Onde estavam Kleiton e Kledir em 1986?

Em 19 de dezembro de 1986 eu fui ao extinto Canecão ver um show de Kleiton & Kledir. Apesar de gostar de algumas gravações que os irmãos gaúchos haviam feito até então, eu fui àquele show porque queria impressionar uma menina que era fã deles, quem nunca? O fato é que a dupla já não era tão popular naquela época, visto o domínio do rock nacional nas paradas de sucesso. O pop radiofônico que K&K faziam, de excelente qualidade, era “soft” demais para tempos enguitarrados. E o pior, do mesmo Rio Grande do Sul começavam a vir bandas como Engenheiros do Hawai e Replicantes, dispostas a preencher essa vaga concedida aos gaúchos na música pop nacional. Claro que esta afirmação é tristemente irônica, uma vez que a obra de K&K é superlativa por si só e atingia um nível de maturidade inédito no álbum que lançaram em outubro de 1986, homônimo. Por isso decidimos escrever algo sobre este disco, que passou batido da maioria dos ouvintes daquele tempo e precisa urgentemente de reavaliação, pois trata-se de um belo e raro exemplar de pop brasileiro equilibrado, bem produzido e cheio de ótimas canções. Sendo assim, vamos a ele.
Ao falarmos dos 40 anos de “Vivendo e Não Aprendendo”, segundo álbum do Ira!, recebemos uma observação de Emílio Pacheco, biógrafo de Kleiton e Kledir, ressaltando a importância do disco que a dupla lançou no mesmo 1986 e lamentando o esquecimento/desconhecimento em relação a ele. Ao mesmo tempo, há menos de uma semana revi a dupla no palco, acrescida de seu genial e talentoso irmão mais novo, Vitor Ramil. Impossível não lembrar daquela apresentação no Canecão e a necessidade de falar sobre este álbum de 1986, do qual Vitor também participa de forma decisiva. Daí Emílio respondeu a uma solicitação feita por mim e me passou material precioso sobre o lançamento do disco, além de um trecho de seu livro, especificamente sobre ele. Sendo assim, cá estamos, tentando fazer justiça à dupla e seu trabalho. Antes de falar especificamente sobre o álbum, é importante dizer que ele contém uma das mais belas canções daquele ano, “Tô A Fim de Ficar Contigo”, lançada como single, antecipando a chegada dele. Com uma melodia belíssima, arranjo sensacional e a participação de Mauro Senise no sax alto, é um exemplo inconteste da capacidade da dupla soar lírica e, ao mesmo tempo, antenada com o espírito daquele tempo.
Aliás, este é um álbum totalmente sintonizado com seu tempo. De cara temos a análise de conjuntura que é “Diário de Bordo (SOS)”, que abriu a apresentação ao vivo da banda no Canecão. Introduzida por bipes de rádio-amador, a melodia é puro jazz pop, com ótimo arranjo e velocidade. A canção “1986”, por exemplo, fala do “blefe” do Cometa Halley, que era esperado como um dos grandes eventos do ano e mal deu as caras na nossa abóbada celeste. Por isso, Kledir, em vez de cantar o verso “brilha no céu o Cometa de Halley”, meteu um “blefa no céu o Cometa de Halley”, nada mais justo. Além dessa menção, há um aceno ao Kumbha Mela, uma peregrinação religiosa que acontece a cada doze anos. E ainda havia acenos ao tempo de penúria econômica que o Brasil daquele tempo vivia. Era o tempo do “fiscal do sarney”, do Plano Cruzado, de situações impensáveis hoje. Aliás, Vitor é o responsável por essa lembrança/crítica ao momento. Na ficha técnica da canção “CQD”, ele é listado como “fiscal do Sarney”, enquanto na letra de “Mais Um Dia”, composta por ele, há o verso “o cruzado cria novos santos // santos que resistem satisfeitos”, mostrando o engano cometido à época ao pensar que aquele momento significava alguma mudança em relação à ditadura civil-militar. Tal menção é tão crítica e contundente quanto a feita por qualquer banda de rock no período.
Vitor também surge nos vocais da vanguardista “N”, na qual a gente fica tentando buscar sentidos ocultos e significados mirabolantes na construção dos sons das palavras. Segundo o release, “o significado está apenas nas próprias sonoridades que vão surgindo”. Outro momento belíssimo do álbum é “Laranjal”, ostntando um arranjo intrincado, que lembra uma versão alternativa, subjetiva e estranha do que seria uma canção do The Police no multiverso gaúcho. O arranjo é ótimo e instigante, servindo perfeitamente para que a letra descreva a paz de espírito que a dupla encontra quando vai até a casa da família, no litoral. Passagens da vida idílica de lá ilustram a bela junção de palavras, que assume ares de simplicidade ao descrever a comunhão encontrada por lá. A mistura do idioma pop com lembranças de paisagens sulistas e outro aceno ao discretíssimo cometa ilustra a bela “Pampa de Luz” e o arranjo moderninho – hoje datado – de “Para Pedro” também vai nessa onda, de atualizar e contextualizar tradições e elementos típicos para a vigência. E tem “Cheio de Vida”, que fecha o disco, outra lindeza de arranjo, com final apoteótico.
A dupla contou com uma baita banda para as gravações: Andre Gomes (baixo), Alexandre Fonseca (bateria) e Carlos Martau (guitarra). Eram 3/4 do Grupo Cheiro de Vida. O quarto integrante, Paulinho Superkóvia, também participou das gravações. Além deles, o tecladista Luciano Alves, o também tecladista uruguaio Hugo Fattoruso, o já mencionado saxofonista Mauro Senise, além de Eduardo Morelenbaum, Nico Assumpção e até o sanfoneiro Sivuca participam do disco, que foi produzido por ninguém menos que Roberto Menescal. Na estrada, apenas Luciano continuou com a dupla, com os outros postos sendo ocupados por Élcio Cáfaro, na bateria; Tavinho Fialho, no baixo e Augusto Licks nas guitarras, então recém incorporado aos Engenheiros do Hawai.
Este álbum de 1986, batizado como “Kleiton & Kledir”, assim como todos os lançamentos feitos até então, marcou o último lançado por eles antes de uma pausa de sete anos na carreira. Certamente o mau desempenho dele nas paradas, a despeito das ótimas canções que contém, contribuiu para isso. É uma pena, pois, repito, trata-se de um ótimo exemplo da música pop brasileira moderna daquele tempo, com timbres bem tirados, produção bem feita, composições inspiradas mas que, devido à cegueira da indústria e da mídia, passou batido pelo público. Ouçam, conheçam, passem adiante.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
