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Entrevista com Beto Cupertino, do Violins

 

 

“Aguacêro”, o décimo álbum do Violins já está disponível nos streamings. Já fizemos a nossa resenha dele e constatamos o que parece ser muito óbvio: o grupo goiano não erra a mão. Seja na musicalidade herdada do rock alternativo emocional americano da virada do milênio, no sentido Death Cab For Cutie/Built For Spill do termo, seja nas letras sempre muito boas de Beto Cupertino. Responsável pelos vocais e guitarras, além das palavras, Beto é uma das vozes mais centradas do rock alternativo brasileiro e isso já começa por seu low profile. Atento, politizado e ótima pessoa, Beto faz pequenos grandes tratados em suas letras, responsáveis pela contundência de discos como “Grandes Infiéis” (2005), “Tribunal Surdo” (2007), “A Redenção dos Corpos” (2009) ou “Direito de Ser Nada” (2011), destaques numa carreira que já chegou aos 25 anos. Batemos um papo rápido por e-mail, respondido por Beto enquanto fazia uma conexão no aeroporto, sempre com atenção e carinho. Aqui vai.

 

– Nas suas músicas, as letras costumam ser muito precisas e diretas. No caso de Aguacero, o que nasceu primeiro: as melodias e bases de guitarra ou o texto das canções?

BC – Normalmente eu faço a parte musical primeiro, depois eu vou escrevendo as letras já com as melodias prontas. Em alguns casos, algumas frases ou palavras vão surgindo enquanto estou criando as melodias então acabam servindo de referência para a letra completa que vem depois, mas meu processo de composição sempre começa com o instrumento e a criação dos acordes, harmonias e melodias.

 

– O Violins continua apostando em um som de rock forte, com guitarras marcantes e timbres densos. Em uma época dominada por músicas feitas para durar poucos segundos em redes sociais, como é insistir nesse formato de banda? O que você tem ouvido?

BC – É uma coisa que a gente não pensa muito na hora de fazer as músicas. Fazemos do jeito que gostamos fazer e aí, se isso não é a tendência atual, paciência. É o jeito que a gente se sente bem fazendo música e o modo como a gente se conecta um com o outro enquanto banda. Depois que o pessoal da Monstro me pediu para falar qual seria a música single do disco e eu disse “Chuva de Vento” que fui me dar conta de que a música tem mais de cinco minutos Realmente é um jeito todo nosso de não alcançar qualquer sucesso. Ultimamente estava ouvindo bastante Maglore, Transmissor, Novo Amor, Beach Fossils, Wolf Alice, e eu estava ouvindo também umas coisas de metal mais moderno tipo Sleep Token, President, essas coisas.

 

– Você lançou recentemente o álbum solo “Auto”, que tem um formato mais enxuto. O que muda na sua cabeça na hora de compor para o seu projeto individual e quando você veste a camisa do Violins?

BC – Muda muito porque com o Violins eu não tenho controle sobre tudo, tenho parceiros que são músicos excelentes e na banda a gente sempre decide tudo em conjunto, então é preciso que todos gostem das músicas para que a gente se dedique a elas. E por serem músicos muito bons, coisa que eu não sou, eles acabam trazendo uma roupagem muito única para as músicas, melhoram tudo, e esse processo é muito legal. As minhas coisas solo eu faço sozinho em casa, então eu construo todas as partes de todos os instrumentos de forma mais intuitiva, como um músico intuitivo que sou. Eu gosto das duas formas de fazer música, mas se fosse para escolher uma com certeza eu prefiro fazer música com a banda, até porque também estou na presença dos meus melhores amigos.

 

– Suas letras frequentemente usam a ironia e o humor ácido para falar de frustrações cotidianas e relações humanas. Você se considera um observador pessimista da realidade ou existe uma busca por esperança no fundo dessas histórias?

