Gene Clark – O Shakespeare do Folk

 

Andei escrevendo dia desses sobre a tristeza de não poder comprar a nova edição de luxo do segundo disco da The Band, lançado em 1969. No texto, por conta da alta do dólar – que continua – eu lamentava o também não poder abiscoitar o relançamento de “No Other”, quarto disco da carreira solo de Gene Clark, ex-integrante dos Byrds. Vejam, é um mero chilique de colecionador de discos em crise de meia idade, até porque, tenho ambos em casa, em versões razoavelmente turbinadas e com algumas faixas extras. Por isso, verdade seja dita, não deixa de ser mimimi. Mas também é uma oportunidade de ouro pra falar da majestade de Gene enquanto artista solo.

 

Mesmo sendo um fã de The Byrds e demais variantes folk do grupo – tipo “Dillard And Clark” ou “McGuinn, Clark & Hillman”, a primeira vez que procurei saber mais sobre Gene foi por conta do … Teenage Fanclub. Estava eu diante de seu quarto álbum, “Thirteen”, de 1993 e encantado com a alquimia sonora que saía das caixas de som do meu velho quarto na Barata Ribeiro, quando chegamos à última canção, justamente intitulada “Gene Clark”. Eu já sabia da influência dos Byrds na obra do TFC, mas a banda californiana ainda não estava no meu radar – como ficaria mais tarde e até hoje. A canção “Gene Clark” é uma lindeza plácida e triste, que funde dois modelos primordiais de música folk: os velhos rockões de Neil Young no início instrumental e um arranjo beatle/byrdiano do meio pra frente. Na letra, de Gerard Love, a homenagem ao byrd morto precocemente.

 

Anos mais tarde fui perceber a dimensão de Gene Clark, até porque, mesmo nos Byrds, a gente tende a colocá-lo numa posição menos importante em relação a Roger McGuinn e David Crosby. Ou a Gram Parsons. Clark era, como dizia a mídia da época, “the hillbilly Shakerspeare”, alusão à origem do cara que, ao contrário do que se pensa, vinha dos cafundós do Missouri, tendo chegado à Califórnia sessentista em busca da versão colorida e psicodélica do American Dream. Não só conseguiu como foi uma importante figura daquela cena que surgiu em San Francisco a bordo de bandas de rock que, simplesmente, cravaram seu nome na história. Se a gente pensar, The Byrds está um pouco abaixo dos Beatles em termos de importância. E abaixo deles, uma legião de artistas relevantes, de Crosby, Stills And Nash, passando por Neil Young, Eagles e toda uma linhagem que chega no Fleet Foxes, no My Morning Jacket, no Father John Misty e por aí vai.

 

Clark deixou os Byrds ainda cedo, em 1966. Era um integrante de destaque, especialmente nas apresentações ao vivo, deixando de tocar guitarra-base para assumir percussão e harmônica. Viu o início do sucesso que o grupo alcançou e nunca deixou de compor e gravar, sendo muito prejudicado em termos de viagens por conta do medo crônico que tinha de voar. Chegou a voltar para a banda quando Crosby a deixou, em 1967, mas precisou sair novamente porque estava vivenciando severas crises de ansiedade. Mesmo oficialmente fora dos Byrds, ainda contribuiu com composições e em gravações de vocais de apoio. Em paralelo, Clark formou uma dupla com o Doug Dillard, muito mais próximo do bluegrass e do country tradicionais. A empreitada durou dois discos, porque Gene queria encontrar o equilíbrio perfeito entre ritmos mais tradicionais e o rock psicodélico da época.

 

Sua carreira solo é a perseguição deste amálgama. Vieram “White Light” (1971), “Early LA Sessions” (1972), “Roadmaster” (1973) e o nosso querido “No Other”, de 1974. Depois dele, Clark ainda produziria bastante, mas estes quatro primeiros discos e, vá lá, o quinto, “Two Sides To Every Story” (1977), são os mais representativos deste período. “No Other” é mais um destes discos que não fez bonito em seu tempo, pelo menos, não em termos de vendas. Gene demorou meses para gravá-lo e dependia exclusivamente da inspiração “transcendental” para compor. O próprio Gene fez relatos da época que ele ficava horas sentado ao piano, olhando para o mar, da janela de sua casa em Mendocino, Califórnia, esperando por melodia ou letra. E, bem, nem sempre havia a conexão total para a chegada de uma nova faixa.

 

Este disco foi o fruto direto da reunião dos Byrds em 1972, que gerou um disco ao vivo e um contrato para Gene Clark gravar um novo trabalho solo, pela gravadora Asylum. Como “No Other” demorou muito mais do que o previsto, a cobrança dos executivos era enorme. O clima que Gene imprimiu nas canções era ambíguo. A produção e os arranjos, a cargo de Thomas J Kaye e dele mesmo, eram oscilantes entre o folk psicodélico dos Byrds circa 1970 e as experimentações de Brian Wilson, fase 1967. Além disso, Gene sentiu necessidade de adicionar algumas tonalidades de r&b, influenciado que estava pela audição de discos de Stevie Wonder, especialmente o mais recente na época, “Innervisions”.

 

O resultado foi um disco complexo demais para as paradas de sucesso. Era um testamento de criatividade, o resultado de um fluxo aleatório de inspiração e tentativas de conexão com algo maior. Claro, a gravadora detestou e divulgou pessimamente o álbum, o que o fez desaparecer das prateleiras em pouco tempo, ainda que “Silver Raven”, tenha feito algum sucesso local. O tempo encarregou-se de conferir ao disco um status de cult, especialmente nos anos 1990, após a morte de Gene – que ocorreu em 1991. Foi neste ano que o álbum foi lançado em CD, recebendo uma edição remasterizada com faixas-bônus em 2003. Agora, neste ano, a prestigiada gravadora inglesa 4AD lançou uma versão tripla do disco, trazendo todas um monte de takes de estúdio e versões alternativas, uma verdadeira festa para fãs de Gene Clark, do folk rock e da música pop em geral.

 

Felizmente, a nova edição está disponível nos serviços de streaming e é possível baixá-la nos bons e velhos programas P2P. Gene continua sendo uma figura complexa, controversa e cheia de nuances. É um nome pouquíssimo conhecido fora do âmbito anglo-americano, mas obrigatório para quem gosta de rock e folk-rock daquela virada de 1960/70. “No Other” é um produto de seu tempo e sua falta de apelo comercial é diretamente proporcional à sua majestade. Ouçam e descubram.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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