Eurovision – É ruim mas é bom

 

 

“Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars” está em cartaz na Netflix há poucos dias. Dirigido por David Dobkin (de “Agentes da UNKLE” e “O Juiz”), o filme é uma daquelas obras que os americanos chamam de “underdog story”, ou seja, algo como “histórias de losers que vencem mas permanecem losers”. Dessa vez, o cenário é o Festival Eurovision, um dos eventos mais abrangentes de música popular do mundo, no qual todos os países da Europa enviam participantes para disputar um prêmio anual. Quem assina o roteiro e estrela o longa é Will Ferrell, que conta com a presença de Rachel McAdams, nos papéis de Lars e Sigrit, que formam o Fire Saga, uma dupla islandesa cujo sonho é participar do festival. É um verdadeiro desfile de momentos constrangedores, temperados por pequenos dramas, referências duvidosas e atuações temerárias. Mesmo assim, o filme desce redondo.

 

E veja que a presença de Will Ferrell em qualquer elenco é motivo para o filme já levar um selo de advertência do INMETRO logo de cara. Ainda assim, todas as alusões aos artistas europeus, especialmente o grupo sueco Abba – que venceu o Eurovision em 1973, com “Waterloo” – são adoravelmente imersas num oceano de breguice audiovisual, o que acaba prendendo a atenção do espectador. A história é bem simples: Lars e Sigrit vivem em Husavik, uma cidadezinha islandesa – real – de pouco mais de 2 mil pessoas, cuja maior fonte de riqueza vem da pesca. Eles perseguem o sonho de se apresentar na seletiva islandesa do festival, que dará o direito de disputar as finais. Por uma série de revezes, a dupla – que é péssima – acaba se classificando e vai enfrentar uma verdadeira fauna de participantes no concerto final, em Edimburgo, Escócia.

 

A afeição de Ferrell pelo evento se dá por conta de seu casamento com a atriz Viveca Paulin, desde 1999. A partir daí, ele passou a acompanhar o Eurovision anualmente, tornando-se um conhecedor do assunto, chegando a visitar o Festival em 2008. Só um expert poderia convocar ex-participantes – que surgem ao longo do filme, em pequenas pontas – e encaixá-los em um contexto convincente. Mais que isso: as referências tecnopop dos números musicais surgem como verdadeiras explosões cósmicas de mau gosto, especialmente a performance do participante russo, Alexander Lemkov (vivido por Dan Stevens, de “Downton Abbey”), que defende a inacreditável “Lion Of Love”, com tiques que misturam Mr. Trololo e George Michael.

 

A trama é convencional, mostrando a epopeia de Lars e Sigrit, alternando constrangimento com humor involuntário, tudo temperado por amor, tenacidade e persistência. Ferrell não vai além do convencional, mas Rachel McAdams, boa atriz que é, entrega momentos interessantes, especialmente nas cenas mais dramáticas. Mesmo não cantando – sua personagem é uma espécie de diva nórdica dos vocais dramáticos – Rachel manda bem no playback, convencendo nas performances amalucadas da Fire Saga, marcadas por acidentes de todos os níveis.

 

As referências cinematográficas abrangem filmes como “Miss Simpatia”, “Com A Bola Toda”, “Letra e Música”, “Eurovision”, além de programas televisivos como The Voice e mais um monte de celebrações do gosto duvidoso como motivo de atenção para públicos ao redor do mundo. Pierce Brosnan também participa do elenco como Erik, o pai de Lars, envergonhado pelo filho ter chegado à meia idade sem ter realizado nada, apenas esperado pela chance de participar do Eurovision.

 

Com o selo “É Ruim, Mas É Bom”, dá pra ver “Eurovision”. Mas só assim. Tenha isso em mente.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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