As Panteras Lacradoras

 

Eu lembro de ver “As Panteras” na velha TV Philco que havia lá em casa. E lembro que Jaclyn Smith, a Kelly, foi uma de minhas primeiras paixões mas nada muito além disso. Era uma das poucas produções televisivas com mulheres como protagonistas e aliava comédia com algumas pitadas de suspense e thriller policial. Em 2000 houve o lançamento do filme inspirado na série, com Cameron Diaz, Lucy Liu e Drew Barrymore, uma superprodução inchada e meio sem graça. Houve uma sequência, com Demi Moore no papel de vilã, que passou batida e da qual minha mente não lembra nada. Agora, 19 anos depois, um novo longa das Panteras surge nas telas.

 

Cada época tem o seu parâmetro de mulher independente e protagonista, logo, as três moças – Kristen Stewart (Sabina), Naomi Scott (Elena) e Ella Balinska (Jane) – são inteligentes, astutas, belas, lacradoras, ágeis e absolutamente fascinantes, cada uma a seu jeito. Trabalham para a Agência Townsend, a mesma empresa investigativa da série original, mas que expandiu suas ações para nível mundial, agindo a serviço de quem tenha algo a descobrir ou mesmo delatar, caso da trama do longa. Neste caso, Elena é uma programadora de computadores que trabalha para uma grande empresa, num projeto chamado Callisto, basicamente uma fonte de energia autônoma e que pode resolver vários problemas do planeta em termos sustentabilidade. O problema é que o dispositivo não foi totalmente testado, mas o lançamento mundial é aprovado mesmo assim.

 

Daí Elena resolve contar sobre os erros do projeto e tem início uma trama de espionagem industrial e negociatas no mercado negro, entremeadas por cenas de perseguição, piadas fracas e muitas sequências que parecem clipes de rap ou anúncios de perfume. As protagonistas, mais Elizabeth Banks, que dirige, assina o roteiro e interpreta Bosley, se vêem num vai e vem contínuo entre cidades como Berlim, Los Angeles, Istambul e Londres, sem falar no prólogo que tem lugar no Rio de Janeiro, com direito a uma música de Anitta na trilha sonora, “Pantera”.

 

E por que o filme é apenas médio? Porque o charme das Panteras, aliás, “Charlie’s Angels” está na natural invencibilidade. Aqui elas conseguem isso como se não pudessem evitar serem tão sensacionais, perfeitas e fisicamente insuperáveis. E fazem tudo isso casualmente, rindo, zoando umas com as outras e tal. Sei bem que ninguém vai ver um filme como este buscando verossimilhança, mas, por exemplo, a Sabina de Kristen Stewart ultrapassa todos os limites de “garota problema que deu certo”, com direito a ser alívio cômico e sensual a cada vez que surge na tela.

 

De resto, um desfile de carrões, roupas de grife, empoderamento feminino, homens subjugados e imbecilizados e uma participação de Patrick Stewart de fazer corar os admiradores de seu trabalho como Capitão Picard ou Professor X.

 

“As Panteras” é isso: lacração inevitável, resultado entediante.

 

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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