“Big Colors!” é um típico disco de Ryan Adams

 

Ryan Adams – Big Colors!

Gênero: Rock alternativo

Duração: 36 min
Faixas: 12
Produção: Don Was, Beatriz Artola, Ryan Adams
Gravadora: Pax Americana

 

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

É bem difícil encontrar um disco ruim de Ryan Adams. De um passado como alt.country boy, passando por um storyteller em formação, temperado com detalhes de roqueiro clássico, de discípulo de Bruce Springsteen, de aluno da poesia de Morrissey, entre outras coisas, sem falar nas péssimas circunstâncias que o marcaram fora do showbusiness, especialmente seu casamento fracassado com a atriz e cantora Mandy Moore, Ryan é uma persona e sabe disso. Seus álbuns – este já é o décimo-oitavo – são distintos, diversos, estranhos e, via de regra, oferecem bons momentos para quem estiver disposto a ouvi-lo. E, de quebra, ele oferece um fiapo de conceito para todos eles. Veja o deste novíssimo “Big Colours!”: “pensei neste disco como se fosse a trilha sonora de um filme adolescente, que poderia ser feito em 1984, mas que nunca existiu e só habita a minha mente”. Sim, este é Ryan Adams navegando pelas inspirações que compõem a sua persona musical. Nos resta investigar.

 

Em primeiro lugar: este álbum foi anunciado no início de 2019 como o primeiro de uma trilogia. Foi bem na época em que Adams sofreu acusações de má conduta sexual por parte de Mandy Moore, da cantora americana Phoebe Bridges e de uma fã menor de idade. O lançamento foi cancelado e Adams, apesar de negar as acusações, se desculpou quando resolveu lançar um álbum em dezembro de 2020, “Wednesdays”. Este mesmo trabalho fora anunciado como sendo a segunda parte da tal trilogia, mas Ryan embaralhou tudo, colocou faixas de “Big Colors” neste álbum e, bem, confundiu a gente. Agora, com o lançamento deste disco, ele passa a ser a segunda parte da tal trilogia e vem com este anúncio de influências musicais oitentistas. Para confirmar tal parentesco estético, Ryan convocou o produtor Don Was, famoso por atuar nos anos 1980 e 1990 pilotando discos de Carly Simon, Bob Dylan, Bonnie Rait, Iggy Pop, entre outros.

 

Mas, apesar da sonoridade de “Big Colors” não ser muito parecida com a de “Wednesdays”, ele está longe de ser o tal álbum emblemático dos anos 1980, conforme alardeado. Pelo menos não como alguns poderiam esperar. Este não é um disco que brinca de fazer tecnopop daqueles tempos, mas cisca um pouco no terreiro do rock oitentista americano, mas não o faz com muita convicção. Se Ryan não tivesse declarado que este é um trabalho tributário dos anos 1980, tal fato não seria perceptível. Isso não significa, no entanto, que “Big Colors” é um disco banal ou ruim, está bem longe disso. E, de acordo com a média dos trabalhos de Adams, há, pelo menos, uma ou duas músicas muito boas entre o que ele apresenta aqui.

 

Se há algum oitentismo aqui, ele está em canções como “I Surrender”, que é uma cruza de Bruce Springsteen com Foreigner, algo bem legal e enguitarrado, com belo arranjo e bons vocais. Também está em “Power”, que tem andamento acelerado, guitarras plásticas e subversivas, que fazem bonito em meio à melodia rápida e clássica ao mesmo tempo. Ou na faixa-título, que tem uma dinâmica mais ou menos parecida com algo que poderia ser de Tom Petty, lá por 1984. Também tem “Middle Of The Line”, que tem um cheirinho de Replacements. Os outros momentos legais aqui ficam por conta de exemplos regulares da verve de Ryan Adams, caso da belíssima “Manchester”, de “Summer Rain” ou do single “Fuck The Rain”, que é aquela típica canção alt.country que a gente ainda gosta.

 

“Big Colors” é um bom disco, com uma proposta mas com uma produção que entrega pouco, dadas as características alardeadas. Este não é um disco oitentista, mas um trabalho típico de Ryan Adams, com temperos e detalhes, como todo disco que ele lança. E isso já está de bom tamanho.

 

Ouça primeiro: “Manchester”, “Summer Rain”, “Showtime”, “I Surrender”, “Fuck The Rain”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on ““Big Colors!” é um típico disco de Ryan Adams

  • 11 de junho de 2021 em 13:58
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    Obrigado pela gentileza, meu caro.

    0
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  • 11 de junho de 2021 em 09:32
    Permalink

    Cel, como escreveu, Ryan Adams não faz disco ruim, tenho todos, e confesso que não vejo e sinto irregularidades em nenhum. Gostei muito do Big Colors!!!
    Parabéns pela resenha, como sempre, impecável!

    +1
    Resposta

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