Dei o novo disco do Muse para minha mulher e ela brigou comigo

 

Sim, é isso mesmo. É bom que se diga: minha senhora é fã da banda, pelo menos, de uma boa parte da carreira do Muse. Eu mesmo apresentei o trio inglês à ela lá por 2010/11 e tornou-se um vício. Ela fez playlists de streaming, comprou todos os discos e DVDs e virou uma fã, dessas de achar os caras bonitinhos e ter aquela admiração/amor que transcende a música. OK, nada errado nisso, mas, a julgar pela produção recente do grupo, especialmente, “The Second Law” (2012) e “Drones”, de 2015, o Muse vem mesmo decepcionando velhos admiradores. Até que …

 

Bem, vi o último álbum dos caras, “Simulation Theory”, em promoção num site da Internet. Achei que valia comprá-lo, nem que fosse para completar a coleção da banda. Até que contei pra ela:

 

– Olha, comprei o novo do Muse de presente pra você.

 

Ela respondeu, irritada:

– Mas, por quê?? Eu te disse que queria?

 

A despeito da reação surpreendentemente intempestiva, eu respondi:

– Não, mas os presentes geralmente são assim, né?

 

Ela se irritou ainda mais.

– Você comprou pra você.

 

Eu disse:

– De jeito nenhum, oras.

Ela encerrou o assunto:

– Eu não vou ouvir.

 

Sim, houve este diálogo meio acalorado por conta de um inocente exemplar de “The Simulation Theory”, que ainda está em trânsito. Minha mulher criou certo horror ao som do grupo, talvez sentindo-se enganada pelos álbuns anteriores e percebendo que o Muse se transformou numa pequena usina de trabalhos conceituais sobre apocalipse, domínios ditatoriais de araque, onipresença da mídia nas vidas privadas e temas distópicos em geral. Por outro lado, a mesma Maria Estrella, minha mulher, vem ouvindo – e curtindo – Imagine Dragons, uma versão eletrônica, diluída de várias bandas – Muse incluso. Sendo assim, não vejo muito motivo para este trelelê. Por via das dúvidas, decidi ouvir o novo do Muse para ver o que vem por aí.

 

A capa já entrega: os integrantes do Muse curtem filmes dos anos 1980, especialmente coisas como “Tron” e obras de Steven Spielberg. E devem ter amado “Stranger Things” e “Jogador nº1”, obras mais recentes que são totalmente devedoras da cultura pop oitentista. Bem, isso não é novo, visto que o trio inglês já se abastece destas informações desde sempre, mas, finalmente, parece ter deixado os discos conceituais de lado. Este tipo de trabalho, se, por um lado, fazia fãs delirarem com as historietas distópicas leite-com-pera, quase sempre geravam grande número de faixas feitas pra encher linguiça, conhecidas em inglês como “fillers”. Neste novo álbum não há nada assim, são onze canções diretas e retas.

 

Se, por um lado, não tem vôos conceituais, “The Simulation Theory” é o disco mais eletrônico do Muse, no sentido pop do termo. A banda não abre mão de suas características, especialmente os andamentos cadenciados e a voz sussurrante de Matt Bellamy – que soa ridícula quando tenta ser sexy, algo que ocorre em faixas como “Propaganda” ou emular um rap em “Break It To Me”, mas que ainda dá conta do recado na maioria do tempo. E há algumas revelações interessantes, todas no terreno do pop mais assumido. “Something Human”, por exemplo, parece uma versão acústica de alguma canção do Erasure, não soando totalmente fora de propósito. “Thought Contagion” tenta reeditar o timbre de guitarra cheio de efeitos e engata uma melodia interessante, calcada em ritmos sintéticos e bem pensados. “Get Up And Fight” é mais uma faixa totalmente eletrônica, que se presta a remixes e reedições, mas que cresce e se enguitarra perto do fim. “Blockades” é algo bem próximo do “velho Muse” de “Black Holes And Revelations”, disco de 2006, que colocou os caras no mapa do megassucesso mundial. “Dig Down” é uma outra faixa no clima de “Madness”, talvez a única faixa realmente boa de “The 2nd Law” e o fecho, com “The Void” é o máximo de tom épico que o Muse se permite por aqui, com mudanças de andamento e aquela pinta de sobra de estúdio do Queen, safra 1986.

 

“The Simulation Theory” não é horrível como poderia ser. Talvez seja até melhor que o último, “Drones”, mas não sei se tem força para engatar uma nova – e menos complicada – fase na carreira do Muse. O fato é que os caras continuam com as habilidades intactas e uma virtude: acreditam no que fazem, pois não há um único indício de picaretagem ao longo do álbum. Não sei se isso conta.

 

Quanto ao exemplar que está por chegar, vamos ver o que acontece. Eu mantenho vocês informados. Ou não.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

4 comentários em “Dei o novo disco do Muse para minha mulher e ela brigou comigo

  • 6 de novembro de 2019 em 15:48
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    Com todo o respeito eu aqui torcendo que sua esposa tivesse desistido do Muse e talvez acompanhasse suas indicações mais digamos “ sofisticadas “, ela migra para o Imagine Dragons, kkkk, ninguém merece!!!!

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    • 6 de novembro de 2019 em 16:24
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      Rapaz, pois é, a gente precisa reconhecer o valor do disco, do artista, do filme, do programa de TV….mesmo que a gente não ouça por gosto pessoal. Te digo que não ouço Muse há um bom tempo, tenho outras preferências, mas não seria justo detonar a obra dos caras … Agora, dá pra cravar que eles mudaram de direção na carreira. Obrigado pela confiança – ainda que tenha sido momentaneamente. 🙂

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      • 7 de novembro de 2019 em 17:51
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        Abração, admiro o seu texto há um bom tempo!!!!

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        • 7 de novembro de 2019 em 19:19
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          Obrigado, meu caro.

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