Daniel Azulay (1947-2020)

 

 

Quem tem entre 30 e 50 anos, certamente lembra de Daniel Azulay. Lembra e gosta. Ele faleceu ontem, vítima de coronavírus, contraído por conta de leucemia. Daniel tinha 72 anos.

 

É difícil escrever sobre sem mencionar a pandemia. Mas vou tentar.

 

Azulay fazia parte de um mundo que já acabou. Os programas infantis, há cerca de 40 anos, eram completamente diferente do que a maioria tem na cabeça como ideal. Daniel apresentava um dos mais criativos e legais. Ele era desenhista e artista plástico, tinha enorme talento e criou vários personagens. Tinha o Piparote, o Pita, a Damiana e muitos outros, que integravam a Turma do Lambe-Lambe. Ele desenhava todas as tardes, de segunda à sexta, além de contar histórias e apresentar desenhos animados da Hanna-Barbera. Como eu disse, era outro mundo.

 

Daniel ensinava os espectadores a desenhar. Eu mesmo tentei algumas vezes, apesar da falta de jeito. Certamente ele me influenciou a ter um caderno no qual eu desenhavam naves espaciais e aviões. Não só isso, ele também ensinava a fazer brinquedos com caixas, pedaços de papel, algo que eu nunca tentei mas bem que queria, se tivesse jeito pra coisa.

 

Lembro de vê-lo na Bandeirantes, quando a emissora apresentava uma faixa de desenhos animados invejáveis. Tinha Zé Colmeia, Jambo e Ruivão, Corrida Maluca, Dom Pixote, Pepe Legal e vários outros. E Daniel surgia com seus personagens, levando uma alegria constante, uma felicidade e uma empatia únicos. Eu sentia vontade de dar um abraço nele.

 

Sua morte é uma tragédia que tende a ser naturalizada. Afinal de contas, ele era um idoso, um hemofílico, um … velho que já teve o seu tempo, segundo reza o “mindset” dessa gente que está aí.

 

Daniel era uma referência que só pertence aos meus momentos mais ingênuos e felizes, logo, aos mais autênticos. Sua morte é a certeza incontestável que eles ficaram ainda mais pra trás na memória. Ontem, quando soube dela via whatsapp, senti um aperto na garganta. Foi como se o mundo ficasse ainda menos familiar. Acho que vocês vão entender esse sentimento.

 

Descanse em paz, Daniel. E algodão doce pra você.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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