Gary Clark Jr. – This Land

Gênero: Blues, Rock
Duração: 72 min
Faixas: 17
Produção: Gary Clark Jr e Jacob Sciba
Gravadora: Warner

4 out of 5 stars (4 / 5)

Apesar de conhecido mundialmente e bem sucedido em sua carreira, Gary Clark Jr ouve coisas como “volte para onde você veio” ou “seu lugar não é aqui” quando está em seu estado natal, o Texas. Ele fala sobre isso logo na primeira canção deste ótimo “This Land”, não por acaso, a faixa-título. A resposta que Gary dá aos racistas é: ” f***-se, não volto para nenhum lugar, eu sou filho desta terra”. Ainda caberia um “tanto quanto vocês” na letra.

É com este clima que “This Land” se identifica e lida. Gary Clark Jr, 35 anos, é um autêntico bluesman do século 21. Há muito o blues deixou de ser purista, a menos quando surge como exercício de estilo. Aqui vemos como o gênero chegou às cidades, se integrou à sua vida e assimilou as influências do rock, do hip hop e da música eletrônica, incorporando e fornecendo elementos. Essa percepção evolutiva garantiu a Gary a chance de construir uma sonoridade que dialoga com a modernidade sem perder seus vínculos com o passado e a tradição. Mesmo que soe “inovador” demais aos ouvidos puristas, “This Land” tem elementos de sobra para conquistar os ouvintes.

A faixa-título reivindica sua filiação com batidas e guitarradas que não respeitam fronteiras. E isso vai adiante pelo disco, evitando que o ouvinte se depare com qualquer pastiche tradicionalista. O resultado é ótimo, especialmente em “What About Us”, com inegável presença da guitarra como elemento principal, mas cheia de groove roqueiro inevitável. Há mais surpresas: o falsete em “I Walk Alone”, o flerte explícito com o reggae em “Feelin’ Like A Million”, que alimenta a construção rítmica da canção sem perder a mão e nas guitarras crocantes da aerodinâmica “Gotta Get Into Something”.

Gary não poupa o ouvinte do tema central do disco. Em “Got To Get Up”, apenas com o refrão que repete o título, ele preenche o ritmo da canção com samples trazendo “kill’em all” como fala principal. “Feed The Babies” tem acento soul e “Pearl Cadillac” se vale de influências de Prince para construir-se num baladão clássico. No fim das contas, “The Guitar Man”, com pinta de canção soul/funk setentista atualizada, reflete sobre a presença do trovador urbano com sua guitarra em punho. Mesmo com a modernidade a seu lado, Gary acha espaço para a tradição em “Dirty Dishes Blues”.

Com noção de onde pisa e ótimo senso musical, Gary Clark Jr mostra que tem lugar entre os bluesmen mais laureados do passado, mostrando que é possível trazer o blues para o nosso tempo, sem soar descabido ou fora de contexto. Belo disco.

Ouça primeiro: “The Guitar Man”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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