Boogarins – Manchaca, vol.1

 

 

Gênero: Rock psicodélico, alternativo

Duração: 45 min.
Faixas: 13
Produção: Boogarins
Gravadora: OAR/Believe

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Se 2020 fez com que mundo se voltasse para dentro do espaço privado, enfrentando os fantasmas dos quais desviamos numa vida inteira, (ou não, né, tem quem acredite no presidente ou que seja forçado a sair de casa para trabalhar devido à necropolítica…), enfim, o que seria de uma resenha sem desabafos? Seguindo: se neste ano estamos mais em casa, também pudemos conferir o trabalho de muita gente bacana, explorar e entrar em álbuns para os quais não “tínhamos tempo”. Foi o caso de “Manchaca Vol 1”, uma compilação de gravações, demos e outtakes dos últimos 3 anos da Boogarins nas suas passagens por Austin, Texas.

 

Sentir música é o que Boogarins faz. E faz bem, pois consegue traduzir em sonoridade aquilo que não poderíamos decodificar em palavras. Dos arranjos de voz e violão às combinações de sintetizadores e sons do cotidiano, o grupo espalha a sua lisergia. De 2013 pra cá, a banda certamente é uma das responsáveis por engrossar esse caldo borbulhante que é o cenário da música nacional. E no caso de Boogarins, esse caldo tem como base plantas que curam, uma pitada de doce e pode ser ingerido por mais de 6000 dias. Eles têm aquele lance de mato, psicodelia, como se sobre a floresta uma grande nuvem neon pairasse.

 

É desse jeito que a sonoridade destes goianos se mantém e, não fosse a pandemia e o isolamento necessário nesta nossa época, certamente eles estariam viajando por todos os lugares em todos sentidos. Depois de “Manual” (2015), que carrega verdadeiras pérolas como “6000 dias” e “Benzin”,chega “Lá vem a morte”, álbum que carrega letras fortes e importantes como “Elogio à instituição do cinismo”, elogio necessário, pois é praticamente da natureza humana, tal instituição (ok, nem todos, vamos combinar).

“Quer discutir valor
Mas você é como os porcos
Faz revolta só pra subir
Atendem por nomes
Mas no fim são todos iguais
Esbarram nas ordens
E isso os machuca demais”

 

E o mais legal é que a voz de Fernando “Dinho” Almeida, aparece soterrada, cantando essa letra, que até pode passar despercebida em meio à sonoridade da guitarra de Benke Ferraz, do baixo de Raphael Vaz e das baquetas de Hans Castro, mas sentimos sua presença com significado. Este álbum é cheio de potência, vale à pena parar e ouvir, não me culpem se ficarem introspectivos e antissociais, vocês foram avisados. O doce pode não ser bem digerido, a onda pode ser ruim. Mas é isso, Boogarins sendo Boogarins.

 

Ano passado os caras lançaram “Sombrou Dúvida”, e nos deparamos com um som maduro, não no sentido de formal e tudo mais, mas um algo reflexivo, com uma produção cheia de detalhes, é isso, é uma urgência bem dosada de saber o que quer passar, ou melhor: passar o que sente, sentir a música. “Eu desconfio dos hábitos, eu boto fé no viver ávido” é o ponto crucial de uma existência. Será que temos sombras ou apenas o que achamos sombras não passam de dúvidas? O desconhecido sempre instiga. Enfim, filosofias à parte, seguimos com a banda.

 

Então, como não podemos sair de casa para passear e muito menos embarcar num avião para viajar, “Manchaca Vol. 1” ajuda a amenizar problema. Seus pés não sentirão falta de uma terra escura, cheia de folhas e capins. Os quase 47 minutos vão te levar para a floresta, que é uma das características do trabalho dos caras. São 13 faixas que transitam entre a instrumental “Are you Crazy, Julian? passando pelo nosso maior e atual questionamento: “com toda essa angústia, o que que cê faz, se o fundo te puxa, o que que cê faz?” de Cães do Ódio”. Experimentando os sons diversos em “Asmr Manchaca” e “Noite Bright” e tudo em uma levada psicodélica deliciosa, com gosto de delírio. Espera Fala de Novo fez eu pensar em A cor do som,

 

O topo dessa escalada que “vai se puder, essa história não tem fim” tá “Inocência” que é aquela coisa que pega sem avisar. Isso é coisa que se faz? Não mentindo pra ninguém, este álbum entra fácil para a playlist “vou ali, volto se puder”.

 

Quero o vol 2, mas não tenho pressa, tem muitos detalhes que merecem atenção em Manchaca Vol. 1.

 

 

Ouça primeiro: “Inocência”

 

 

 

Em tempo:  junto com a compilação, o Boogarins está lançando um documentário sobre estas aventuras além-mar. Veja abaixo.

 

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Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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