A sorrateira carreira solo de Mick Jagger

 

 Quando lançou seu primeiro LP solo em 1985, Mick Jagger estava de saco cheio de Keith Richards. Por mais de uma década, Keith esteve com o pé na cova, mas foi mantido neste mundo menos por sua propalada esperteza e mais pelo amplo, porém discreto, sistema de segurança que a corporação The Rolling Stones, sob o comando férreo de Jagger, acionou para garantir que parte vital da empresa não fosse para o buraco prematuramente e não levasse tudo com ela.

 

Em 1976, os Stones admitiram um novo músico no seu círculo mais íntimo: Ronnie Wood, que àquela altura já tinha o nome inscrito na história do rock por ter integrado duas bandas excepcionais: The Jeff Beck Group (com Rod Stewart no vocal principal) e The Faces (de novo com Rod Stewart). Em meados dos anos 1970, os Stones estavam sendo acusados pelos cri-críticos profissionais de rock de complacência artística e de aburguesamento, a despeito dos ótimos álbuns que o grupo lançou naquele período, entre eles os subvalorizados “Goats Head Soup” e “Black & Blue”. Em 1978, com Ronnie Wood na condição de funcionário full-time, os Stones lançaram um LP campeão, Some Girls, que driblou feito Garrincha o maniqueísmo da cena musical daquele ano, marcada pelo conflito aberto entre disco music e punk rock. Safos como sempre, os Stones incorporaram a batida discothèque na faixa de abertura do álbum, “Miss You”, e adotaram a sonoridade enxutíssima e agressiva do punk em outras gravações de Some Girls, entre elas “When the Whip Comes Down” e “Lies”. O LP de 1978, coleção de canções exemplares do rock’n’roll pintado de negro característico dos Stones, restaurou o prestígio do grupo junto aos (de)formadores de opinião da mídia.

 

Apesar do triunfo estético e comercial de Some Girls, os Stones davam sinais de que a vida louca que levaram desde o início da carreira profissional em 1962 estava finalmente cobrando seu preço de vários modos. Os dois álbuns dos Stones que sucederam Some Girls foram montados em grande parte com sobras de estúdio, com uma ou outra gravação nova salpicada entre as recauchutadas. A despeito deste fato, “Emotional Rescue” e “Tattoo You” são discos valorosos, cada um a seu modo, e fizeram enorme sucesso, sobretudo nos EUA. “Tattoo You” inspirou a turnê de 1981 dos Stones, que arrastou multidões aos enormes estádios dos EUA e da Europa que acolheram os shows da banda. A turnê foi registrada de modo brilhante em filme por Hal Ashby, cineasta rebelde responsável por obras como “Ensina-me a Viver” e “Muito Além do Jardim”.

 

O êxito artístico e comercial de “Tattoo You” e da turnê de divulgação deste álbum certamente influenciou a recuperação pessoal e artística de Keith Richards no início dos anos 1980. Quando a operação “resgate do Keith” começou a provar-se bem-sucedida, o beneficiário, dotado de renovado senso de realidade e propósito, começou a fazer-se ouvir dentro do grupo depois de anos e anos de silêncio provocado pelo estupor químico. Jagger, o dono da bola e do campinho durante quase toda a década de 1970, achou (com razão?) que Keith tornara-se ingrato. Percebendo que colegas como David Bowie e Tina Turner e ex-groupies como Madonna andavam enchendo a burra de dinheiro com projetos mais pop (alguns preferem chamá-los de “populistas”), Jagger, cansado de carregar os Stones nas costas por muitos anos, quis o seu quinhão de estrelado solo.