BC – Eu sempre brinco que o pessimista tem a vantagem de nunca se frustrar. Eu tendo a ter visões pessimistas sobre as coisas, mas é um pessimismo temperado com alguma esperança, algum respiro, porque o pessimismo puro é muito asfixiante também. E no mundo certamente não há só coisa ruim, há um monte de eventos que vai também frustrando o pessimista, porque mostram que de certa forma há caminhos possíveis e que, quem sabe, as mudanças podem acontecer em momentos em que se encontra os limites. Então eu acabo sendo um pessimista que se frustra com coisas boas. hehe

 

– O Violins sempre teve uma identidade muito forte construída a partir de Goiânia, fora do circuito tradicional Rio-São Paulo. A cidade continua sendo importante para o processo criativo?

BC – Acho que sim. O meio onde você vive sempre tem uma influência muito grande no modo como você vê o mundo. Muita gente me diz que há muita referência ao sol nas minhas letras. É que o sol em Goiânia tem um papel muito relevante, o clima seco, a poeira. São elementos que acabam servindo também como metáforas. Se eu morasse numa cidade muito fria, possivelmente isso teria também uma influência grande nas músicas.

 

– Como foi o trabalho no estúdio para gravar “Aguacero”? O objetivo era registrar a energia crua da banda tocando junta ou vocês buscaram experimentar novos arranjos e camadas na mistura?

BC – As duas coisas. A gente gravou tocando junto, sem metrônomo, para que as coisas tivessem essa atmosfera de música ao vivo. Depois acrescentamos gravações individuais para incrementar os arranjos e atmosfera geral do disco, então ele acaba tendo essa junção da espontaneidade do ao vivo mas com um complemento de arranjos mais pensados e que têm um papel importante também no resultado final das músicas.

 

– Hoje em dia, a indústria da música pressiona os artistas a lançarem apenas singles avulsos. O que faz o Violins continuar acreditando no valor de lançar um disco cheio, pensado do começo ao fim?

BC – Acho que lançar músicas avulsas pode ser legal, e a gente não se opõe a isso, mas a impressão que fica depois de um tempo é que tudo é meio vazio e sem substância, como se cada single fosse um story que vai desaparecer em algumas horas. O disco traz um peso diferente, porque ele mergulha o ouvinte num oceano e não na piscina pequena do single avulso. Ele tende a deixar uma marca mais relevante no ouvinte, por envolvê-lo numa viagem mais carregada de significado. A gente tentou fazer isso de lançar single avulso, como foi o caso de Sossego Tenso, Doce Privilégio e Preços, músicas que lançamos avulsas e depois juntamos num EP, mas a sensação que ficou foi de que elas ficaram meio órfãs, que viveram uma vida sem significado, desamparadas.

 

– O Violins sempre pareceu respeitar o tempo que cada trabalho exige para nascer, sem ceder à pressa que cobra lançamentos o tempo todo. Como é para você administrar esse intervalo entre um disco e outro? Essa pausa serve para deixar as ideias amadurecerem naturalmente ou é simplesmente o tempo necessário para viver a vida fora da banda antes de voltar a compor?

BC – Na primeira década da banda, a gente lançou discos com mais frequência, mas acho que a vida vai passando e outras coisas vão também precisando de atenção, então você se dedica a outros projetos, todos na banda tiveram filhos, menos eu, e aí as coisas vão acontecendo naturalmente no seu tempo. Vai acabando aquele rompante meio impulsivo da juventude e a maturidade faz a gente ficar mais seletivo. Eu passo por fases de inspiração também, tem momentos que não adianta eu sentar para compor algo que parece que não é o momento. É como se as músicas que decidissem que hora elas querem nascer e eu não tenho muito controle sobre a vontade delas.

 

– Além da música, você lançou recentemente o livro “O Som do Chão Trêmulo”. De que forma o exercício da prosear e construir narrativas literárias influenciou a sua escrita em Aguacero?

BC – Acho que me faz ficar mais atento às letras, à escrita. Este é um disco que me dediquei mais à escrita, tem inclusive uma música que é praticamente toda falada, em que o texto é que se faz protagonista. O exercício da escrita literária me faz isso de ficar mais exigente com o texto, então tem uma influência sim no modo como eu me dedico às letras. Houve discos em que as letras ficaram em segundo plano e hoje me arrependo de ter sido assim, sinto que fui meio negligente e preguiçoso e que poderia ter feito algo melhor.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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