Jojo Rabbit – Estranho e sensacional

 

 

“Jojo Rabbit” é um filme…estranho. No site do International Movie Database (IMDB), ele está descrito como um longa de guerra, comédia e drama. Pense nestes gêneros e veja se é possível que eles se sobreponham numa produção comum. Pois é, não. Mas no filme do diretor e ator neozelandês Taika Waititi, não só isso acontece como tudo parece funcionar bem, a ponto de “Jojo” receber seis indicações para o Oscar, entre elas Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante – Scarlett Johansson – e Melhor Roteiro Adaptado. Além disso, é bem provável que você saia do cinema completamente encantado/a pelo protagonista, um garotinho nazista cujo amigo imaginário é … Adolf Hitler.

 

Falando superficialmente, “Jojo Rabbit” pode ser até confundido com uma apologia maluca do nazismo mas, eu lhes asseguro, poucas produções até hoje foram tão críticas do regime autoritário alemão. Nunca o identikit alemão nazista foi tão detonado, escorraçado, reduzido a nada. O serviço de destruição proposto por Waititi – que vive ele mesmo o Hitler imaginário – é implacável na missão de mostrar o quanto uma criança de dez anos é capaz de ter pensamentos absolutamente … infantis e desconectados da realidade, ainda que pareça contaminado por ela. Jojo é um menino que faz parte da Juventude Hitlerista, anda uniformizado, fala palavras de ordem a favor do regime e se orgulha de conversar constantemente com Adolf, que só ele vê, e com quem tem uma relação de amizade e cumplicidade.

 

Jojo não sabe que sua mãe, Gracie, (Scarlett Johansson em seu melhor papel desde muito tempo) tem uma menina judia escondida em cara, Elsa, (Thomazin MCKenzie) e não morre de amores pelo estado das coisas – o filme se passa em 1945, às vésperas da derrocada alemã para russos e americanos. Além disso, o pai dele foi para a guerra e não voltou e sua irmã mais velha, Inge, morreu há pouco tempo. Sendo assim, a vida do menino é pontuada por várias situações tragicômicas, manejadas como muita destreza por Waititi, que permite o encantamento do espectador por Jojo, mesmo que ele seja um autêntico entusiasta da perseguição aos judeus, algo que vai sofrer uma intensa mudança ao longo da narrativa, quando ele passa a interagir com Elsa.

 

Até o fim do filme, o espectador vivencia e percebe a evolução dos pensamentos e sentimentos de Jojo, numa ordem inversamente proporcional ao seu amor e dedicação pelo nazismo e por Adolf. Somos levados à certeza de que tudo o que se viu de dedicação e entusiasmo pelos mitos e signos nazistas está muito conectado com a absoluta falta de noção que se tem do mundo quando é criança. E que vai passar quando começamos a entender como as coisas realmente são. Neste ponto, o manejo das sutilezas da narrativa por Waititi é digno de aplausos, pois é possível conceber lágrimas, tiros, risos e piadas hilariantes no meio da coisa toda, como a dos pastores alemães, que quase me fez passar vergonha no cinema.

 

Além do ótimo desempenho de Scarlett, são dignos de nota as performance do próprio Taika Waititi, com um Adolf meio Jim Carrey, meio Jerry Lewis, do ator-mirim Roman Griffin Davis e do sensacional capitão bêbado e gay vivido por Sam Rockwell, responsável por cenas absolutamente sensacionais. E a trilha, que traz versões em alemão de “I Wanna Hold Your Hand” (Beatles), “Heroes” (David Bowie) e “Mama” (Roy Orbison), além do resgate de “Everybody’s Gotta Live”, do Love, e da versão de Tom Waits para “I Don’t Wanna Grow Up”, dos Ramones, é absolutamente sensacional.

 

“Jojo Rabbit” é o filme mais estranho do Oscar. E um dos mais desconcertantes.

 

 

Jojo Rabbit

Inglaterra, República Tcheca, Estados Unidos, 2019

De: Taika Waititi

Com: Roman Griffin Davis, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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