 

“State of Shock”, o dueto com Michael Jackson publicado em 1984 sob o nome do grupo The Jacksons, foi um hit mundial, mas rendeu menos do que podia nas paradas de sucessos porque não teve videoclipe para divulgá-lo. 1985 parece ter sido o ano pródigo dos álbuns solo de músicos que se tornaram conhecidos por pertencerem a bandas de rock famosas. Naquele ano, Freddie Mercury lançou “Mr. Bad Guy” e Sting publicou “The Dream of the Blue Turtles”, seu primeiro LP como solista. Dave Lee Roth jogou no mercado o EP que inaugurou sua jornada solo, “Crazy From the Heat”. O terceiro álbum solo de Phil Collins, “No Jacket Required”, vendeu milhões de cópias no mundo todo e ganhou o Grammy de Álbum do Ano em 1986 (o prêmio é relativo ao ano anterior). Sempre ligado no espírito do tempo, Mick Jagger lançou-se com avidez como artista solo em 19 de fevereiro de 1985, data de lançamento do álbum “She’s the Boss”. O título do LP trazia uma piada embutida, uma declaração sem culpa de que Mick Jagger era agora a única “patroa” da própria música e da própria carreira, pois não tinha que prestar contas a mais ninguém por suas decisões estéticas e financeiras.

 

Liberdade, afinal? Nem tanto, mestre. A primeira faixa de “She’s the Boss” é “Lonely at the Top” escrita por Jagger com o velho parceiro Keith Richards. “Lonely at the Top” é fruto que não caiu muito longe da árvore dos Stones, um rock vibrante cuja letra entrega o desejo de estrelato solo de Jagger: “O teatro está deserto e as mesas estão vazias/Você é o próximo no teste e está com medo/Ah, mas você quer muito o papel na peça/Vá em frente, mostre como uma estrela deve agir”. Ao verificar a ficha técnica de “Lonely at the Top”, encontramos três astros da música, Pete Townshend, Jeff Beck, Herbie Hancock, além da participação do “artista cult” Bill Laswell. As participações destes e de outros músicos de renome em She’s the Boss, entre eles, Ray Cooper, Jan Hammer, Tony Thompson, G. E. Smith e a dupla Sly & Robbie, revela o investimento pesado no disco feito por Mick Jagger. A carreira solo do vocalista dos Stones era papo firme, ao menos para ele.

 

É na segunda faixa de “She’s the Boss” que a verdadeira natureza do álbum se revela. O arranjo de “1/2 a Loaf” entrega de imediato o nome de quem produziu a gravação: Nile Rodgers. Com participação de outro membro notável do grupo Chic, o baixista Bernard Edwards, “1/2 a Loaf” demonstra inequivocamente que “Let’s Dance”, álbum de 1983 que fez de David Bowie um superastro pop, deu régua e compasso para Mick Jagger conceber “She’s the Boss”, um disco pop desinibido, declaradamente dirigido às sôfregas massas transcontinentais de consumidores que naquele momento adquiriam às toneladas produtos de Michael Jackson, de Prince e de outros astros que foram influenciados, em maior ou menor grau, por Jagger. Na condição de frontman dos Stones, Jagger desenvolveu um estilo solto, vigoroso e espontâneo de ocupação do palco que virou paradigma para as gerações seguintes de cantores de pop rock.

 

“She’s the Boss” tem um par de canções anódinas, que podem ser classificadas como filler: “Running Out of Luck” e “Turn the Girl Loose”. As demais gravações do disco oferecem algumas surpresas ao ouvinte. Os três hits radiofônicos do LP, “Hard Woman”, “Just Another Night” e “Lucky in Love”, são canções pop que não perderam a capacidade de cativar mais de três décadas depois de lançadas. “Hard Woman”, a “balada romântica” do disco,  virou uma espécie de standard de rádios tipo Antena Um. A divertida faixa-título revela um lado livre, leve e solto de Jagger que raramente aparece em discos dos Stones. “Secrets” pode não ser uma canção memorável, mas a sonoridade decalcada do grupo Chic é sedutora.

