Eu e Mariah Carey na Tijuca

 

 

Imagino que cada capital brasileira tenha um bairro como a Tijuca: tradicional, grande, violento, cheio de lugares interessantes, cinemas, lanchonetes, shoppings e coalhado de gente bonita. Quando menciono este último dado, sem querer ofender ou desrespeitar a opção de sexual de ninguém, mas colocando a minha no foco, me refiro às mulheres. E a Tijuca, lugar que frequentei assiduamente por alguns anos da minha vida, sempre foi um lugar muito pródigo neste quesito. O mais legal da beleza feminina de lá era a diversidade. Enquanto nos bairros da Zona Sul carioca, a lindeza era branca e uniforme, a “Copacabana da Zona Norte” (tijucanos odeiam este termo, mas o digo com carinho, creiam) era fértil em várias variantes de beleza. E ainda mais bacana era o fato de que, enquanto as meninas do Leblon não olhavam mais pra mim, as de lá eram muito mais legais, simpáticas, engraçadas e autênticas. Dito isso, não sei exatamente o porquê, em algum ponto dos anos 1990, passei a olhar pra Mariah Carey como sendo uma tijucana contrabandeada no showbiz mundial. Talvez por sempre ter achado que a moça era, além de talentosa, legal e divertida o bastante para não ser inacessível ou chata. Ou eu entendi tudo errado, vá saber. O fato é que eu decidi provar minha teoria em quatro argumentos musicais da carreira da moça, que lançou há uma semana uma compilação de raridades chamada … “The Rarities”, que traz num CD duplo, várias canções obscuras a íntegra de uma apresentação no Japão, em 1996.

 

As incursões – raras – de Mariah no terreno do r&b noventistas são sensacionais e muito bem pensadas, seja em composição, seja em produção. Estas quatro faixas, gravadas entre 1993 e 1999, são colossais trabalhos de estúdio e serviram para mostrar uma versatilidade que a menina tinha, mas era restrita ao terreno das baladas românticas, que caracterizaram seus dois primeiros álbuns. Foi no terceiro, “Music Box”, de 1993, que ela soltou a primeira lindeza suingada da carreira, em cujo clipe exibe sua tijuquice inegável, passeando por campos idílicos, brincando com amigos, naquilo que poderia ser um fim de semana no campus da UFRRJ em Seropédica, periferia do Rio.

 

“Dreamlover” é uma canção perfeita, com ótimos vocais, produção de Dave Jam Hall, com direito a sample certeiro de um sucesso de 1972 do trio vocal Emotions, chamado “Blind Alley”. A mão de Hall é sutil, inserindo os trechos com maestria na estrutura da canção, deixando a graça toda para Mariah percorrer a letra em que fala da espera por um “namorado dos sonhos”. Sendo assim, nossa primeira parada, com “Dreamlover”, é Mariah Carey num fim de semana na Rural.

 

 

“Fantasy”, faixa de abertura de seu quatro álbum, “Daydream”, de 1995, é outro colosso dançante e cheio de graça. Novamente produzida por Hall, Mariah surge se divertindo num parque de diversões, um Playcenter, um Parque Xangai, um lugar em que todo mundo já esteve nesta vida. Enquanto ela vai pela montanha russa ou trem fantasma, a gente fica prestando atenção na estrutura da faixa e nota, sem muito esforço, que o sample aqui é de “Genius Of Love”, do Tom Tom Club, projeto alternativo que Chris Frantz e Tina Weymouth, baterista e baixista do Talking Heads, respectivamente, mantinham nos anos 1980. O objetivo do casal-cozinha era exacerbar o amor da banda pelo funk e, a partir disso, assumiu posição com várias canções bacanas. O fraseado de guitarra que eles criaram é extraído com precisão cirúrgica e colocado por todos os cantos de “Fantasy”, emprestando à faixa uma veia dançante rara de se encontrar. É um daqueles casos de ótimo uso do sampler, como é, por exemplo, em “Set Adrift On Memory Bliss”, do PM Dawn.

 

 

O próximo passo é a Mariah Carey brincando de espiã sexy em “Honey”, faixa-título de seu disco de 1997. O clipe mostra a moça como heroína capturada por vilões desprezíveis, que a torturam sem dó. Nada, no entanto, poderá deter a “agente M”, que consegue se libertar e foge de jetski. Engraçado que este sucesso já mostra uma mudança de pele em Mariah, que antes aparecia recatada em seus vídeos. Aqui ela surge em generosos takes usando biquini e fazendo um papel muito mais sensual. O fato é que a canção é outra belezura da arquitetura do sampling noventista, usando dois dos mandamentos mais corretos: uso de canções não conhecidas e a boa manipulação dos trechos em meio à estrutura da faixa. Foram escolhidas duas músicas obscuras dos anos 1980, “Hey DJ”, do grupo World’s Famous Supreme Team (1984) e “The Body Rock”, dos The Treacherous Three (1980). Créditos para , veja só, Puff Daddy e Q-Tip, dois dos produtores do álbum. Devidamente integradas ao todo, estas duas gravações dão a “Honey” um clima de faixa em midtempo absolutamente delicioso, ajudando a consolidar esta afeição de Mariah pelo r&b dos 1990.

 

 

Fechando os argumentos, temos a colossal “Heartbraker”, produzida por Jay-Z, em 1999, dentro do álbum “Rainbow”. A canção é integralmente calcada em “Attack of the Name Game”, da cantora Stacy Lattisaw, lá de 1982 e apresenta uma história em que Mariah vai ao Art Tijuca com as amigas lá encontra o namorado com outra (que ela também interpreta). O que se vê em seguida é uma confusão generalizada, em que o sujeito é bombardeado com pipocas ao longo da sessão, enquanto Mariah embosca a menina que está com ele, no banheiro, iniciando uma luta em estilo oriental. Em seguida, ela senta ao lado do malandro, jogando refrigerante nele. Enquanto isso, a tela do cinema mostra um desenho animado com Jay-Z, que não pode aparecer no clipe por questões contratuais.

 

 

Depois de “Heartbreaker” eu não mais ouvi alguma canção de Mariah com atenção. Na verdade, nunca fui um conhecedor de sua obra, mas sei que sua evolução como artista e cantora de sucesso mundial passa por estes momentos de r&b tijucano dos anos 1990. Ela poderia estar numa rampa da Uerj, comendo uma pizza no Pinóquio ou, quem sabe, tomando uma casquinha de cereja na Molinaro, vá saber. Música é essa coisa sem explicação, que faz a gente misturar as estações. De qualquer forma, estas quatro canções são meu quarteto fantástico de belezuras dançantes e inocentes daquela década tão importante e que já está tão distante. Mariah tijucana, eu acredito.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Eu e Mariah Carey na Tijuca

  • 12 de outubro de 2020 em 11:12
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    Olá! Aproveito o seu texto para tirar uma dúvida: quando eu era moleque, lá pelos anos 80, quando comecei a conhecer e gostar de rock, o termo “rythm and blues”, ou R&B, designava apenas uma vertente do blues, aquele estilo clássico, uma das origens do rock n roll, onde se destacavam grandes guitarristas, gaitistas, etc. Lá pelos meados dos 90, no entanto, esse mesmo termo passou a designar a música pop com leves influências de soul, rap, etc. Estou correto? Por que houve essa mudança? Ou não é nada disso, hahaha? Abraços.

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    • 12 de outubro de 2020 em 12:10
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      Fala, Jean! Sim! O nome dessa variação mais pop da música negra, herdeira de sonoridades mais clássicas, é o r&b noventista.

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