Blur x BrExit

 

Dia 25 de abril, “Parklife”, terceiro álbum da carreira do Blur, completou 25 anos. Seria lógico pensar que a banda inglesa estaria em turnê, relembrando o disco – talvez o mais importante que já gravou e lançou – com shows dedicados a tocando-o de cabo a rabo. Mas não, pelo contrário. Damon Albarn, o líder do quarteto, disse que o Blur não se sentia confortável para falar dos assuntos que “Parklife” trata. Não agora. Não hoje. Albarn, um cara inteligente e muito acima da média do showbusiness atual, ainda disse que esta é a opinião unânime entre os integrantes, que tocar “Parklife” inteiro, especialmente celebrando 25 anos, agora não dá. Há uma razão para isso, pessoal, e ela se chama BrExit.

Antes de abordar o assunto, faço uma ressalva. Como habitante da fatia menos favorecida do planeta, eu culpo a ordem econômica mundial vigente pela desigualdade crescente entre ricos e pobres. Esta lógica financeira foi sacramentada e imposta a partir do fim da experiência socialista soviética na Europa, em fins dos anos 1980, respingando nos anos 1990. Vivemos – ainda hoje – no mundo que veio depois disso e sua principal característica é o neoliberalismo. Desta forma, sou pessoalmente favorável a qualquer ação que sirva para desmobilizar esta maneira de pensar a economia planetária. O BrExit, em muitos aspectos, vai – ainda de em linhas tortíssimas – a favor disso. Lembrem-se, eu sou brasileiro e tenho convicções politicas e pessoais com as quais você não precisa concordar. Por exemplo: Albarn, inglês, três anos de idade a mais que eu, um cara que admiro bastante, discorda frontalmente de mim. Ele é contra o BrExit e seu ponto de vista é plenamente justificado. Só lembrando: o BrExit é o nome dado ao movimento de saída do Reino Unido da União Europeia. Com sede em Bruxelas, e UE é um dos suportes mantenedores do neoliberalismo no mundo, um mecanismo que promove vantagens para poucos e impõe desvantagens a muitos. Se eu fosse inglês, certamente seria contra o BrExit. Mas, repito, este texto é sobre outro assunto, talvez mais interessante.

“Parklife”, lançado em 1994, foi um disco que confirmou o que já existia nos subterrâneos do rock inglês daqueles tempos: um número grande de bandas redescobrindo uma “britanicidade” (minha tradução livre para o termo “britishness”) que podia servir como combustível de inspirações. E era exatamente isso que estava acontecendo, sendo que o Blur era um dos protagonistas desta tendência. Seu disco de 1992, “Modern Life Is Rubbish”, substituíra as tinturas do acid rock do fim dos anos 1980 por um abraço apertado a uma série de acenos ao que bandas como Kinks e Small Faces faziam nos anos 1960: uma crítica aos costumes da sociedade do Reino Unido, ao deslumbre com as tradições dos tempos do Império Britânico, às excentricidades, o gosto questionável, à monarquia, enfim, ao que significava ser britânico, a tal da britishness. “Parklife” aprofundou esta crítica muito mais e se tornou um disco conceitual sobre este assunto. Se olharmos para 1994, veremos que a Inglaterra de então estava presente nas 16 faixas do disco, exposta, analisada e, por fim, ironizada. Era a oposição entre dois mundos: este, tradicional, datado, brega, e um novo, que chegava com estes novos tempos pós-URSS: livre, moderno, jovem, tecnológico e cheio de vontade de substituir o velho. Autores como Zygmunt Bauman e Milton Santos falaram disso em suas obras, dá uma lida que você vai gostar.

Pois bem. Esta gente que o Blur apontou e ironizou em “Parklife”, foi, justamente, a responsável pela votação favorável ao BrExit. Poderíamos cravar que a própria Primeira Ministra Theresa May tem potencial para figurar como personagem numa das muitas canções do disco. Essas pessoas, que são conservadoras, sob o ponto de vista inglês, pensam que o país se prejudicou com o passar dos anos. Postos de emprego foram perdidos para mão de obra mais barata – vinda do próprio continente europeu, especialmente dos países do leste, ex-soviético e desmantelado pelo próprio neoliberalismo, e de países africanos próximos -, que o fluxo de imigrantes, seja de ex-colônias britânicas pelo mundo, seja de membros mais pobres da UE, está acabando com o país, com a cultura, suscitando manifestações racistas e xenófobas. Quem é favorável ao BrExit, sob o ponto de vista essencialmente britânico, na Inglaterra, quer voltar aos tempos dos anos 1980 ou mesmo antes. Esse é um traço indelével, talvez ignorado por “Parklife”, da tal britishness: o conservadorismo político.

Albarn hoje admite que seu disco pode ter sido ingênuo. “Há 25 anos era possível falar desses assuntos de um jeito não-político” – disse ele ao Independent, sem lembrar da regra básica desse tipo de assunto: TUDO é político, Damon. Tudo. O disco do Blur foi extremamente político em tempos favoráveis a este tipo de crítica, hoje, devido ao contexto, não é. Tornou-se quase uma cartilha de orgulho pró-BrExit, uma vez que o conservadorismo não entende a ironia. Estamos vendo isso aqui, in loco, nos tempos atuais. A imprensa inglesa, no entanto, saudou o segundo disco do projeto de Albarn, The Good, The Bad And The Queen, “Merrie Land”, lançado no fim de 2018, como um trabalho vigoroso anti-BrExit, mas, pelo menos em termos criativos, ele fica milhas atrás de “Parklife”. Talvez Albarn não seja mais capaz de compor uma trinca de canções encadeadas como “Tracy Jacks”, “End Of A Century” e “Parklife”, que, juntas, ainda me dão vontade de sorrir mesmo tanto tempo depois de lançadas.

Meu ex-professor Daniel Aarão Reis, ativo e presente nas redes sociais, diz que os tempos atuais mostram que a UE, de fato, não é mais capaz de sustentar os interesses das sociedades europeias de uma forma abrangente. Promoveu e disseminou um neoliberalismo cruel, que acabou com as salvaguardas estatais de benefícios históricos, arremessou contingentes enormes no desemprego/subemprego e desmantelou instituições que zelavam pela manutenção de uma igualdade mínima entre os setores das populações – a saber, saúde pública, ensino público, política de moradia. O resultado foi o aumento da desigualdade e o desespero dessas pessoas, que passaram a acreditar em soluções imediatas e fáceis, que significassem o fim deste processo destruidor. Em vez de acreditarem numa Europa voltada para os sindicatos e para o pleno emprego como meio de retomar algum patamar de equidade, essa gente acreditou em nacionalistas, xenófobos, que surgiram de suas tocas com slogans como “Britain Come First” ou algo assim. Deu no que está dando.

Perdemos “Parklife” para a pós-modernidade, que o ressignificou como um manual de uma sociedade caduca, que retornou do ocaso. Ou, píor, que nunca tenha, realmente, saído de cena?

Em tempo: fenômenos como o BrExit fazem parte de um contexto global. Esta situação do neoliberalismo afeta a vários países, gerando posições semelhantes em Hungria, Itália, Polônia, Holanda, Ucrânia…Estados Unidos e Brasil, entre outros.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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