A luz vermelha do nazismo

 

 

Os funcionários do infame governo atual me deixam uma dúvida: estão eles falando sério ou são um bando de bufões? Às vezes a tendência é que achemos que eles são realmente patéticos, no sentido lúdico da palavra, que traduz algo com o qual não devemos nos preocupar. Mas quando vemos um ministro da Cultura fazer um pronunciamento em que cita explicitamente um discurso de joseph goebbels, ministro da propaganda de hitler, uma luz vermelha se acende.

 

roberto alvim fez isso ontem à noite. Publicou no Twitter um discurso de pouco mais de seis minutos no qual define metas para o Prêmio Nacional das Artes, um programa que visa premiar artistas que criem obras nos mais variados campos – da ópera aos quadrinhos – com a intenção de “redefinir a cultura nacional”. alvim fala sobre isso o tempo todo em seu pronunciamento: sobre a necessidade de produzir uma cultura que atenda aos anseios da população brasileira, que seja enraizada nas nossas “mais profundas tradições”, ou seja, em suas palavras: no “autossacrifício e na constante ligação com … Deus”.

 

Em outras palavras: o governo brasileiro vai oferecer mais de 20 milhões de reais para que artistas vinculados ao conjunto de traços da ideologia prestigiada pelo governo atual, ou seja, preconceito, ataque às minorias, vinculação aos interesses expressos pelo capital transnacional, preferência pelo modelo cristão-evangélico, entre outros, para que pessoas produzam “arte” e “cultura”, supostamente atendendo a um anseio desta gente, que está no governo e que traduz em atos o que a multidão de pessoas vestidas de camisa da cbf significou historicamente para o Brasil.

 

Sim, é para nos preocuparmos.

 

alvim aparece orgulhoso e triunfante no vídeo. Em certo ponto, usa a frase:

“A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”

 

Ela é uma cópia de:  “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, fala de goebbels para diretores de teatro, de acordo com o livro “Goebbels: a Biography”, de Peter Longerich.

 

Era uma preocupação dos nazistas – e dos fascistas em geral – o ataque à cultura e a produção de obras e manifestações que exaltassem o que eles chamavam de “nova ordem”. Segundo o pronunciamento de alvim, a ideia deste prêmio é esta, a de criar símbolos e expressões culturais que traduzam a chegada, supostamente heróica, desta gente ao governo brasileiro, via fake news, fraudes e ataques aos poderes constitucionais. Ao fazer isso, todo o esforço de historiadores e artistas ao longo dos tempos está em risco.

 

Como eu disse: é, sim, para nos preocuparmos. E muito.

 

 

ATUALIZAÇÃO: Por volta das 11:30h começaram a circular as notícias dando conta de que o secretário foi exonerado de suas funções por conta de seu discurso. Sendo assim, tudo isso é revoltante, patético e imperdoável, mas, que este sujeito jamais exerça qualquer cargo diretivo novamente.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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