sua importância. Porém, cuidado: não vá se tornar um chato como Duncan ou como o próprio Rob Gordon, herói de “Alta Fidelidade”.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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