Bush – The Kingdom

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 47 min.
Faixas: 12
Produção:
Gravadora: Zuma

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

“Only in silence we can see who we are”. Este é o Bush em 2020, lançando um novo álbum e se comportando como se estivesse lá por 1996, no auge do pós-grunge, enfiando guitarras mastodônticas, baterias pesadonas, vocais onipresentes e a bossa anglo-americana de Gavin Rossdale. Lançamentos como “The Kingdom” fazem a imprensa especializada dar uma cambalhota invertida porque, simplesmente, não entende como uma banda como esta pode estar há quase trinta anos fazendo um som “previsível”. Sim, porque, mesmo que o Bush tenha vivenciado tempos em que até lançou disco de remixes, trata-se de uma formação com pouca ou nenhuma variação. O que se tem aqui é o velho anda-e-para do grunge nirvânico, os vocais roucos e anasalados de Rossdale e uma parede inteligente de guitarras arremessadas contra baixo e bateria marciais. O grande diferencial: é´tudo muito, mas muito bem feito e pensado.

 

“The Kingdom” tem um trunfo, ou melhor, o Bush tem. O guitarrista Chris Traynor, que já integrou bandas melhores como o Helmet, e que, como dizem por aí, detém as manhas da coisa. Ele nem ousa mexer na riffarama de baixo impacto dos melhores momentos do Bush, com as velhuscas, porém eficazes “Swallowed” ou “Greedy Fly”. Reproduz as melhores passagens deste tipo de som ao longo das doze novas canções do álbum, dedicando-se ao máximo à tarefa de tornar todo este approach mais sincero possível e se sai muito bem. Sua interação com Rossdale é total, o que funciona também em nível de composição e arranjo. O resultado é que o Bush pode ter feito um dos grandes discos de rock stricto sensu do ano. Vamos investigar como isso pode ter acontecido.

 

Peguemos uma faixa como “Bullet Holes” como exemplo. O título já aponta praquela deprê total já clássica nos hits da banda. Logo após um baixo pulsante em alquimia com uma bateria bem eficaz, entram guitarradas precisas e um vozeiro meio recitado de Rossdale, dizendo que está andando à pé numa autoestrada através da América. O clima evoca imediatamente “Bullet The Blue Sky”, sucesso do U2 de 1987, revisto anos depois pelo Sepultura num arroubo mais amigável. E a letra vai se virando com versos do naipe de “I used to wish in symphonies”, que é o tipo de filosofia fast food que os ouvintes da banda dão conta. É um caso muito perfeito de promessa e cumprimento, de um grupo que não acena com nada que não possa cumprir junto aos fãs. A produção – a cargo da banda – é precisa e enxuta, abrindo espaço para a objetividade. E, sim, Traynor faz muita diferença no comando das seis cordas que solam.

 

“Ghosts In The Machine” é outro bom exemplo. Um riff rápido e processado surge logo de cara, evocando algo que poderia ser um arranjo do Nirvana de 1994, mas colocado a favor da cooptação de todo e qualquer moleque espinhudo que esteja transbordando de testosterona e não se sinta atraído por arrochas, sertanejos ou qualquer outra baba. O que sai dos fones é bom rock, datado, velhusco, mas tocado com tanta certeza de beleza que a gente se comove e lembra dos tempos idos. “Lá pelo finzinho do álbum, “Crossroads” evoca o Bush noventista, podendo parecer demais com “Machine Head”, um dos cinco hits que a estreia da banda, “Sixteen Stone”, de 1994, emplacou nas paradas americanas. E mais uma vez, tudo é certinho, sem desperdício. Palmas pra essa gente.

 

“The Kingdom” ainda tem uma capa legal, faixas bônus para fã clube, e dá a sensação de que os ouvintes e fãs fazem parte de uma grande família de admiradores de uma banda já cascuda na estrada e nas prateleiras. Pra esse 2020, talvez seja tudo o que muita gente precisa.

 

Ouça primeiro: “Bullet Holes”.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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