A live do Rei

 

 

Fiz uma análise sobre os números musicais do evento One World Together At Home – você lê aqui – e disse que não dava pra ser muito exigente com quesitos técnicos numa hora dessas. Que o mais importante era a intenção e a mensagem. Apesar de ter isso em mente, fiz uma postagem no Facebook após a live do Rei Roberto Carlos, transmitida ontem à noite. Nela, com bastante ironia – quem me segue no Facebook sabe que sou assim – eu tentava fazer um elogio ao Rei, dizendo que, apesar das camadas de breguice extrema que o evento tivera, ele seguia com a voz quase inalterada e capaz de me emocionar com canções do calibre de “Detalhes” e “Caminhoneiro”, incluídas no setlist. Apesar de muita gente concordar com o humor ácido do post, fiz algumas reflexões sobre o que disse e acho que vale aplicar o mesmo parâmetro que defini para o One World. Sendo assim, aqui vai o que achei da live do Rei, depois de dormir uma noite sobre o assunto.

 

A mensagem foi o mais importante. Não só a explícita, traduzida no “fiquem em casa” e “usem álcool-gel, lavem as mãos”, como a implícita, contida no apoio do cantor mais importante do Brasil ao isolamento social. A live de Roberto não pode ser encarada apenas como um evento musical, da mesmíssima forma que uma live do Paul McCartney não poderia. Guardadas as proporções, o Rei é o que mais se aproxima desses gigantes da música internacional que temos em nossa cultura pop. Não adianta nem tentar pensar diferente, apesar de que Roberto tenha escolhido ser um cantor estritamente romântico e popular há mais de quatro décadas. Em algum lugar do passado habita nele o ídolo musical de um país inteiro e isso não pode ser desprezado.

 

Além da mensagem, a postura do Rei é digna de aplausos. Ontem, dia 19 de abril de 2020, ele era, além de Roberto Carlos, um senhor fazendo 79 anos de idade em sua casa. A parte final do evento, na qual foi oferecido ao Rei um bolo de côco, em meio a um “Parabéns a você” executado nos teclados de Eduardo Lages e Tutuca – que o acompanharam na live – é o retrato fiel e inescapável do Brasil. Não importa o quão aviltado esteja o nosso país, todos nós reconhecemos no “feliz aniversário” uma mensagem de carinho, amor e esperança emitida pelos que nos são mais queridos e importantes. Roberto, de certa forma, é um avô do nosso inconsciente coletivo, o qual vimos envelhecer em público, sofrer em público e sobre quem temos dúvidas sobre caráter, postura política e opiniões. Eu adoraria que ele fosse um sujeito de esquerda, mas ele não é. Nem por isso sou capaz de jogar fora as lembranças que sua presença me traz – de família, de entes queridos, de Natais, de outros tempos. Não consigo.

 

Musicalmente a live foi uma tradução fidelíssima do que Roberto é hoje. Seu show é popular, não brega, como disse meu amigo Zeca Azevedo, a pessoa cuja opinião musical sempre irá me importar. Há uma diferença, na qual o segundo termo contém uma análise depreciativa do que significa o primeiro. Zeca está certo. Roberto Carlos é inegavelmente popular. Sua solução sonora para a live, assim como a de gente como o grupo americano The Killers, foi optar por acompanhamento musical que lhe possibilitasse reproduzir o mínimo de fidelidade sonora. Por isso lá estavam os dois tecladistas, que faziam sonoridades de cordas, pianos e sintetizadores, numa moldura sonora que continha harmonia e dava ao Rei a possibilidade de entoar alguns de seus clássicos.

 

A voz de Roberto ainda está excelente. Ele é um cantor raríssimo, que não parece fazer esforço para alcançar seus melhores tons e timbres. Ele plana sobre a melodia, dá solenidade às interpretações. É um mestre do uso inteligente dos recursos vocais. Seus músicos o acompanham há muito tempo, sabem exatamente o que fazer para dar sustentação para esta voz tão especial e importante. Ontem não foi diferente. Em alguns momentos curtíssimos esse fantasma da melhor música pop planetária estava em algum lugar da levada funky de “Todos Estão Surdos” ou na gentileza de “Como É Grande O Meu Amor Por Você”.

 

Mantenho uma fala da minha postagem. Das canções que o Rei executou ontem, “Detalhes” e “Caminhoneiro” são minhas preferidas. A primeira por conter alguns dos versos mais belos da música popular brasileira em todos os tempos temporais. A segunda por me trazer lembranças de um tempo em que minha maior responsabilidade era tirar nota 7 em Matemática, algo que parecia impossível mas que eu trocaria de olhos fechados pelo caminhão de responsas que tenho hoje. Roberto é essa memória do impossível de voltar. Do inatingível, do que já se foi mas que, num espaço de cinco minutos de sua canção, volta a ficar ao alcance das mãos. Essa é uma sensação que os mais novos não entenderão totalmente. Azar deles.

 

Claro, há quem deteste Roberto Carlos e o que ele significa. Não os culpo, ainda mais sendo uma pessoa que acredita na absoluta liberdade de escolha e expressão. Mas o gesto do Rei, em sua casa na Urca, soprando velinhas de aniversário, antecipando sua reduzida aparição protocolar ao vivo e fazendo – como também disse o meu amigo Zeca – uma gentileza de se pronunciar sobre a pandemia e dando um presente para seu público é, sim, comovente e digna de aplausos. Imagino o quão difícil não deve ter sido para alguém com TOC ensaiar e se expor numa situação dessas. O Rei está de parabéns, é um fato.

 

Roberto é inescapável. É o Brasil da nossa família, dos avós, tios-avós, da gente criança, do mundo lúdico que escondia um país sombrio e injusto. Roberto é, além de memória afetiva, uma alternativa conservadora e segura ao real. Ele é o nosso parente que prefere se referir ao vírus Covid-19 como “eu não gosto nem de falar o nome disso aí”. Ele é inevitável.

Não adianta nem tentar…

 

Setlist

1. Como é grande o meu amor por você

2. É preciso saber viver

3. Detalhes

4. Caminhoneiro

5. Canzone per te

6. Nossa Senhora me dê a mão.

7. Amigo

8. Eu te amo tanto

9. Todos estão surdos

10. Jesus salvador

11. Jesus Cristo (Eu estou aqui)

 

+1

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

3 thoughts on “A live do Rei

  • 20 de abril de 2020 em 20:57
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    boa noite, Carlos. nao sei se lembra de mim. parabens pelo texto. formidavel.

    breve correcao

    5. Canzone per te
    10. Eu te amo tanto

    +1
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    • 20 de abril de 2020 em 21:02
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      Opa, Marcel! Correções efetuadas, obrigado pela gentileza.

      0
      Resposta
      • 20 de abril de 2020 em 22:04
        Permalink

        pensei 8 falei 10. desculpe.

        8. Eu te amo tanto
        10. Jesus Salvador

        0
        Resposta

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