GNT Ostentação

 

 

Aqui em casa assistimos cade vez menos ao GNT. Do Multishow só vemos as coberturas do Rock In Rio e do Lollapalooza, por motivos de monopólio absoluto das transmissões. As atrações de humor do canal são insuportáveis para mim, bem como os programas de clipes, absolutamente impossíveis de serem vistos. Mas o GNT ainda nos cativava, encanto este que está acabando rapidamente.

 

É que, de uns tempos pra cá, eu não consigo ver, ouvir, ler, pensar, refletir sobre nada que não leve em conta o estado atual do mundo e que se disponha a fazer ou propor algo para reduzir a desigualdade entre as pessoas. Acreditem, é uma maldição pensar assim, porque, simplesmente, a sociedade não parece dar atenção a isso. E eu – e minha mulher – não conseguimos NÃO PENSAR nisso. Sendo assim, as atrações do canal, todas voltadas para uma classe média-alta carioca/brasileira, com poder aquisitivo para viajar no fim do ano para a Disney e trocar de carro com frequência, simplesmente, não se comunicam conosco.

 

A gente não consegue mais acompanhar os programas do Claude Troisgros, porque achamos que todos os problemas expostos neles são resultantes da falta de vergonha e noção dos participantes. Gente que não come cebola, que não sabe fritar um ovo em casa, que só come bife com batata, que tem horror a vegetais…Tudo isso é inadmissível com o planeta sendo detonado como está. Veja, nós estamos bem distantes do que se entende como ecochatos. Somos carnívoros, compramos produtos industrializados, mas tudo dentro dos limites do bom senso. Não dá mais pra ver gente na faixa dos 30 anos não comendo legumes, num tempo em que bilhões passam fome. Desculpa, não dá.

 

Também não dá pra ver atrações em que apresentadores com carisma zero invadem a casa de celebridades de baixa órbita para convencê-las a “desapegar” de roupas e sapatos. NÃO DÁ. O “desapego”, longe de ser um ato caridoso, é uma das normas de ouro do sistema, que prega o consumo constante. Logo, o sujeito que doa roupas, num programa desses, vai, certamente, comprar outras mais tarde. E o espectador, hipnotizado pela parafernália emocional, fica vendo essa gente abrindo as portas de closets e armários com mais de 30 pares de sapatos, 100 camisas, tudo que exalta o maldito consumo pelo consumo.

 

Outro programa que entrou na lista dos “invisíveis” é o Casa Brasileira. A edição vigente atingiu um nível master plus ultra de irritação ao mostrar casas gigantescas, enormes, em diferentes cidades do país. Não é muito diferente do que a atração sempre mostrou: casas com projetos arquitetônicos diferentes, interessantes, que se comunicam com o ambiente, que traduzem a personalidade do dono etc. Esta temporada está uma overdose de conceitos vazios como “a arquitetura de fulano é atemporal” ou “a função na arquitetura é … funcionar”. E tome gente riquíssima abrindo as portas de suas casas caríssimas para as câmeras registrarem e montarem o programa com longas peças instrumentais ao piano como fundo musical. O uso de madeira é altíssimo – só fico pensando em quantas árvores foram derrubadas pra fazer aqueles móveis, os interiores e tudo mais. Enquanto isso, desço para ir ao mercado e topo com dois ou três moradores de rua, vitimados pelo sistema. NÃO DÁ.

 

As únicas atrações que ainda temos algum interesse no GNT são o “Cozinha Prática”, da Rita Lobo e o “Decora”, de Maurício Arruda, este em processo sério de desencantamento. Ver Rita cozinhar é inspirador e ela sempre tenta mostrar que o ato de ligar o fogão e tentar fazer alguma comida em casa é libertador, principalmente no sentido político, de você fazer algo que não vá te obrigar a consumir na rua, pagando preços imorais. O Decora, que já teve tempos muito melhores, se tornou uma vitrine do “home center” Leroy Merlin, descambando para obras que traduzem a ostentação dos participantes. Lembro de muitos programas antigos em que a galera era realmente necessitada de uma obra em casa. Hoje em dia isso se perdeu.

 

Nem os programas de culinária do mitológico – há ironia aqui – Felipe Bronze têm me atraído. O impagável Perto do Fogo, no qual Bronze cozinha pratos impraticáveis, recebeu a adesão de Jimmy Ogro, um cozinheiro que mora na Zona Sul do Rio e tenta evocar um espírito de improvisação em comidas “ogras”. Não funciona e tem a autenticidade de uma nota de três reais. Bronze, por sua vez, é uma figura que tenta parecer simpática, mas também não convence ninguém. O chef carioca também participa do inacreditável Que Seja Doce, um programa de confeitaria, no qual ele e um grupo de jurados emitem pareceres sobre doces e bolos, como se estivessem falando da cura do câncer. É tudo péssimo.

 

Notem que nem mencionei os programas de entrevistas e/ou mesas de conversa, talk shows e congêneres.

 

O fato é que a TV como a conhecíamos está cada dia mais velha. Não dá pra vermos essas atrações emperdernidas, que não acrescentam nada para quem vê, exceto se o espectador visa a jactância desenfreada ao sintonizar os programas. Estamos saindo dessa.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “GNT Ostentação

  • 28 de janeiro de 2020 em 17:14
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    Sua análise é irretocável, me sinto totalmente identificado com o que você assinalou: “não dá para assistir algo que não leve em conta o estado atual do mundo e que se disponha a fazer ou propor algo para reduzir a desigualdade entre as pessoas”. Triste constatar, mesmo, que a grande parte dos conteúdos televisivos (não importa se em rede aberta ou tv a cabo) é alheio a isso, que consideramos um tópico fundamental!

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