Entrevista: Carne Doce

 

 

Há seis dias publicamos a resenha do novo álbum da Carne Doce, “Interior” e demos a cotação máxima, cinco estrelas vermelhas.  A sonoridade, as melodias, o clima, tudo que o disco evoca surgiu como um único bloco de informação e beleza nos ouvidos e não deu pra ser diferente. Submergimos neste universo proposto por Salma Jô, Macloys, João Vitor Santana, Aderson Maia e Fred Valle e vimos que não daria pra falar sobre tudo o que vimos/ouvimos numa resenha, por melhor que ela fosse. Sendo assim, complementamos a nossa abordagem da banda com esta entrevista. Aqui até fomos além do disco, trazendo mais informações sobre a carreira, a postura e a sanidade da banda diante deste país tão estranho que nos rodeia. Vamos lá.

 

– A sensualidade e o ser mulher são fatores marcantes nas letras e nas atuações da banda. Como é a recepção do trabalho de vocês pelo público?

Salma – Sim, ser mulher é um fator porque eu sou a letrista e tenho uma pegada de fazer letras íntimas, emotivas, “confessionais”, e a sensualidade é um fato marcante porque sempre fui uma pessoa mais sensual também, sou a frontwoman e gosto de performance mais apaixonada. No caso do show do “Tônus”, inclusive me permiti experimentar minha sensualidade e meu corpo de forma mais explícita, algo mais “diva pop”. Mas agora já vejo que, se pudermos trabalhar o “Interior” ao vivo, vou buscar outra linguagem no palco, o som está mais sereno e eu também. Eu acho que o nosso público de forma geral sempre foi simpático a essas experimentações.

 

– A Carne Doce é uma das bandas mais importantes no cenário independente do Brasil. Como vocês percebem a trajetória de vocês da estreia até este novíssimo “Interior”?

Salma – É uma trajetória que nos dá muito orgulho. Foram muitos shows, muitas viagens, muitos momentos e encontros importantes que naturalmente se refletiram em um aprimoramento artístico, somos melhores músicos hoje, individualmente e em conjunto. Acho que o “Interior” reflete todo esse aprendizado.

 

 

– As letras da Carne Doce são explícitas, “Amor Distrai”, “Artemísia”, “Falo” são apenas algumas de um apanhado de poesias diretas. Como é o processo criativo e como as letras surgem? Elas são pensadas em determinado público ou são espontâneas?

 

Salma – As letras são minhas. Surgem em momentos solitários meus, e geralmente depois de uma luta para tentar silenciar os públicos da minha cabeça. Gosto de escrever letras que reflitam questões atuais, mas a espontaneidade, ou buscar divertir e emocionar primeiro a si mesmo, geralmente parece ser a melhor abordagem para criar algo interessante.

 

– A Carne teve início com Salma e Macloys, vocês são um casal que trabalha junto. Vocês conseguem separar o ser um casal de ser colegas de banda ou tudo é junto e misturado? E como vocês lidam?

Salma – É realmente tudo junto e misturado, acho que só sinto essa separação quando estamos muito concentrados ou tomados pela experiência do show, emocionados pela música, aí talvez entramos num estado meio meditativo enquanto banda e nos esquecemos do nosso romance, da vida social, de etc. Mas enfim, pode ser muito conveniente ser um casal numa banda independente, porque é um projeto que exige muita paixão mesmo.

 

– A sonoridade de vocês é bem marcante, tanto pela voz inconfundível da Salma quando pelo instrumental. Quais são as influências de vocês e o que têm ouvido ultimamente e indicam?

Salma – As influências são as mais diversas, cada um teve uma educação musical diferente. Atualmente um som que todos ouviram foi Lianne La Havas, no último álbum auto-intitulado, porque o Mac saiu mandando pra todo mundo, mas ela não é uma referência unânime.

 

– O consumo da música tem mudado e presenciamos uma geração que consome playlists e singles. Neste ano vocês lançaram cinco singles e mais o álbum cheio. Como vocês se percebem fazendo trabalho independente diante do cenário de rápido consumo e necessidade de produção?

Salma – Acho que desde quando estreamos essa já estava sendo a estratégia geral: lançar alguns singles antes do álbum completo. Mas agora com a pandemia a gente sentiu a necessidade de fazer isso com ainda mais músicas, e de gastar mais tempo entre esses lançamentos. É uma condição do nosso trabalho: o mesmo meio que nos permite maior acessibilidade e alcance é também o que torna as nossas obras mais efêmeras.

 

– Todo mundo teve que se adequar diante da Covid-19, isolamento social e cuidados redobrados. Neste sentido, como foi pensado e produzido o disco “Interior” enquanto trabalho criativo e coletivo?

 

Salma – Tivemos de fragmentar uma gravação que duraria uma semana em várias sessões de gravação ao longo de vários meses. Fizemos a escolha de gravar alguns instrumentos em casa, de usar samples e sintetizadores. Tivemos desafios novos, como o de interpretar músicas que a gente já não ensaiava em conjunto há muito tempo. Nesse sentido foi brilhante o trabalho do João Victor como nosso produtor musical, e do Braz Torres na mixagem.

 

– “Hater” é uma canção super atual, faz parte da cultura do cancelamento que vivemos. Com as redes sociais muita gente acaba tendo acesso ao trabalho de vocês e muitas vezes “entram” no cotidiano do próprio artista. Como vocês lidam com as redes e já ouviram muitos absurdos relacionados a vocês?

Salma – Sim, nós já lemos vários absurdos que na verdade ninguém nunca teve coragem de dizer pessoalmente. Lidar com isso na Internet é muito ingrato, especialmente porque, como muitos chegam criticando, a própria arquitetura da Internet favorece a viralização do ódio e da mentira, e esse é um processo que não vai mudar tão cedo. Então a gente tem que acabar se resignando e aprendendo a viver com isso. O “hater” mesmo é anterior à Internet e à cultura do cancelamento, mas no ambiente virtual ele conquistou muito mais possibilidades de sucesso.

 

– “Saudade” é um faixa que reflete muito o estado de espírito neste período de isolamento social. Temos saudades até do que não vivemos e esta palavra só existe na nossa língua. Como vocês lidam com este tema específico?

Salma – No caso dessa música, o sentido de saudade era mais irônico, pois trata-se da saudade de um momento em que um certo relacionamento foi bom, foi feliz, mas já não é mais. Já agora, a gente está sentindo saudade dos shows, de trabalhar na estrada, e inclusive das chateações, dos perrengues da estrada, do cansaço, rs.

 

– Em relação à situação atual do nosso país, como vocês estão mantendo a sanidade mental, ou não mantendo?

Salma – Nosso estado mental já variou muito, já experimentamos cada um momentos de muita ansiedade, de mal estar físico mesmo, como vejo gente relatando por aí também. Mas estamos bem, ainda mais nesse momento em especial, lançando um disco.

 

** Foto: Natalia Arjones

 

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Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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