Highlander envelheceu. E mal

 

Sem qualquer alarde, “Highlander – O Guerreiro Imortal” entrou na Netflix há algum tempo, junto com outros filmes bacanas dos anos 1980. Bem, “bacanas” é força de expressão, uma vez que a maioria das produções daquela década envelheceu severamente. Talvez seja a revolução digital nos efeitos especiais, na filmagem – que ainda engatinhava nos 80’s – talvez seja a aceleração do tempo, um fenômeno sentido realmente a partir daquela década…O fato é que estas produções só sobrevivem como veículos para a memória afetiva, um terreno em que tudo pode pois é baseada na subjetividade. Daí há um espaço muito curto entre este envelhecimento e a elevação de algumas obras ao status de “cult”, algo que também faz parte desta ação do tempo. O fato é que “Highlander”, sem trocadilho, envelheceu bastante. Vi ontem e posso atestar.

 

A ideia continua sendo sensacional: uma raça de homens imortais precisa seguir um destino amaldiçoado de perambular pela eternidade sem poder estabelecer vínculos afetivos sob pena de sofrimento constante, sem falar na inevitabilidade do fratricídio a que são levados, fazendo honrar o lema “só pode haver um”. Os imortais se enfrentarão até só existir um único de sua espécie, que receberá um misterioso “prêmio”. Não vou contar pois vai que você nunca viu, né? Digo isso porque, apesar da trilha sonora do Queen, da mitologia que se ergueu sobre o filme, “Highlander” não é um sucessinho fácil da década de 1980, como, por exemplo, “Curtindo a Vida Adoidado” ou “Gremlins”. O diretor australiano Russell Mulcahy tinha pretensões artísticas de realizar uma espécie de filme B de sucesso, de trazer algo meio noir em suas cenas rodadas numa Nova York meio decadente, que receberá os imortais para as batalhas finais. Também há um certo verniz artístico nas tomadas feitas na Escócia do século 16, com os primeiros anos de Connor Macleod, o tal highlander, vivido por Christopher Lambert.

 

Aliás, as atuações são o ponto realmente lamentável do filme. Só Sean Connery, na pele do espanhol Juan Ramirez, consegue trazer alguma força ao filme. Lambert e Clancy Brown – na pele do vilão Kurgan – vão além do pífio e do patético, como diria Mauro Cezar Oliveira. Imperdoável também é a mocinha Brenda, vivida por Roxanne Hart, que tem a expressividade de uma parede pintada de branco. As cenas têm essa pretensão meio obscura mas tal fato fica no meio do caminho diante da própria trama. As externas na Escócia são bem feitas e belas, mas daí vem a atuação do elenco e logo a beleza das highlands é esquecida diante da ausência de emoções de Lambert ou da canastrice total de Brown. Connery se vira para dar carisma ao seu Ramirez, mas sua participação é bem curta e tem certa aura “Apollo Creed treinando Rocky Balboa” em “Rocky III”. A trilha do Queen é subaproveitada, exceção apenas para “Who Wants To Live Forever”, baladão purpurínico bem ao feitio da encarnação mid-eighties da banda. Também há espaço para algo de “Princess Of The Universe” e uma versão rara e legal de “New York New York”.

 

Outro ponto imperdoável de “Highlander”: os efeitos especiais. É até engraçado pois lembro de como eles costumavam ser sensacionais. Envelheceram séculos e só se sustentam como excentricidades de época. Os raios elétricos, os trovões, as explosões, tudo é bem risível. Quando um dos imortais vence um duelo, seu corpo se ergue tamanha a força que é liberada e torna-se inevitável não perceber os fios amarrados no cidadão suspenso. E também na batalha final, sobre um letreiro luminoso, cujas letras vão sendo puxadas por visíveis cabos de aço. E os diálogos também são lamentáveis, especialmente os que Lambert protagoniza, forçando um sotaque escocês que ele diz em certa hora “ser de vários lugares diferentes”. Mas não dá pra culpar Mulcahy por escolhê-lo: o franco-americano Lambert vinha de “Subway”, filme ruim, mas que lhe rendeu o Cesar em 1985, e de “Greystoke – A Lenda de Tarzan”, que o colocou no mercado americano.

 

Mas algo precisa ser dito. Este “Highlander”, de 1986, é uma obra-prima se for comparado com as duas sequências, “Highlander 2” (1991) e “Highlander 3” (1994), seguramente dois dos piores filmes já feitos, sendo que o segundo, co-produzido na Argentina e rodado lá, consegue destruir justo o que era mais interessante: a história. Nele, os imortais são, na verdade, alienígenas e uma cizânia no planeta natal fazer com que eles venham à Terra para enfrentar o único sobrevivente aqui: Connor Macleod. Ele disputa, junto com “A Reconquista” e “Waterworld” o Olimpo máximo das produções que nunca deveriam ter existido. Além dos longas, também houve uma série baseada na história, que é tão importante que sou incapaz de lembrar qualquer coisa sobre ela.

 

Assim, envelhecido, mas ainda com certo charme, “Highlander” é um típico representante da categoria “é ruim, mas eu gosto”, que a gente sempre gosta de lembrar aqui. Vale a revisita com absoluta despretensão.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

4 thoughts on “Highlander envelheceu. E mal

  • 2 de julho de 2021 em 14:23
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    outro que segue essa linha ” cult ” e o Top Gun, acho horrível e a trilha sonora e um ” crassico “!!!

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    • 2 de julho de 2021 em 16:51
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      Te entendo. É estranho ainda mais pra quem viu o filme na época do lançamento…

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  • 2 de julho de 2021 em 11:36
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    Obrigado, Fernando! Eu também não deixei de ver o filme porque envelheceu mal. É um relacionamento de mais de 30 anos, seguiremos perdoando os defeitos e vendo o lado bom. 🙂

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  • 2 de julho de 2021 em 11:28
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    Eu ficava encantado com esse filme na minha infância. Junto com esse tinha Willow: Na terra encantada, A lenda, Os aventureiros do bairro proibido, Os heróis não têm idade, Os goonies e tantos outros. Como disse, uma revisão pode abalar nossa memória afetiva. Confesso que não revi o filme, mas recentemente puder rever o filme a lenda, que não me decepcionou, além de rever o enigma da pirâmide, que apesar de alguns equívocos no roteiro e de atuações, continuam a fazer parte do meu afeto cinematográfico.
    Adorei o texto!!!

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