13 Motivos Para Votar em Lula – Por Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é uma referência para mim. Ele é Professor de Ciência Política da Universidade de Brasília desde 1996, coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) e um dos grandes autores brasileiros da atualidade no campo das Ciências Humanas. Sou assinante de sua newsletter no Substack, chamada O Amanhã Ainda Não Existe e acompanho suas postagens com interesse e curiosidade constantes. Hoje, 14 de setembro, ele publicou o texto que a Célula Pop reproduz integralmente abaixo.
Entramos em contato com o professor, que nos autorizou a publicação da íntegra, tendo em vista a importância do tema e a urgência do momento. Portanto, sem meias palavras, com vocabulário totalmente isento, nada complicado e com argumentos simples, aqui vão 13 MOTIVOS PARA VOTAR EM LULA.
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Faltando 21 dias para o primeiro turno, com as revelações sobre o escândalo do Banco Master finalmente vindo todas à tona, o cenário está claro. Temos, de um lado, o presidente Lula, com todas as limitações de sua política de frente ampla e de sua aversão ao enfrentamento. Do outro, Flávio Bolsonaro, como principal representante de um projeto regressivo que aparece também nas figuras de Ronaldo Caiado, de Romeu Zema, de Renan Santos e, com uma roupagem menos agressiva, de Augusto Cury.
Serão Lula e Flávio Bolsonaro que, com certeza quase absoluta, se enfrentarão no segundo turno. Mesmo com toda a exposição das tramas escusas do filho de Jair, o império sobre sua base é tão grande que o derretimento de sua candidatura é muitíssimo improvável.
Por isso, a disputa que se avizinha difícil. E ela terá um profundo impacto no futuro do Brasil. Apresento aqui uma breve relação do que está em jogo na eleição do mês que vem – e que deve orientar o voto de todos nós. Sem triunfalismo lulista, mas com realismo.
1) Democracia – Quando promulgou, em 1988, a nossa Constituição escrita “com ódio e nojo a ditadura”, Ulysses Guimarães enunciou aquilo que, então, era o consenso mínimo da elite política brasileira. Muitos se esforçaram, com grande sucesso aliás, para impedir qualquer punição pelos crimes cometidos durante o período autoritário. Mas ninguém, nem mesmo nos partidos de direita, se apresentava na esfera pública defendendo uma volta a ele – exceto meia dúzia de generais do pijama, que se julgava que eram politicamente irrelevantes.
Isso mudou no momento da agitação com vistas à deflagração do golpe de 2016. De forma surpreendente, o discurso de defesa da ditadura, da perseguição aos adversários, até mesmo da tortura, ganhou tração e passou a empolgar amplos setores da população.
Podemos e devemos discutir os motivos disso: os limites do nosso experimento democrático, a insuficiência das políticas igualitárias. Ainda assim, a erosão do tabu que impedia a defesa da ditadura representa um grave retrocesso.
Jair Bolsonaro, que passou de figura marginal a líder político de alcance nacional exatamente com este discurso, ocupou todo seu mandato tramando formas de permanecer na presidência mesmo sem autorização do eleitorado. Não apenas estimulou o descrédito nas urnas e perseguiu adversários como também não economizou medidas de força para desvirtuar o resultado – incluindo a tentativa de impedir que eleitores exercessem seu direito. Depois da vitória de Lula, buscou apoio dos chefes militares e mobilizou sua base popular para desferir um golpe, culminando no 8 de janeiro.
A punição aos golpistas foi um dos triunfos que a democracia brasileira teve nos últimos tempos. A vitória de Flávio significará não apenas a reversão dessa punição como também um ataque ainda mais feroz às instituições democráticas. Caso eleito, Flávio fará de tudo para ser o ditador que seu pai não conseguiu ser.
2) Liberdades – O governo do Bolsonaro pai nunca escondeu sua vocação liberticida. Perseguição à imprensa, às universidades e às escolas, à ciência, aos produtores culturais. O filho segue no mesmo caminho. Ditadura – a forma de governo que eles preferem – não combina com liberdade para ninguém.
3) Igualdade – A igualdade é um valor central da democracia e também está no coração de qualquer concepção de sociedade justa. A política dos Bolsonaro, porém, é contrária a todas as formas de promoção da igualdade. Defende vantagens para os mais ricos, recusando a tributação progressiva, a taxação das grandes fortunas, qualquer medida nesta direção. Opera contra os direitos dos trabalhadores, em nome da farsa ultraliberal da autonomia da negociação entre patrões e empregados, o que significa simplesmente se eximir de proteger o lado mais fraco. O discurso fajuto da meritocracia serve de justificativa para ser contra as políticas sociais que garantem condições de vida para os mais pobres.
