Crowded House: Muito além de 1986

 

Crowded House – Dreamers Are Waiting

Gênero: Rock alternativo

Duração: 42 min.
Faixas: 12
Produção: Mitchell Froom
Gravadora: EMI

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Lembram do Crowded House? Não sei o que me aflige mais quando o assunto é esta ótima banda neozelandesa. Se é a maioria achando que o grupo é um one-hit wonder, no caso, “Don’t Dream It’s Over”, de 1986 ou falar que, não, ele está bem longe disso, tentando mostrar para esta mesma maioria que Neil Finn e seus amigos já vão para o sétimo álbum e que há um sem número de ótimas canções e mil maravilhas esperando para serem descobertas. Na verdade, falar isso é bem menos aflitivo e, de certa forma, é a razão da própria Célula Pop existir – informar, mostrar, contar e, a partir disso, trazer novidades pro leitor. Sendo assim, gente, depois de um hiato de 11 anos, eis que o Crowded House está de volta, com um disco que faz jus à sonoridade que a banda cultiva desde os anos 1990. E há um detalhe importante, que pode ter feito toda a diferença na feitura deste bom “Dreamers Are Waiting”: a experiência que Neil Finn adquiriu como músico de apoio ao Fleetwood Mac em sua mais recente turnê, substituindo ninguém menos que Lindsey Buckingham.

Esta versão 2021 do grupo também tem uma característica interessante: é quase uma banda familiar, uma vez que estão presentes dois filhos de Neil, Liam e Elroy. Também retornou Mitchell Froom, que assumiu os teclados e ainda produziu o disco, restando da formação oitentista apenas o próprio Nil Finn e o baixista Nick Seymour. Liam Finn já tem uma carreira musical solidificada, sendo um compositor e guitarrista de talento, além de responsável por trazer duas canções totalmente autorais para o álbum. Seu irmão mais jovem, Elroy, assina uma faixa e, como se não bastasse, Tim Finn, irmão de Neil e tio dos meninos, também participa como compositor em “Too Good For This World”. Ser um disco familiar não significa ser um trabalho nostálgico.

 

O senso de humor peculiar da banda está presente, especialmente em “Whatever You Want”, que parece atacar os políticos populistas. Mas, ainda nesses momentos mais engajados, há uma sensação de melancolia escondida sob a superfície – seja no desespero de “Playing With Fire” com as falhas de sua própria geração (“Estamos atrás do volante, estamos indo direto para a parede” ) ou nas imagens líricas de armas de fogo de Show Me The Way, cruzes em chamas e “dor sagrada”.

 

Nem é preciso dizer que todas as faixas de “Dreamers Are Waiting” são lindamente elaboradas. “Sweet Tooth” tem um refrão cativante que rivaliza com qualquer canção presente em “Woodface”, o terceiro disco do grupo, de 1991, e a beleza sutil e as harmonias suaves de “Bad Times Good” trazem à mente o melhor álbum da banda, “Together Alone”, lançado em 1993.

 

A adição de Froom nos teclados é inteligente e, embora ninguém possa substituir adequadamente Paul Hester, que morreu tragicamente em 2003, enquanto Elroy Finn segura o ímpeto da banda na bateria. É a adição de Liam Finn que é o verdadeiro golpe de mestre – suas contribuições de “Show Me The Way e “Goodnight” mostram suas raízes na boa tradição de seu pai, ao mesmo tempo que abrem alguns novos rumos para a banda.

 

É preciso que se diga: Neil Finn continua sendo um dos compositores mais talentosos de sua geração. As harmonias adoráveis ??em “Start Of Something”, as guitarras estridentesn ao estilo dos Beatles, em “Love Isn’t Hard At All” ou a ode ao país natal da banda, em “To The Island” – tudo surge ombro a ombro com muitos dos outros clássicos em seu catálogo.

 

Certamente mencionar o Crowded House não é nada cool em 2021 mas isso pouco importa depois de uma carreira de mais de 30 anos. “Dreamers Are Waiting” é um retorno muito bem-vindo para uma banda ficou em silêncio por tempo demais.

 

Ouça primeiro: “Start Of Something”, “Love Isn’t Hard At All”, “To The Island”,
“Show Me The Way e “Goodnight”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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