Devemos refletir sobre Estácio e Emicida?

 

 

Ontem postei no meu perfil pessoal do Facebook o link para um comercial que Emicida fez para a Universidade Estácio de Sá. Nele, o rapper fala sobre o espectador “escrever sua brilhografia”, porque a instituição de ensino o ajudará. E fará isso com aulas presenciais “seguras”, ensino à distância, material didático, bolsas de estudo e, de acordo com a voz que endossa o artista, lá pro fim do comercial, “bancará metade do curso” para o aluno. A peça é uma cocriação da Artplan e do próprio Emicida. Tudo bem, estamos no momento mais selvagem do capitalismo, o que há de errado em emprestar sua imagem para um comercial de instituição de ensino?

 

Nada, claro. Afinal de contas é algo louvável e desejável incentivar nos jovens a vontade de aprender e ingressar no ambiente universitário. É lá que ele irá adquirir conhecimento, partir para o mercado de trabalho e conseguir sua independência financeira de maneira construtiva, gerando valor para a sociedade. Certo?

 

Certo.

 

Nos comentários feitos na página do Youtube da Estácio, há gente adorando a participação do rapper e outros reclamando da instituição, dizendo que não há aulas presenciais e que vários problemas dificultam a vida dos estudantes. Há uma frase dizendo que “o sistema da Estácio é idêntico ao nosso sistema político atual topa tudo por DINHEIRO. Estácio, sua teoria é linda e sua prática é ridícula.”

 

A ideia deste texto não é debater ensino público x ensino privado, até porque, no Brasil, as instituições particulares se beneficiam largamente de verba pública. Além disso, seria até desonesto da minha parte, uma vez que estudei num colégio particular bem caro no Rio de Janeiro, pago com esforço por meus avós maternos e minha mãe. Ele me forneceu a base necessária para adentrar minha carreira profissional. No início eu errei, achei que deveria cursar Direito e, vejam vocês, cheguei a fazer boa parte do curso na antiga Faculdades Integradas Estácio de Sá, no bairro carioca do Rio Comprido. Percebi que não era a minha vocação e parti dela para a Faculdade de Comunicação Social da Uerj, na qual adentrei em 1993, saindo em 1998. E em 2009, ingressei na Faculdade de História da UFF, na qual me graduei e me licenciei em 2014 e, posteriormente, obtive o grau de Mestre e onde curso do Doutorado atualmente.

 

Mas estamos no Brasil pós-2016, certo? O mesmo que achatou os direitos trabalhistas em nome da precarização do trabalho, seguindo tendência neoliberal vigente no mundo e aplicada aos países periféricos. Amigos professores me dizem que as universidades privadas não tratam a categoria lá muito bem, não há muito espaço para sindicato ou outro mecanismo de defesa da classe em meio aos mandos dos patrões. Também não precisamos falar dos ataques que os governos de temer e bolsonaro fizeram à própria natureza social das instituições públicas de ensino. Achatadas por cortes brutais nos orçamentos, vivendo campanha difamatória nas redes sociais, empreendida por integrantes dos próprios governos, elas são alvo recorrente na mídia, apesar de se manterem como polos de pesquisa e excelência de ensino superior no país.  E, bem, estudar nelas não custa dinheiro, é uma função do estado, assegurada pela Constituição Federal.

 

O modelo que instituições privadas seguem atualmente é baseado no que pratica o grande conglomerado internacional de ensino Kroton Educacional, que entende ser mais lucrativo o condicionamento de mais alunos a menos professores, o que significa mais gente por sala de aula, sob a orientação de um profissional de ensino, que não é exatamente bem remunerado. Tal lógica permite a ampliação quase viral das operações das instituições que conseguem sobreviver à concorrência destes conglomerados. Além disso, nem é preciso dizer, mas estudar em escola privada custa caro num país como o nosso. Vocês sabem.

 

Segundo o site Reclame Aqui, a Estácio tem os seguintes números:

 

– 19.370 reclamações no período de 01/09/2019 a 31/08/2020. Desse total, ela retornou a 18.496 delas, dando um percentual de 95.5% das reclamações atendidas.

– Ficou com nota de 5.2/10, pelo site, e foi avaliada por 5.314 alunos, o que resultou na nota de 3.67. No geral, 34.4% dos alunos voltariam a contar com a Estácio de Sá.

– Além disso, 50.2% foi seu índice de solução, o que mostra que ela ultrapassou um pouco a média.

 

A instituição, cujo nome de marca é “YDUQS”, é a segunda maior universidade do Brasil, com mais de 311.900 estudantes em 57 campi em todo o país, 39 dos quais estão localizados no estado do Rio de Janeiro.

 

Em 4 de outubro de 2019, a Estácio colocou em seu blog um artigo listando nove vantagens que justificariam a opção do aluno por uma instituição privada de ensino, entre as quais a de que nelas não há greves. Tal artigo motivou o repúdio da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee, especialmente porque, em última instância, isso significa a distorção dos direitos dos professores e demais trabalhadores da educação, além de uma advertência a quem se mobilizar, ferindo a liberdade de organização e manifestação.

 

Emicida nada tem a ver com isso.

 

Ou tem?

 

Não sei. Em tempos como os nossos fica complicado definir as fronteiras que devem nortear decisões que misturam imagem e produto.

 

Ou não deveria ser?

 

 

Em tempo: dentre as 20 melhores universidades do país, segundo o RUF – Ranking Universitário Folha – apenas duas são de natureza particular,  as PUCs do RS e do RJ, em 18º e 19º, respectivamente.

 

Aqui está o comercial

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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