4) Progresso social – Por isso, por ser visceralmente contra a igualdade, o bolsonarismo é inimigo do progresso social.
Apesar de ter sido obrigado a assumir o discurso contra a violência contra as mulheres, Flávio é aliado da manutenção das hierarquias que as oprimem, defendendo os papéis tradicionais, a família sob dominação masculina, tudo aquilo que alimenta agressões que elas sofrem em nossa sociedade. Poucas das lideranças bolsonaristas se assumem abertamente como racistas, mas a oposição cerrada que fazem contra todas as iniciativas de combate ao racismo deixa claro de que lado estão. Em suma, tudo aquilo que pode contribuir para construir uma sociedade mais justa, dos direitos dos trabalhadores ao combate à homofobia, enfrenta a oposição de Flávio Bolsonaro e de quem está com ele.
Os governos do PT não fizeram tudo o que podiam e deviam. Seu registro é problemático em muitos pontos, a começar pelo tema da legalização do aborto. Mas não há parâmetro de comparação com seus adversários.
5) Soberania – Soberania não é uma palavra vazia, como a extrema-direita tenta fazer crer (vide a propaganda de Flávio dizendo que o que importa é a “soberania da segurança pública”).
Soberania é a possibilidade de que o povo brasileiro decida o melhor caminho para si mesmo. Numa circunstância próxima da normalidade, um candidato presidencial que defendesse a submissão de seu país a uma potência estrangeira teria liquidado sua carreira política. Infelizmente, faz muito tempo que estamos longe de qualquer situação normal.
Jair Bolsonaro transformou o Brasil em chacota mundial. Adotou uma política externa de vassalagem e entregou o que pôde de nossas riquezas para o capital estrangeiro.
O horizonte do bolsonarismo e das elites que o apoiam é extrair do Brasil tudo o que puderem, sem dar nada em troca – e depois ir morar em Miami. Podem se enrolar na bandeira, se pintar de verde e amarelo o quanto puderem, mas nada apaga o fato de que “patriotismo” sem defesa da soberania é fake.
O cenário internacional é intrincado e desafiador, com o aumento da pressão imperialista dos Estados Unidos e o avanço, mais sutil, dos interesses chineses. Se o Brasil quer sonhar com ter uma posição no mundo compatível com aquilo que ele é – um país de dimensões continentais, com a sétima maior população do planeta e enormes riquezas naturais – não pode cair na mão de um capacho de Donald Trump.
6) Meio ambiente – Uma das características da extrema- direita, pelo mundo afora, é negar a gravidade da questão ambiental. Mas, como o noticiário nos lembra dia sim, dia também, o planeta está a caminho do colapso. O Brasil, por sua biodiversidade, pela importância de suas florestas na regulação climática global, é fundamental caso a humanidade deseje garantir um futuro para si mesma.
O registro do governo Lula na questão ambiental é, como em tantas outras áreas, ambíguo. Em muitos pontos, cede à pressão quer dos interesses econômicos, quer de uma ideologia desenvolvimentista que pouco entendeu dos desafios ecológicos atuais. Mas não é um governo negacionista. dá espaço para agenda ambiental e tem abertura para o diálogo. Já o que caracteriza os Bolsonaro é a vontade de, como disse celebremente um ministro de Jair, “passar a boiada”, eliminando qualquer controle sobre latifundiários, madeireiras, a indústria da extração mineral. Reeleger Lula é uma exigência não só do Brasil, mas do planeta Terra.
7) Segurança – A direita gosta de se apresentar como aquela que se preocupa com a segurança pública. Seu discurso é sempre o mesmo: penas mais pesadas, presídios mais bárbaros, polícia mais assassina. Uma receita que é posta em prática há muito tempo e que nunca dá certo.
Ninguém vai negar que o registro dos governos do PT na área está muito abaixo do desejado. Há setores da esquerda que não compreendem a centralidade da pauta da segurança. Há quem romantize a bandidagem. Há outros que reproduzem, nos governos estaduais, o punitivismo brutal e acéfalo da direita.
Porém, é a família Bolsonaro que acumula evidências de ligações com o crime organizado. Flávio Bolsonaro empregou, homenageou e confraternizou com milicianos. São os bolsonaristas que são presos com arsenais de armas em suas casas, quando não trocando tiros com a polícia. São eles também que emperram o projeto de emenda constitucional que permitiria maior envolvimento do governo federal no combate ao crime organizado.