 

A primeira empreitada solo de Mick Jagger na terra dos long plays vendeu bem quando apareceu nas lojas de discos, mas não foi um fenômeno comercial e cultural como “Let’s Dance” ou “Private Dancer’ (de Tina Turner, para quem não sabe ou não lembra). Nem o LP e nem as faixas extraídas dele conseguiram entrar no seleto clube dos “dez mais vendidos” nos EUA. Além disso, o álbum foi destroçado pelos resenhistas profissionais e pelos fãs mais empedernidos dos Stones. Keith Richards, venenoso, comparou a popularidade de “She’s the Boss” à de “Mein Kampf”, o livro de Hitler, dizendo: “Todo mundo tem uma cópia (do LP de Jagger), mas ninguém o escuta”.

 

Além do grande investimento na produção musical de “She’s the Boss”, Mick Jagger preparou um vídeo de longa-metragem para divulgar o LP. Dirigido pelo enfant terrible Julien Temple (filho da adorável Shirley Temple), o vídeo, gravado no Brasil, conta com participação de atores locais como Tony Tornado e Norma Bengell. Esta interpretava a “vilã” do vídeo, a dona de uma fazenda produtora de bananas que sequestra e escraviza o cantor inglês. O roteiro estapafúrdio do vídeo, com suas evidentes conotações colonialistas, fez com que o trabalho de Jagger e Temple se tornasse uma joia do humor involuntário. O trecho do vídeo em que Jagger, depois de fugir da fazenda, entra em um pequeno armazém para pedir ajuda e se apresenta aos estupefatos donos do lugar como “Mick Jeguero” é de rolar de rir.

 

Enquanto Mick Jagger buscava brilhar sozinho, de forma às vezes atabalhoada, Keith Richards, de mãos dadas com Ronnie Wood, decidiu tomar as rédeas do álbum seguinte dos Stones. Inúmeros relatos dizem que Jagger esteve consideravelmente ausente das sessões de gravação de “Dirty Work”. O vocalista estava mais preocupado em desenvolver uma carreira como ator de cinema e prosseguir como astro solo. Quando lançado, “Dirty Work”, o “álbum do Keith”, foi achincalhado pelos cri-críticos de rock atuantes nos principais veículos de comunicação do planeta. O som duro do álbum (engendrado por Steve Lillywhite, produtor associado ao U2), desprovido do suingue natural dos Stones e próximo do rock “de arena” dos anos 1980, combinado com o cinismo da maioria das canções do disco e os vocais berrados de Jagger, provou-se difícil de engolir de uma vez só. “Dirty Work” continua a dividir opiniões. O LP tem seus defensores, entre eles o notável Robert Christgau, autointitulado “o deão dos críticos de rock”, mas os detratores ainda são em maior número. Uma remixagem do álbum, que enxugasse o som dele, extraindo o reverb e outros cacoetes de produção populares nos anos 1980, certamente favoreceria o produto final. De todo modo, “Dirty Work” é um álbum único na discografia dos Stones, apartado do que veio antes, inclusive (ou principalmente) de “She’s the Boss”, e merece reavaliação.

 

Jagger recusou-se a divulgar “Dirty Work” em turnê, atitude que enfureceu Keith. As brigas dos galinhos de rinha dos Stones ganharam a imprensa e muitos acreditaram que o fim dos Stones, que naquele momento já era considerada uma banda paleozoica, estava próximo. Tudo seria definido pelo segundo disco solo de Jagger. Foi aí que o grande xamã stoniano deixou passar o cavalo encilhado, isto é, perdeu sua grande oportunidade de brilhar longe do grupo de rock com o qual estava envolvido há mais de duas décadas. “Primitive Cool”, o segundo álbum solo de Jagger, não é desprovido de qualidades artísticas como muitos dizem por aí, mas essas qualidades não se sobressaem aos problemas do disco quando o ouvimos na íntegra. As faixas não têm o apelo rítmico e melódico próprio do som dos Stones ou mesmo de “She’s the Boss”. Neste disco, Jagger afastou-se da música negra que sempre lhe serviu de inspiração e caiu de boca em um ”rockinho” direto e branco, feito para agradar à turba de ouvintes caucasianos que resistia à ”negritude” posada dos Stones. Editado em 1987, “Primitive Cool’ contém uma comovente balada country, “Party Doll”, mas Jagger errou feio ao escrever, gravar e definir como primeiro single do álbum a controversa ”Let’s Work”, uma ode ao trabalho sintonizada com os piores valores da era Reagan/Thatcher e embalada por um arranjo electro latino.  Quem ouviu e ouve ”Let’s Work” não consegue imaginar como tal canção foi escrita e interpretada pelo mesmo autor da amarga “Salt of the Earth”, de 1968.

