Bowie Anos 80 – Dez Anos em Cinco

A História nos ensina que os intervalos temporais são definidos por fatos. Assim – grosso modo – contamos a passagem do tempo e isso não significa restringir esta observação à matemática pura e simples. Sendo assim, séculos não têm, necessariamente, cem anos. Décadas podem não ter dez anos e por aí vai. É o que há de mais avançado na perspectiva historiográfica, fonte de inspiração para iniciar este texto sobre os anos 1980 de David Bowie. O motivo? Estão chegando ao mercado nacional três representantes do mais clássico da produção bowieana do período: “Let’s Dance” (de 1983, com a remasterização mais recente, do ano passado) e os duplos ao vivo “Serious Moonlight” (1983) e “Glass Spider” (1987). Estes últimos são novidades em formato de áudio, uma vez que só foram lançados em VHS na época. Estes lançamentos são fragmentos da caixota “Loving The Alien 1983-88”, que dá prosseguimento ao encaixotamento da carreira de Bowie, com remasterizações, discos de singles, faixas-bônus, ou seja, uma festa para os ouvidos.

Dá pra entender a ação da Warner ao lançar essas edições avulsas, uma vez que, em tempos estranhos como os nossos, nem todos têm condições de importar a caixa, mas adorariam acrescentar estes títulos às suas coleções de Bowie. Especialmente os dois duplos ao vivo, mitológicos, cada um a seu jeito. Mas, você me pergunta, “por que a década de David Bowie durou menos que dez anos?”. Eu já respondo apontando o próprio recorte que a caixa propõe: 1983 a 1988. Do lançamento de “Let’s Dance”, no fim daquele ano, até a retirada de Bowie de sua carreira solo para integrar o Tin Machine, em 1988. O que ele produziu de “oitentista” está aqui, neste espaço de tempo. Preciosistas acrescentariam “Under Pressure” a este recorte, o que é aceitável, e talvez estendesse a análise até o ano de 1982, mas não seria totalmente justo. Sendo assim, com a exceção feita a esta colaboração platinada com o Queen, Bowie nos anos 1980, só entre 1983 e 1988. E pronto.

Interessante notar que esta contagem de anos não se retringe apenas ao discos. Foram três álbuns de inéditas: além do mencionado “Let’s Dance”, vieram “Tonight” (1984) e o discutível “Never Let Me Down”, de 1987. Apesar deles, três dos maiores sucessos de venda de Bowie vieram em compactos: a versão galhofeira – e sensacional – de “Dancing In The Street”, parceria com Mick Jagger, lançada em 1985, para o Live Aid, foi um arrasa-quarteirão e promoveu um reencontro dos dois. Além disso, gerou um dos clipes mais legais de todos os tempos. “This Is Not America”, inusitada parceria com Pat Metheny, se tornou um dos maiores sucessos radiofônicos da década e da carreira de David. Entrou na trilha sonora do filme “The Falcon And Snowman”, lançado em 195. Por fim, “Absolute Beginners”, de 1986, outra canção de trilha sonora cinematográfica, lançada em single com muito sucesso. Pra completar o pacote multimídia – algo bem bowieano – ele ainda participou do ótimo filme “Furyo – Em Nome da Honra”, vencedor do Bafta de 1984, ao lado de Ryuichi Sakamoto. E de “Labirinto”, em 1986, num papel em que contracenava com uma pré- adolescente Jenniffer Connely.

A parte musical – que nos interessa por aqui – divide opiniões entre os fãs. A maioria sabe que David mergulhou no espírito do superestrelato já com “Let’s Dance”, num tempo em que o próprio padrão da MTV e da veiculação de singles e discos em plataformas além do áudio estava sendo formado. O disco rendeu três singles arrasa-quarteirão: “China Girl”, “Modern Love” e a faixa-título. A ideia de um “disco dançante”, para Bowie, na época, passava pela produção de Nile Rodgers e da participação dele e de Bernie Edwards (ambos do Chic) na concepção sonora e na própria banda – do disco e do show. Sendo assim, é possível ver a total influência do funk estilizado daquele início de década na sonoridade que “Let’s Dance” – e, por tabela, “Serious Moonlight” – ostentaram e ajudaram a divulgar para o mundo. Mesmo com o sucesso planetário da empreitada dupla, David já virou a chave para “Tonight” um ano depois, oferecendo uma espécie de complemento conceitual a “Let’s Dance”, que ficou aquém do que poderia render.

Mesmo que “Tonight” tenha hits respeitáveis, como “Blue Jean” e a sensacional balada “Loving The Alien”, além de tesouros escondidos como “Tumble And Twirl” e “Dancing With The Big Boys”, não chegou a arranhar o sucesso do anterior e colocou David numa posição frágil em relação às expectativas sobre seu próximo trabalho. A chegada de “Never Let Me Down”, em 1987, renegado pelo próprio cantor e compositor inglês, só ajudou a sinalizar para um esgotamento conceitual. David procurou fazer um disco com rocks mais enguitarrados, porém errou a mão na produção – assinada por ele. É um paradoxo de vendas e sucesso em relação Às opiniões de críticos e fãs, uma vez que o disco chegou ao Top 10 Britânico, mas nunca foi aceito pelos admiradores do cantor. Podemos dizer que a responsabilidade dessa boa performance foi o hit “Day In Day Out”, que teve boa receptividade no início de 1987. O bode foi tão grande, que David só lançaria um disco solo novamente em 1993, o bom “Black Tie White Noise”.

Mesmo que o álbum fosse controverso, David Bowie resolveu sair em turnê mundial divulgando-o com uma forte carga cênica contida nos shows. Isso só ajudou a desviar o foco do repertório atual do cantor para os clássicos do passado e fazê-lo torrar grandes quantidades de dinheiro para criar o ambiente visual que pensara, algo que não fazia desde a turnê de “Diamond Dogs”, treze anos antes. Mesmo assim, a Glass Spider Tour foi uma das maiores de seu tempo e seus shows tornaram-se mitológicos com a passagem do tempo.

O Bowie oitentista é esta criatura misteriosa e de difícil abordagem. Muita gente gosta de dizer que foi o pior momento de sua carreira, mas é algo para se discordar frontalmente. Podemos assegurar que é um período em que David estava inquieto, procurando ideias e caminhos, enquanto – ocasionalmente – produzia grandes canções. É uma época de ótimas canções, discos não tão bons, mas respeitáveis, e shows que entraram para a história. Estes três álbuns, que chegam ao mercado agora, ajudam a lançar luz sobre este tempo, uma alegria para velhos fãs e uma obrigação para neófitos.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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