Crônica do debate presidencial americano

 

 

Acho que ver debate presidencial americano é como ver uma partida de futebol americano: não deveria ser interessante para nós. Mas esta afirmativa é totalmente equivocada em 2020. Poucas vezes uma disputa eleitoral nos Estados Unidos representou tanto para o Brasil quanto a campanha trump x Biden. De um lado está um dos baluartes dos tempos atuais, donald trump, ídolo do atual ocupante da presidência do Brasil, um dos políticos menos escrupulosos do planeta, responsável por fornecer estofo e tangibilidade para governos de extrema direita tornarem-se realidade ao redor do mundo, do Brasil à Austrália, da Hungria à Indonésia. Do outro, Joe Biden, um típíco político americano inexpressivo, ex-vice-presidente de Barack Obama, um sujeito pouco carismático, de aparência cansada. E o mundo aguardando por isso. Ontem teve lugar o primeiro debate dos candidatos à presidência americana. E foi uma baixaria total.

 

Presidentes americanos sempre foram e serão presidentes americanos para o resto do mundo. Sendo assim, é ingenuidade pensar que, caso Biden vença as eleições de 3 de novembro próximo, ele irá, por exemplo, retirar tropas americanas do Iraque e do Afeganistão. Ou diminuir a presença econômica de seu país na América Central. Mas é interessante lembrar das eleições de 1976, quando gerald ford, republicano como trump, ex-vice presidente de richard nixon, foi derrotado pelo democrata Jimmy Carter. Este, um humanista e com preocupações ecológicas, mudou a orientação de seu país e, ainda que direcionasse os interesses americanos para a gestação do modelo neoliberal que viria com força nos anos 1980, sua presença na Casa Branca enfraqueceu, por exemplo, as ditaduras militares e civis-militares na América Latina, Brasil incluso. Carter e a crise do petróleo foram responsáveis pela gradativa política de abertura por aqui, algo que culminaria na anistia dos presos e, tristemente, dos torturadores. Por ser um político pouco carismático, mais ou menos como Biden, ele foi derrotado por ronald reagan, que, ao lado de margaret thatcher, na Inglaterra, mergulhou o mundo no neoliberalismo que está em vigor hoje.

 

No plano interno, uma vitória de Biden significaria, por exemplo, a falibilidade desta estirpe lamentável de políticos favorecida pelo momento atual. Gente que manipula fake news, que tem ética e ações pra lá de questionáveis. Que prega discursos de ódio, não se importa com o aumento do preconceito de todas as naturezas. Essa gente seria ferida gravemente com a derrota de trump. Tal pressuposto ajudaria, por exemplo, que os governos eleitos na esteira dele fossem questionados de forma mais eficaz, direta e contundente. Seria possível pensar, por exemplo, numa eleição brasileira de 2022 sem o suporte internacional – americano – a uma reeleição do atual presidente. Seria possível pensar num derretimento de ímpeto nas extremas-direitas internacionais, descreditadas pela opção expressa no voto dos americanos. E, voltando ao aspecto interno americano, seria uma derrota que significaria a retomada de políticas ambientais em busca de energia renovável, de retomada sobre um sistema de saúde mais justo para os mais pobres, algo sobre um sistema educacional mais acessível, algo sobre a geração de empregos e outras instâncias que foram abandonadas pelo governo trump, voltado exclusivamente para a manutenção de privilégios de ricos e riquíssimos, discurso e postura reproduzidos aqui.

 

Voltando ao debate: trump não deixa Biden falar. Interrompe a todo instante, usando nítida tática de desestabilização emocional, visando irritar o veterano ex-vice-presidente de Obama. Funciona às vezes, mas Biden também sabe jogar e deixa trump irritado algumas vezes. Os discursos são sobre o que um não fez antes do outro, com o atual presidente chamando Biden de “socialista”, mencionando que ele é apoiado pela “esquerda radical”. Já vimos este discurso por aqui, certo? Endereçado a gente como fhc, rodrigo maia, entre outros que apenas prezam o jogo democrático, a liberdade de expressão e demais valores. De socialista, Biden tem tanto quanto trump. São dois homens liberais, que prezam o livre mercado acima da regulação mínima por parte do estado, que defendem a manutenção do papel de polícia mundial desempanhado pelos Estados Unidos, mas, como dissemos, Biden é adepto de uma noção importante de presença no planeta, de convivência dentro de certos padrões que vão além das bravatas de quinta-série que revestem os discursos e pontos de vista dos políticos que pertencem a esta estirpe de políticos que mencionamos acima.

 

Biden chama trump de “palhaço”, trump chama de Biden de “número dois”, rebate a crítica sobre a covid-19 e sua desatenção ao povo americano com acusações sobre a postura do governo Obama diante da gripe suína. Daí ambos comparam o número de mortes em cada episódio como se fosse um jogo de boliche. É deprimente.

 

Mesmo assim, por pior que seja o momento, é importante que Biden vença. E depois a gente pensa no que faz. Sem esquecer que governos democratas estavam no poder nos anos de 1964 e 2016. Mas, bem, agora é pensar no futuro.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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