 

Ao final, Primitive Cool não ganhou nem a simpatia dos cri-críticos (embora tenha seus defensores, ainda que em pequeno número) e nem o grande público e terminou por selar o destino da carreira solo de Mick Jagger: ela seria uma nota de rodapé na história dos Rolling Stones, ainda que ofereça recompensas musicais aos curiosos e aos fãs da veterana banda de rock inglesa. “Wandering Spirit”, LP do cantor de 1993, é bem mais bonito e atraente que discos dos Stones como “Steel Wheels” e “Bridges to Babylon”, mas não fez sucesso comercial e hoje é lembrado apenas pelos nerds do rock. Produzido por Rick Rubin, “Wandering Spirit” tem pegada classicista de blues, R&B e country que evita modismos do pop e serve à perfeição às inspiradas canções preparadas por Jagger para o disco. Infelizmente, a empreitada solo seguinte de Mick Jagger materializou-se na forma de “Goddess in the Doorway”, de 2001, um álbum rotineiro e esquecível, ainda que não seja totalmente desprezível.

 

Mick Jagger voltou à ativa como solista em 2004 com a trilha da infeliz refilmagem de “Alfie”, escrita e produzida em parceria com Dave Stewart, dos Eurythmics (o produtor de Primitive Cool). A trilha de Jagger e Stewart é boa de ouvir, mas não coça o dedinho do pé da música do filme de 1966, que conta com contribuições de Sonny Rollins (jazzista que participou da gravação de “Waiting on a Friend” dos Rolling Stones) e de Burt Bacharach. A carreira solo de Mick Jagger foi revista pela coletânea “The Very Best of Mick Jagger”, publicada em 2007 pela Rhino. Apesar de ser um excelente resumo das aventuras musicais de Mick Jagger sem os Stones, a coletânea comete pecado capital ao não apresentar as gravações em ordem cronológica. Os destaques de “The Very Best of Mick Jagger” são as maravilhosas “Memo From Turner”, do perturbador filme Performance, e “Too Many Cooks (Spoil the Soup)”, regravação de um clássico da soul music dos anos 1970 produzido por ninguém menos que John Lennon, além do divertidíssimo  dueto com David Bowie em “Dancing in the Street”.

 

Em 2017, Mick Jagger fez fortes declarações políticas por meio de duas canções publicadas em CD single. “Gotta Get a Grip”, a primeira faixa do disquinho, comenta de modo arguto a terrível realidade social e política do século XXI: “O mundo está de cabeça para baixo/Todos são lunáticos e palhaços/Ninguém diz a verdade/O manicômio comanda a cidade/Mas você precisa se conter/Bata com um pau/Todo mundo está enchendo os bolsos/Todo mundo está a mil/Toda notícia é falsa/Deixe que comam frango, deixe que comam bife/Deixe que comam merda, deixe que comam bolo”. A letra da segunda faixa do single, “England Lost”, aponta um dedo firme para o conservadorismo inglês que hostiliza os imigrantes e defende a polêmica saída do Reino Unido da União Europeia. Vagando entre a concessão e a criatividade, entre o conservadorismo e a rebeldia, entre o incansável desejo de notoriedade e a necessidade de permanente afirmação de seu valor como artista, Mick Jagger serpenteou sorrateiramente em carreira solo, sacudindo de vez em quando o chocalho que traz na cauda e exibindo cá e lá a língua ferina, tudo de acordo com o script roqueiro.

 

 

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Zeca Azevedo

Zeca Azevedo é. Por enquanto.

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