Cansado do Brasil burrista

 

 

Outro dia, vindo do mercado, ouvi o seguinte diálogo, que se travou atrás de mim, na rua:

– Esse Witzel é um oportunista. E é maluco, doente mesmo.

 

Me voltei para ver quem dizia, em pleno Icaraí, Zona Sul de Niterói, uma verdade tão absoluta. Era um senhor, que caminhava ao lado de uma senhora, ambos na casa dos 60 anos. E ele continuou, diante da concordância dela.

– Ele só fez cagada desde que foi eleito.

 

Fiquei genuinamente feliz por um instante. Afinal de contas, as pessoas parecem que estão acordando e tal. Mas esta sensação durou pouco.

– O Bolsonaro já tinha avisado que ele era maluco. O Bolsonaro disse.

 

Esmoreci.

 

Este diálogo e o texto que coloco no fim da página, escrito por Paulo Brondi e compartilhado pelo jornalista Juca Kfouri em seu blog, serviram para me confirmar que eu estou bem cansado do Brasil burrista. Aliás, não só cansado, desiludido mesmo. Se há alguma serventia na eleição presidencial de 2018, certamente é o de promover uma triste e dolorida realidade: somos um país doente, com uma sociedade lamentável.

 

Eu não sou daqueles que desmerecem o Brasil, pelo contrário. Sou nacionalista, acredito piamente que temos – ainda – condições de protagonizar no cenário mundial, mas, sinceramente, é preciso ter fé, força e mais um milhão de substantivos abstratos para se manter firme.

 

Somos uma sociedade improvisada. Fomos colonizados por um país pequeno, que perdeu seu momentâneo protagonismo em menos de um século. O povoamento do território foi feito na base da gambiarra. O tal “jeitinho brasileiro” é filho direto do “jeitinho português”, que incluiu benesses, trocas de favores, toma lá dá cá e todo tipo de acordo verbal duvidoso, visando o bem individual sobre o bem comum. Matou-se, escravizou-se, enganou-se roubou-se, vilipendiou-se tudo e todos durante a colonização. Quando tivemos a chance de nos libertar, a elite portuguesa e seus cúmplices brasileiros tomaram a ponta e declararam uma monarquia lamentável, anacrônica e anti-Brasil, em vez da república que nossos vizinhos americanos, em sua totalidade, adotaram e, como estratégia de política nacional, foram vistos como “atrasados” e “índios”. Não tínhamos povo, nem identidade. Foi preciso uma reunião do governo imperial no fim da década de 1830 para definir o que seria o Brasil. E definiram errado.

 

Do império lamentável à república inicial, fomos um país enorme, corrupto e atrasado. Até 1930, o Brasil era um grande terreno baldio com uma casa grande no meio. Com Vargas, que enxergou o trabalhador como uma ferramenta para o desenvolvimento do país, visando maior autonomia em relação aos países estrangeiros, tivemos um primeiro viés de desenvolvimento, mas, sua visão foi atacada por quem sempre estivera no poder. O próprio Vargas errou, sufocou, fechou Congresso e recorreu a militares para poder impor algumas regras para o país tentar existir. Estatização, por exemplo. Nacionalização, outro exemplo.

 

Só que não fizemos o nosso equivalente à Revolução Americana ou à Revolução Francesa. Ficamos no meio do caminho. Nossa burguesia preferiu se aliar aos estrangeiros a empreender e reconhecer o Brasil como um país identitário e autônomo. Tal escolha nos impediu de avançar nos terrenos da identidade nacional, da autoestima, da existência como país. Pelo contrário, ficamos prisioneiros da noção de que tudo que vem de fora é melhor, mais bem feito e importante do que o que existe aqui. Tudo, sem exceção.

 

Todo desejo de privilegiar empresários brasileiros e cidadãos brasileiros mais pobres foi tratado como comunismo, socialismo, corrupção, esquerdismo e, por sua vez, combatido pela classe média e pelos militares, braço armado da elite nacional, a mesma que optou por ser uma sucursal da elite financeira mundial. Por isso, temos esta folha corrida de golpes, semi-golpes, violações, torturas, ditaduras, militares no poder, gente nos porões e, como resultante final, o nosso atual estado de coisas.

 

Somos um povo trabalhador, não há como negar. Basta sair pela Avenida Brasil às quatro da manhã para ver a quantidade de gente que há nos pontos de ônibus, indo para o trabalho. Ou nos trens. O brasileiro acredita no trabalho e na escola. Mas tal fé, encampada por religiosos oportunistas e daninhos, está voltada para caminhos errados. A ausência programada do estado causou a prevalência do crime e da milícia. Para que trabalhar, então? Pois é.

 

A eleição de 2018 nos esfregou na cara o que 57 milhões de brasileiros acham que somos. Um país que merece ser governado por uma pessoa que não tem absolutamente nenhuma virtude ou predicado. Uma pessoa que acredita na tortura como algo justificável, que pensa ser decente qualquer meio para se obter o que deseja. Que não tem o respeito pelo que foi escolhido para fazer. Mas o pior disso tudo, o mais danoso e o mais terrível é que este sujeito FOI ESCOLHIDO pelo povo. Não importam as fake news, os grupos do whatsapp, havia outra opção, mais civilizada, mais coerente, mais benéfica para o país.

 

Mas o povo não escolheu sozinho. Ele foi bombardeado pelo braço midiático da elite brasileira, a mesma que não é representante do Brasil desde que optou por se conectar com o estrangeiro mais do que com o nacional. Essa elite usou de todas as ferramentas, de todo o dinheiro, de toda a influência para colocar no poder a pessoa que lá está agora. E ela está fazendo tudo o que lhe foi pedido: tornar quase impossível a mobilidade social no país, sentenciando os pobres a morrerem ou serem sempre pobres e os ricos a serem sempre ricos. E ponto final. Em última instância, é só isso. Dane-se o resto, a educação, a saúde, a segurança, o saneamento, a habitação. Se você tem grana, ok. Se não tem, a culpa é só sua.

 

Agora cresce nos brasileiros o medo de uma nova ditadura militar. A polícia vem atuando como se não fosse passível de regulação, matando indiscriminadamente. Ontem mesmo, o Senador Cid Gomes foi baleado num protesto de PMs, só não morreu porque o acaso lhe salvou. Policiais entram em escolas, conduzem buscas ostensivas em cidadãos na Favela da Maré…o que falta para admitirmos?

 

Enquanto isso, o ocupante da Presidência ofende os repórteres, como já fizera antes com parlamentares, estudantes, negros, minorias…na verdade, ele só está sendo quem sempre foi. Não está errado, afinal de contas, 57 milhões de pessoas estão identificadas com ele, se regozijando com sua conduta lamentável.

 

Somos um país atrasado, burro, doente, ignorante, com surtos democráticos de quando em quando. Somos escravistas, preconceituosos, pequenos e ridículos. Temos muita gente boa, que vai na direção oposta a esses termos, mas, infelizmente, precisamos reconhecer que são minoria. Também pudera, são séculos de sabotagem, opressão e desvirtuamento. Sobreviver a isso impunemente seria um milagre. Quando poderíamos corrigir estes rumos, tínhamos homens errados na hora errada, no lugar errado.

 

A presença do atual ocupante da Presidência no poder é um estímulo ao exercício dos piores traços identitários da sociedade brasileira. É um incentivo, uma justificativa, uma autorrealização. É o que de pior tivemos na nossa história.

 

Aqui está o texto de Paulo Brondi.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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