Eu não vim falar de livros

 

A cobrança pela produtividade em meio ao caos bateu na minha porta logo na primeira semana do isolamento e eu tentei me proteger dela com um pânico. um pouco mais controlado.

 

No trabalho tivemos que aprender a lidar com novas plataformas, pais assustados, a timidez na hora de gravar um vídeo, o uso do powerpoint não como um recurso para um ou mais exercícios mas a base de toda a aula. Vocês têm noção do tempo que leva preparar um aula toda em slides?

 

Eu não sabia nem iniciar uma chamada no hangout. Comecei a notar meus livros fechados, minha vontade de escrever encolher, as unhas com a cor verdadeira, as sobrancelhas voltarem a ter o mesmo formato da adolescência, sem me diminuir. Esse é um momento que a gente nunca viveu e o máximo que eu preciso é repensar minhas preocupações e necessidades. O esmalte vermelho é supérfluo, a minha existência não. O trabalho de tê-la saudável e corajosa já tá complicado demais.

 

Uma amiga me deu um livro para marcar minhas leituras do ano.Eu nunca participei de maratonas literárias, tenho horror ao que transforma em competição um amor tão puro como a literatura, mas acho bacana comparar o número de livros que li em periodos semelhantes, e os dos primeiros meses desse ano está bem menor do que o ano passado,quando eu saía de casa todo dia para trabalhar.

 

Ninguém sabe quando esse período vai acabar e pra gente que mora no Brasil as crises políticas, de valores e sanitárias se misturam,assustam e deformam nossa perspectiva de futuro. Então será que a corrida pela produtividade em qualquer nível e a qualquer custo não nos machuca ainda mais?

 

Antes de começar o isolamento eu fiz uma pequena reserva de livros para ler, encontrados na biblioteca da escola onde trabalho. Tirei foto da pequena pilha de suprimento intelectual ( eram uns 7) postei no meu Instagram literário e fui pra casa cheia de fé no meu momento de reclusão e na oportunidade de adquirir novos conhecimentos.

 

Eu ainda não li nenhum daqueles livros mas na semana passada, acabei um que comprei há meses. Ele me acalmou e deixou os dias que dediquei à sua leitura um pouco mais leves. Um de cada vez. É isso que eu e talvez você que me lê agora precisamos: produzir o que nos for possível e necessário e viver a continuidade do seu agora.

 

Nós não somos listas de livros para ler, filmes para terminarmos, lives de treinos no Instagram e tentativas de receitas elaboradas que nos frustram.

 

Só por hoje a gente tem o direito de sentir mais, chorar, ter medo e raiva e até descrença .

 

E de se cobrar menos.

 

Foto: Admirável Mundo Novo

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Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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