Entrevista – Rubel

Um artista pode dizer tudo. E tudo pode melhorar a vida das pessoas – Rubel

 

Rubel é um dos grandes nomes desta novíssima leva de cantores/compositores brasileiros. Com influências variando do rap americano atual à MPB setentista, passando por Los Hermanos e o revival do folk, Rubel mistura tudo e consegue aquilo que poucos são capazes: criar um som próprio.  Além das influências estéticas, conta muito, claro, a vivência do sujeito, passada entre Volta Redonda (sul do Rio de Janeiro), a capital fluminense e um bom tempo nos Estados Unidos.

Não por acaso, seu segundo disco, “Casas”, frequentou as listas de melhores de 2018 e credenciou Rubel para uma turnê por Portugal, que se inicia daqui a poucos dias. Antes de partir para o além-mar, conversei com ele para saber um pouco do que vai em sua mente, casos do passado, inspiração e uma pauta recorrente nas entrevistas da Célula Pop: a visão do país na atualidade. Eis o resultado.

 

– Uma pergunta inevitável: quando sai seu próximo disco?

Ainda não tem previsão. Meu foco agora é a divulgação do Casas.

 

– Como foi sua passagem pelos USA em 2011? O que você trouxe desta experiência para a sua música?

Trouxe a influência do folk americano, o banjo texano, o acordeom, e, acima de tudo, uma coragem para compor, cantar e gravar as minhas músicas do meu jeito, sem me preocupar muito com a forma como seriam recebidas.

 

– Você nasceu em Volta Redonda mas mora no Rio desde pequeno. Qual é a influência da cidade na sua obra?

Muita gente diz que minha música tem uma atmosfera solar e praieira. Isso deve ter a ver com minha vida no Rio, desde os sete anos de idade.

 

– Há uma grande mudança estética do seu primeiro disco, Pearl (2013) para o segundo, Casas, de 2018. O que aconteceu neste espaço de tempo?

O que aconteceu foi que comecei a ouvir muito Hip Hop e deixei de ouvir Folk. O violão de aço perdeu a graça e os beats passaram a fazer todo sentido. A forma de produzir música e a forma de organizar as palavras no rap me fizeram querer buscar um tipo de canção diferente do que eu fazia antes.

 

– Sua canção “Colégio” foi uma das minhas preferidas de 2018. Conta um pouco da inspiração pra ela?

A inspiração inicial era narrar um dia na vida de um colégio. Fazer um recorte de vários personagens e várias histórias passadas em um mesmo dia dentro de um mesmo lugar. Acabou virando uma colagem autobiográfica das próprias histórias que eu vivi durante a infância e a adolescência na escola onde eu estudei.

 

– Você tem uma grande influência de Los Hermanos, mas consegue escapar das comparações com o uso extenso da eletrônica, a aproximação com o samba e o rap, além de uma informalidade nas letras. Quais são as suas inspirações?

Para o Casas as principais inspirações foram o Hip Hop americano e nacional, e a MPB dos anos 70. Chance The Rapper, Frank Ocean, Kanye West, Kendrick Lammar, Criolo, Emicida, Rincon Sapiência, Jorge Ben, Gilberto Gil, Caetano Veloso.

 

– Hoje em dia, pleno 2019, qual é a importância de ter uma canção em trilha sonora de novela? Faz diferença?

Eu acredito que faz diferença. Grande parte do Brasil não passa tempo vasculhando novos artistas na Internet. Provavelmente a maior parte do Brasil não faz isso. Se você tem interesse em ser popular e em comunicar com o povo brasileiro, acho que uma música na trilha de novela ainda é importante.

 

– Você regravou uma canção da dupla Maiara e Maraísa e outra da Adriana Calcanhotto recentemente. Como você lida com essa distinção que alguns fazem entre pop e popular?

Não sei exatamente qual é a distinção que fazem. Mas na minha cabeça, Música Pop está associado a músicas dançantes, animadas, groovadas e simples (Anitta, Ivete Sangalo, Ed Sheeran), e música popular pode ser qualquer estilo que alcance um público gigantesco (como o Sertanejo, Caetano Veloso ou Dorival Caymmi). Acho todos esses caminhos válidos e ótimos.

 

– Você está partindo numa turnê por Portugal, onde há uma cena interessante de bandas e artistas novos. Como você vê esses artistas? Algum preferido?

Gosto muito de um artista português novo chamado “Janeiro”.

 

– Você deu uma entrevista para o site Monkeybuzz falando sobre a responsabilidade de honrar um legado da MPB. Como você vê a sua contribuição nesse sentido?

Não gosto de ficar pensando muito sobre minha contribuição no legado da MPB porque isso me levaria a loucura (para melhor ou pior, tanto se for uma contribuição considerável quanto se for uma contribuição inexpressiva) e porque não dá para ter perspectiva ainda. Acho que esse tipo de definição só dá para se ter daqui a algum tempo, quando a gente tiver distanciamento para entender o que prestava de cada década. E, mesmo com esse distanciamento, ainda é um bocado subjetivo determinar a contribuição de cada artista para o legado de um gênero musical como a MPB. Mas recebo muitas mensagens de gente dizendo que se inspira no meu trabalho para compor ou cantar. E isso já me deixa imensamente feliz. Alguma coisa certa eu devo estar fazendo.

 

– Como artista, você prefere lançar um bom single ou um bom disco? Acha que o formato de uma canção está dominando por conta do streaming?

Eu sou apaixonado por discos, então preferiria lançar um bom disco a um bom single. Acho que o formato está mudando sim. O streaming é um meio muito favorável aos singles, que podem entrar em playlists e serem ouvidos rapidamente. São tacadas curtas e potentes. Mas vejo isso com bons olhos. Acho que é bom dar uma sacudida nos formatos de quando em quando. Isso talvez obrigue os artistas a pensar a música de forma diferente, com mais concisão. E também permita o artista a se explorar em projetos menores e mais arriscados que não vão demandar dois, três anos de trabalho, como um disco. E, no fim das contas, acho que sempre vai ter espaço para os discos. As pessoas ainda vão querer parar por uma hora contínua para ouvir alguém que diga alguma coisa.

 

– Como você acha que o artista pode contribuir para melhorar a vida das pessoas?

De todas as formas possíveis. Um artista pode dizer tudo. E tudo pode melhorar a vida das pessoas.

 

– Qual a sua visão sobre a situação atual do país?

Acho que é um momento em que o Brasil está revelando uma face que tentou ficou escondida durante muitas décadas. A face do conservadorismo, do preconceito, do elitismo, da homofobia. Esses valores, que se disfarçam tantas vezes de “luta pela família ou pelo cidadão de bem”, sempre foram presentes na formação da nossa identidade nacional – que sempre prezou tanto pela manutenção dos privilégios de pequenos grupos – mas estavam silenciosos, talvez envergonhados, escondidos em algum canto. O discurso incendiado do Bolsonaro reverberou com todos esses valores, deu um aval para o conservadorismo radical sair do armário e o embate ficou nítido. Os reacionários saíram do armário e eles estão por todos os cantos. Por isso tantas famílias e amigos brigando e rompendo. É uma verdade que não dá mais para se ignorar. É terrível, é assustador, mas é também é parte do Brasil. Isso também é Brasil. E vamos ter que lidar com esse Brasil.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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