Pete Yorn – Caretakers

 

Gênero: Rock alternativo
Faixas: 12
Duração: 37 min
Produção: Pete Yorn, Jackson Phillips
Gravadora: Shelly Music

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

A primeira vez em que ouvi falar de Pete Yorn foi lá por 2000/01, quando ele lançou seu primeiro disco, “Musicforthemorningafter”, com o título grafado assim. Nativo de Montville, Nova Jersey, Yorn foi saudado na época como um herdeiro em potencial da verve de Bruce Springsteen, ainda que a crítica especializada atentasse para o fato dele ser mais afeito à esfera sentimental do que à perpectiva americana latu sensu, típica do nosso querido Boss. Pois Yorn veio e foi, logo após soltar seu segundo disco, em 2003, “Day I Forgot”. Talvez tenha sido ultrapassado pela velocidade do tempo ou pelo desinteresse do público em novos trovadores com lirismo típico da Geração X. Em 2009, Yorn ressurgiu, dessa vez com “Break Up”, um disco no qual duetava com … Scarlett Johansson. Chegou a cravar um hit alternativo mundial, “Relator”, mas, novamente, foi-se.

 

Agora, qual não é minha surpresa com mais um retorno de Pete, a bordo deste belíssimo “Caretakers”. Talvez seja seu melhor trabalho, talvez sua música tenha sempre carecido de uma postura mais madura para fazer sentido. O fato é que, aos 45 anos hoje, Pete é mais cascudo e, a partir disso, suas canções ganham mais camadas de significado. O cara escreve sobre voltar à cidade natal depois de muito tempo, reencontrar e desencontrar amigos, caminhar pelas mesmas ruas, tudo com aquela melancolia à beira-mar que nos é tão cara. Yorn é um desses sujeitos que a gente ouvia quando pensava que sabia de tudo. Ele e gente como Ryan Adams, Jeff Tweedy, talvez Grant-Lee Phillips, que se tornaram graciosamente obsoletos pela modernidade vertiginosa. O fato é que Yorn conseguiu um update sonoro e isso fica latente nas doze belas canções de “Caretakers”.

 

Por update entendam uma fina camada de guitarras e teclados típicos de gente como Ride, Cocteau Twins ou mesmo Smashing Pumpkins. São efeitos e arranjos que vêm fazer simbiose com as composições de Yorn, outrora mais americanas e tementes a um classic rock insinuado, gerando um efeito que é totalmente anos 1990, mas opostos a coisas como o grunge, por exemplo. Só ficam por “Caretakers” adentro a doçura e a tristeza idealizadas e eleitas como reflexão necessária da juventude perdida. Parece clichê ou cacoete mas é uma lindeza quando atinge a excelência que Pete consegue por todos os cantos do disco. Com a ajuda de Jackson Phillips, responsável por estas adições shoegaze, a música de Yorn chega a patamares altíssimos, caso de “Calm Down”, na qual ele já entra de sola com versos do quilate de “If there’s a memory at all / I wish I knew then what I know now …”, sintetizando um dos pensamentos-chave da vida humana: e se soubéssemos lá atrás o que sabemos hoje? Pois é, você já se perdeu neste dilema, eu também, todos nós.

 

Essa sensação de familiaridade é um trunfo poderoso em “Caretakers”. A beleza dos arranjos e das composições potencializa – para usar um termo caro aos millennials – o prazer de ouvir e mergulhar no disco. Neste caminho imaginário de volta pra casa – seja a casa a nossa vida de anos atrás ou algo no gênero – Yorn vai conduzindo o ouvinte docemente por lembranças que são geracionais e funcionam em quem testemunhou o mundo como nós, que estamos na faixa dos quarenta e tantos/poucos. Isso ajuda a se apaixonar por pepitas douradas como “Can’t Stop You”, “Idols (We Don’t Ever Have to Say Goodbye)”, “Friends”, “ECT” e a ótima “Fire In The Sun”, que mescla efeitos de timbre com bateria e baixo, dando a impressão de que Peter Hook, ex-New Order, estava de bobeira e veio participar da gravação só para descontrair.

 

“Caretakers” é um disco lindo e a surpresa em constatar sua majestade é um poderoso elemento final. Pete Yorn, meu caro, não vá sumir de novo. Mais um pras listas de melhores do ano, com toda a certeza.

Ouça primeiro: “Fire In The Sun”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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