Jorge Andrade, o incêndio e o massacre de Chapecó

 

Em outubro de 1950, dezenas de pessoas invadiram a cadeia pública de Chapecó em Santa Catarina, incitadas pelo delegado e o padre da cidade e lincharam quatro presos.

 

Romano Ruani, Ivo de Oliveira Paim, e os irmãos Orlando Lima e Armando Lima foram acusados de incendiar a igreja da cidade. Depois de mortos por tiros e golpes de faca seus corpos foram incendiados e colocados para exposição.

 

Eles foram vítimas de uma trama sórdida articulada por poderosos, entre eles o delegado Arthur Argeu e o padre Roberto, que não teve o mínimo pudor de dizer em um de seus sermões “Quem queimou a igreja deve ser queimado!”

 

Com várias manchetes tenebrosas como “O massacre em Chapecó”, “Culpado é o delegado” e “Chapecó, cidade do pavor”, a imprensa acabou apurando o verdadeiro motivo para o crime: o poder, sempre ele.

 

Romano e Ivo eram dois forasteiros que haviam chegado à cidade. Aproveitando-se das suspeitas que dois estranhos despertam em um lugar pequeno o delegado os prendeu como mandantes do incêndio, tendo como cúmplices Armando e Orlando, que na verdade era o grande alvo, detestado pelas autoridades por causa da sua oposição ao coronelismo vigente na época.

 

A polícia chegou até Armando e Orlando depois de torturarem Romano e Ivo, que horas antes da tragédia tentaram voltar atrás na sua falsa denúncia, sem tempo e sem o mínimo esforço do delegado para mudar a situação.

 

Ele não se desviaria de seus planos: acabar com a vida dos quatros homens para se livrar de futuras acusações de tortura e envolvimento com o incêndio da igreja. Algumas investigações mais tarde apontaram para um suposto interesse no seguro do local.

 

Contei para vocês como conheci o dramaturgo Jorge Andrade em minha penúltima postagem, sobre a sua peça “Vereda da Salvação.” Ela está compilada em “Marta, a árvore e o relógio”, junto com “O incêndio”, outros dos seus textos inspirados por um Brasil que a gente gostaria que não existisse, o envolvido em um acontecimento tão sórdido como o de Chapecó.

 

Em “O incêndio” a tragédia acontece em Água Limpa e vitima os forasteiros Romualdo e Orlando e Omar, o grande opositor do Coronel Azevedo, chefe político da cidade. É nítido o que Jorge, perseguido pela ditadura e ferrenho opositor do AI-5 buscou ao escrever a peça: a denúncia de um sistema que beneficia os ricos e mantém os pobres numa posição de iludidos sobre os verdadeiros interesses do seu opressor.

 

Utilizando o realismo não como a corrente estética que nos lembra do século XIX mas na forma da técnica capaz de descrever sem rodeios a realidade psicológica e social do homem, Jorge deixa claro desde o início da peça a intenção que cabe a cada um dos personagens, como Jupira, a corajosa e justa amiga de Omar, prostituta conhecida na cidade:

“Estou ajudando o Omar, Luzia. Ele precisa vencer esse puto que explora o povo há trinta anos. O povo é muito besta. Vai na conversa. Enquanto o coronel não cair de boca no chão, não adianta nada. Este é o sonho de Omar”

 

E claro também as “preocupações “dos envolvidos na trama que vai resultar no linchamento de Omar:

 

“-Esse moço precisa levar uma exemplada. Tome nota disto, Ulhôa. É pra isto que coloquei você na delegacia.

– Estou de olho nele, coronel. Qualquer escorregão que der, eu o levo pro pela- porco”

Pela- porco era o apelido da cela na prisão para onde os presos eram levados e torturados. Em O incêndio é o local onde Omar tem os joelhos quebrados, fato que leva os envolvidos na sua prisão a planejarem sua morte para livraram- se da culpa.

 

Em Chapecó a investigação levantou a possibilidade de que dois dos presos já estariam mortos antes da barbárie começar.

 

Horrível, eu sei.

 

Descobrir que as peças brasileiras que me impactaram enormemente nos dois últimos anos foram baseadas em fatos reais que poderiam ter se tornado ensinamento para certos erros não se repetirem e que ao contrário disso, parecem fazer parte de uma rota interminável de retrocesso revolta, mas também escancara a nossa formação de pessoas que sempre enxergaram na porrada, na tortura, na aniquilação dos seus opositores uma forma de se fazer justiça, como bem disse o Cel no seu texto sobre o ocupante do ministério da saúde.

 

Nunca deu certo e jamais dará.

 

Jorge Andrade nos deixou em 1984 alertando para as coisas que muitos de nós teimam em não ver.

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Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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