Quando Rod Stewart dominava o mundo

 

 

Sem muito alarde a Warner lançou uma caixinha com a produção de Rod Stewart entre os anos de 1975 e 1978. Neste curto espaço de tempo, Rod The Mod gravou quatro discos – todos eles inclusos aqui, além de um CD-extra com sobras de estúdio – atingindo os proverbiais píncaros do sucesso. São eles: “Atlantic Crossing”, “A Night On The Town”, “Foot Loose & Fancy Free” e “Blondes Have More Fun”. Neles a liga sonora primordial de Rod como artista solo bem sucedido – a mistura perfeira de rock com soul e blues, foi pensada comercialmente de um jeito mais intenso e eficiente do que nos tempos de Faces e nos primeiros trabalhos solo do cantor escocês, que já se iniciara no ofício em 1970. Rod simplesmente atingiu uma hegemonia artística que refletiu em shows e em crítica, para não falar das vendas. Estes quatro álbuns são distintos, apresentam detalhes muito bacanas que merecem uma investigaçãozinha. Vamos lá.

 

O Faces encerrou suas atividades em 1974. Rod saiu para a carreira solo e Ron Wood foi integrar os Rolling Stones. Parceiros e amigos de ofício e com afinidades musicais inegáveis, ambos foram muito importantes nesta nova fase de suas carreiras. Wood entrou nos Stones substituindo Mick Taylor e arejou a criatividade da banda, que, com ele em suas fileiras, brincou de fazer reggae, disco e também tornou-se – ainda mais – um monstro comercial. Rod, por sua vez, arregimentou uma banda de apoio invejável e iniciou uma parceria perfeita com o produtor Tom Dowd, que ajudou nesse processo de ampliação da sonoridade perpetrada por Rod, mas mantendo-a praticamente intocada, especialmente nos dois primeiros álbuns deste período – “Atlantic…” e “A Night…”. Rod mudou-se para os Estados Unidos – movimento feito também por outro gigante de seu tempo, Elton John – e se entregou àquele mundo esfuziante. O primeiro disco, “Atlantic Crossing”, é uma obra-prima da inteligência musical. É como se o melhor dos Faces estivesse presente, mas de um jeito que soa muito melhor. Além disso, ele contou com a participação de Donald “Duck” Dunn e Steve Cropper, os ases da gravadora Stax, além de uma profusão de hits e canções perfeitas.

 

“Atlantic Crossing” é desses discos que não tem canção ruim ou média. É uma sucessão de porradas na lata, tudo com muita guitarra, pianos, bateria esfuziante e os vocais de Rod em plena potência rouca. Ele vai de versões apaixonantes como “I Don’t Wanna Talk About It”, feita pelo falecido Danny Whitten para sua banda, Crazy Horse, passando por um hit interplanetário do calibre de “Sailing” e covers lindas, como “This Old Heart Of Mine” (dos Isley Brothers fase Motown) e “It’s Not The Spotlight” (de Carole King e Gerry Goffin, famosa por uma interpretação linda e cortante de Bobby Blue Bland). Além disso, faixas próprias como “Stone Cold Sober” e “Three Times Loser” tornam o álbum um acontecimento, um evento. É a definição máxima desta sonoridade perfeita que Rod criou neste tempo. A sonoridade à la Faces/Stones mais abrasiva só dá as caras – e de forma bombástica – na perfeita “The Balltrap”, que mostra o quanto os vocais de Rod e esta pegada rock’n’blues’n’soul influenciou e influencia bandas até hoje. De quebra ainda tem a versão soul de “Pretty Flamingo”, originalmente de Manfred Mann e “Trade Winds”, uma balada moteleira no mesmo nível de “Fool To Cry”, dos Stones – não por acaso, gravada neste mesmo ano, no álbum “Black And Blue”.