8) Honestidade – A direita também gosta de se apropriar do discurso sobre a corrupção, mas a verdade é que ela concentra os grandes ladrões do dinheiro público no Brasil. Podemos questionar a leniência com que Lula tratou muitos escândalos em seus governos, por conveniência política, entendendo pragmaticamente que era impossível governar se fazer vista grossa para práticas da nossa elite política, ou por amizade. Mas não existe nenhuma dúvida de que ele é pessoalmente honesto; sua vida foi revirada e não conseguiram mais do que ilações falsas e processos enviesados. Já os Bolsonaro, tanto Jair quanto Flávio, vivem de rolo em rolo, ao longo de toda sua carreira política – ou mesmo antes, se lembramos dos negócios que o capitão fazia no Exército. Se fazia falta alguma prova, o caso do banco Master está aí, com o candidato envolvido até o pescoço nos esquemas do responsável pela maior fraude bancárias de nossa história.
Combater a corrupção é necessário para estabelecer uma disputa política mais sã no Brasil. A corrupção drena recursos de políticas necessárias para a população e também garante que os interesses da classe burguesa e dos ricos em geral sejam privilegiados nos processos decisórios – ela é uma daquelas “falhas estruturais”, que já estão previstas no funcionamento do sistema, ainda que contra suas regras explícitas. Uma presidência de Flávio Bolsonaro é a garantia de que não avançaremos nada nessa direção.
9) Competência – Flavio Bolsonaro passou sua vida à sombra do pai. Deputado por causa do sobrenome, depois senador por causa do sobrenome, agora candidato presidencial por causa do sobrenome, notabilizou-se por escândalos de rachadinhas, homenagens a milicianos e rolos com lojas de chocolate e mansões a preço de banana. Não tem experiência administrativa, nem tem capacidade de liderança e de negociação política. Pior, não agrega ninguém com estas qualidades, uma vez que seu projeto é um projeto de clã, acima de tudo.
Governar um país como o Brasil exige preparo, capacidade de diálogo, liderança. No momento, só Lula reúne estas qualidades.
10) Saúde – O SUS, uma das maiores conquistas do povo brasileiro, nunca foi perfeito. Mas nunca esteve tão más condições quanto no governo de Bolsonaro. É uma mistura de projeto, uma vez que se trata de beneficiar a medicina privada, negacionismo científico, emblematizado pela adesão às teorias da conspiração contra as vacinas, e o desprezo pela vida humana, uma característica marcante da visão de mundo da extrema direita.
O bolsonarismo é diretamente responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas, durante a pandemia. Enquanto elas morriam, o presidente da República debochava delas. Aquela imagem – de Jair imitando um doente morrendo pela falta do oxigênio não entregava aos hospitais – devia bastar para que qualquer pessoa rejeitasse a continuidade de seu projeto político.
11) Educação – Os Bolsonaro não têm e não gostam.
12) Alimentação – Sob Jair Bolsonaro, foi revertida a maior conquista dos governos do PT: tirar o Brasil do mapa da fome. Milhões de brasileiros voltaram a não saber se teriam o que comer. Os índices de desnutrição de crianças e adolescentes dispararam. Não foi um caso: foi o espelhamento das prioridades de seu governo.
No seu terceiro mandato, Lula voltou a priorizar a segurança alimentar. É necessário assegurar que não ocorra nova reversão. Qualquer que seja o modelo de país que nós queiramos construir, não pode ter gente passando fome nele.
13) A vida e o futuro de cada brasileiro – O que está em jogo, em suma, é a vida de cada brasileira e de cada brasileiro, por bem mais do que pelos próximos quatro anos. Nós já vimos a força destrutiva de um governo de extrema-direita, já vimos como é custoso desfazer todo mal que é feito.
Com um novo mandato de Lula, nada estará resolvido. Mas teremos espaço para lutar por uma vida melhor, por um país mais justo, por direitos garantidos para todos.
Já com o Flávio Bolsonaro, vamos sofrer um governo contra o povo e contra o país.
Em suma. A escolha não é nada difícil. Lula é o representante de um conjunto eclético de interesses. No seu próximo mandato, assim como no atual e nos anteriores, nada está garantido, mas há espaço para luta, para pressão, para promover avanços. Já Flávio Bolsonaro encarna um projeto de retrocesso em todas as áreas.
A experiência internacional mostra que, quando a extrema-direita retorna ao poder, é mais destrutiva do que quando vence pela primeira vez. No governo de Jair Bolsonaro, resistimos, aos trancos e barrancos, mas resistimos. No há dúvida de que seu filho virá com uma agenda ainda mais radical de destruição dos sistemas de controles e da autonomia das instituições do Estado. Derrotá-lo é a tarefa necessária, indispensável, prioritária.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
