Enfrentando a narração esportiva da Globo

 

Eu sou torcedor do Flamengo e, como todos os outros, ando muito entusiasmado com a fase atual do time. Sob o comando do técnico português Jorge Jesus e com um elenco estelar, o Flamengo vem mostrando um futebol vistoso e moderno, certamente o melhor do país na atualidade. Sendo assim, não é de se espantar que eu tenha ligado a TV no domingo à tarde para ver meu time enfrentar o Athlético Paranaense, na temível Arena da Baixada, certo? E mais: tendo em vista o monopólio da comunicação vigente no Brasil, não havia outro jeito, a não ser sintonizar na Globo e me preparar psicologicamente para a narração do jogo.

 

Sim, porque este é um fator decisivo para curtir o jogo. Comecei a ouvir rádio esportivo quando tinha oito, nove anos. Ouvia a Rádio Globo AM, naquele tempo com os veneráveis locutores Waldir Amaral e Jorge Curi, além dos comentários de João Saldanha e Mario Vianna. Na TV tínhamos o saudoso Luciano do Valle e um iniciante Galvão Bueno. Bem, eram os anos 1980, portanto, não havia muita opção e a Globo, assim como hoje, dava as cartas, fosse no rádio, fosse na TV. A diferença estava no fato de haver concorrência. Bandeirantes na telinha e Tupi e Nacional no rádio, faziam sombra e, muitas vezes ultrapassavam a emissora do Jardim Botânico em qualidade e competência. Mas, ora bolas, isso foi há quase 40 anos. Era de se desejar que em 2019 houvesse mais opções, certo? Certo. Porém ficamos no desejo.

 

Ainda que a realidade do futebol brasileiro tenha tornado os clubes e os campeonatos estaduais e as competições nacionais reféns absolutos do dinheiro da transmissão da Globo, é notável ver como a resistência das concorrentes ficou menor, justo por conta da combinação “dinheiro + influência”, algo que segue inatacado, desde os meus tempos iniciais de fã do esporte. Sendo assim, não há como evitar o monopólio da Globo, que fica ainda mais forte e evidente nas transmissões de jogos de futebol, seja do time da CBF, seja dos clubes. Estes parágrafos são, portanto, para justificar a minha falta de opção no domingo à tarde. Se tivéssemos a equipe esportiva da ESPN Brasil na cobertura do prélio, não hesitaria em ver a narração de Rômulo Mendonça com os comentários de Leo Bertozzi ou Celso Unzelte, mas, por enquanto, isso fica no terreno do sonho.

 

Voltando ao jogo. O Flamengo jogou contra um dos times mais bem preparados do Brasil e conseguiu triunfar a despeito dos erros colossais da arbitragem e dos desfalques, cravando um 2 x 0 inapelável no Athlético e encerrando um tabu de não vencer o time paranaense em campeonatos nacionais desde … 1972. Mesmo assim, encontrei motivos suficientes para me irritar bastante com a narração de Luiz Roberto, um dos “Príncipes Charles” na narração da Globo, ou seja, aqueles que sempre serão sucessores de Galvão Bueno, até que este decida pela aposentadoria. Até lá, ele e Cleber Machado sempre serão “a segunda opção”.

 

Não bastasse a terrível imposição da emissora aos locutores para que eles anunciem atrações da Globo durante o jogo – novelas, Faustão, novelas, Fantástico, novelas, novelas, novelas – todo e qualquer lance da partida é visto com o lembrete de pontos que o jogador faz ou perde no Cartola FC, um jogo disponbilizado no portal G1, no qual o espectador escala times com os jogadores do Campeonato Brasileiro e, de acordo com o desempenho destes, vai somando pontos ao longo da temporada. Certo, é bacana e tal, mas eu – que não tenho time no Cartola – não deveria ser obrigado a ver este tipo de análise durante a transmissão, certo? Tampouco ser informado a cada instante de bola fora sobre o novo capítulo da novela A, B ou W, né?

 

Só que o Luiz Roberto passou dos limites do aceitável. Ele interpreta um personagem gente boa, simpaticão, que parece narrar sorrindo e contar pequenos causos durante a partida. Também é responsável por frases constrangedoras, como o “esses negros maravilhosos” entoado durante um jogo da seleção da Costa do Marfim na Copa de 2014. Pois bem, ontem, após uma imagem do técnico Jorge Jesus, ele resolveu ser engraçado. Perguntou para a comentarista Ana Thais, que o assessorava na transmissão:

– Ana Thais, mulher é que entende dessa coisa de cabelos longos – referindo-se ao técnico português – me diga: o Jorge Jesus faz luzes??

A comentarista, elegante e educada, não caiu na esparrela machista, e respondeu:

– Olha, Luiz, não é a minha área, mas a contribuição do trabalho do Jorge Jesus para o futebol brasileiro é imensa.

 

O assunto acabou ali mesmo, mas a pergunta do narrador global, desviando a atenção da partida para explorar esta ou aquela característica física – ele tem especial fixação em cabelos de jogadores e técnicos – e, ainda por cima, entender a participação rara de uma comentarista mulher numa transmissão do líder do campeonato, como alguém especializada em penteados e cabelos, é levemente inaceitável. Digo “levemente” porque o narrador, repito, faz o tipo tiozão legal, gente boa, levemente imprudente.

 

Não vi qualquer reclamação por conta disso, mas, na hora, o diálogo me incomodou bastante, seja pela falta de noção para com a colega, seja pela falta de noção para com a partida, para com o técnico português, enfim, para com sua própria função de representante de sua emissora de TV, algo que deve lhe render um bom salário mensal.

 

Não é a primeira vez que Ana Thais enfrenta esse tipo de “imprudência”. Durante a transmissão dos jogos da Copa do Mundo de futebol feminino, o outro “estepe” da narração esportiva global, Cléber Machado, virou pra ela e disse:

– Você vai começar a ser escalada direto pra comentar os jogos, hein?! Vai ter que trabalhar.

Ela respondeu:

– Eu sempre trabalho, desde os 18, Cléber.

 

Só o Flamengo em ascensão para me fazer testemunhar esse tipo de “profissionalismo” na TV. Hoje em dia, prefiro não ver. Só que, caso meu time continue sua escalada rumo à reedição de um 1981 histórico, terei que me submeter. Triste.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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