 

 

 

Esta mesma pegada sonora seria o revestimento de “A Night On The Town”, lançado em 1976. Ele e o anterior parecem discos irmãos, o que é o maior dos elogios que ele pode receber. Cropper e Dunn voltam para guitarra e baixo, respectivamente e o naipe de metais da sensacional banda Tower Of Power também está presente. Joe Walsh, dos Eagles, também participa da coisa e o álbum não deixa barato em termos de hits. De cara já topamos com “Tonight’s The Night”, uma das baladas mais lindas do rock e vamos sendo levados por caminhos interessantes e não necessariamente felizes. Vem a versão linda para “The First Cut Is The Deepest”, que, desculpem, pulveriza o original de Cat Stevens e a belíssima “Fool For You”, esta da lavra do próprio Rod. Aliás, a faixa mais emblemática deste álbum também é de autoria dele: “The Killing Of Georgie, Pt.I and II”, um épico digno de um storyteller como Bob Dylan, Paul Simon ou Bernie Taupin, sobre a vida e a morte de um amigo gay, assassinato por conta de preconceito, algo que, tristemente, é bem antigo na sociedade.

 

 

 

A crítica da época achava legal dizer que os outros dois álbuns deste pacote são inferiores a estes primeiros. Bem, eles são, até porque “Atlantic Crossing” e “A Night On The Town” talvez sejam os melhores trabalhos de Rod em toda a sua carreira, mas certamente há um ranço de jornalistas contaminados pela simplicidade do punk da época – 1977. Nada era mais abjeto para estes formadores de opinião do que um álbum que se orgulhava de seguir numa vertente do rock clássico, como era, por exemplo, “Foot Loose & Fancy Free”. Talvez o maior problema do álbum é que ele não tem um conjunto de canções impressionantes como seus dois antecessores, mas a sonoridade que Rod e sua banda conseguem é a mesma. Contrariando esses cri-críticos, é preciso muita má vontade para não se encantar com “Hot Legs” ou com “You’re In My Heart”, essa última chamada de “frouxa” na época. Mas há rockões como “Born Loose” e “You’re Insane”, este último, na verdade um híbrido quase prefeito de funk e rock. E o fecho com “I Was Only Joking”, mostra como este disco é cheio de belezuras e merece urgentemente uma reavaliação.

 

 

 

O fecho da caixa é o sensacional “Blondes Have More Fun”, como o nome já diz, um outro tipo de álbum. Se há um desses trabalhos que merece certa desconfiança, especialmente em relação ao que Rod vinha fazendo, é este aqui. Mas, como disse, ele vem em outra onda, a começar com a paulada que é “Do Ya Think I’m Sexy?”, a mitológica canção que Rod chupinhou de “Taj Mahal”, de Jorge Ben, que venceu processo por direitos autorais, mas não impediu que a composição de Stewart se tornasse um hit mundial. E, convenhamos, por mais que a gente ame o Jorge – e nós amamos – não dá pra ter raiva de Rod. O barato deste trabalho é que as pessoas o chamam de “O álbum disco de Rod Stewart”, a julgar apenas pela primeira faixa, que, sem dúvida, é uma das melhores fusões de rock e disco music de todos os tempos. Mas “Blondes…” é mais uma criatura mais largada musicalmente falando. Rod sai um pouco de sua sonoridade padrão e dá umas ciscadas no terreiro, sem perder contato com o que sempre fez, como se pode ouvir em “Dirty Weekend” ou “The Best Days Of My Life”, um rockão e uma baladona. O que é legal aqui é a ousadia/alegria da faixa-título, que é um boogie envenenado e em alta velocidade, que parece até algo do ZZ Top; a lindeza preguiçosa de “Attraction Female Wanted” ou o sensacional flerte com o easy listening, que é “Last Summer”, cheia de flautinhas e clima que evoca coquetéis coloridos na beira da piscina. Mantendo o vínculo com sua alma musical, Rod manda uma cover incendiária para “Standing In The Shadows Of Love”, originalmente da lavra dos Temptations psicodélicos, mostrando que, sim, ainda é ele que está no comando da coisa toda. Ou seja, “Blondes…” é qualquer coisa, menos um trabalho em que Rod se entrega à disco music. Tal flerte – firme e sacana – se reduz à faixa de abertura.

 

 

 

Tais discos, acrescidos das sobras de estúdio que compõem o último CD da caixinha, mostram como Rod conquistou o planeta. Rock, soul, blues, antecedentes inegáveis de bons serviços prestados, além de inspiração e competência. Sem falar nos épicos shows que ele dava naqueles tempos. Até plágio ele fez neste período, ou seja, se algum alienígena pesquisasse a música do planeta entre 1975-1978, provavelmente teria que passar por muitas canções aqui contidas. Fato.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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