Os quarenta anos de “Vivendo e Não Aprendendo”

É senso comum definir que o ano de 1986 teve três discos decisivos para rock nacional: “Selvagem?”, dos Paralamas; “Dois”, da Legião Urbana e “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs. Algumas pessoas podem acrescentar o campeão de vendas daquele ano e do período, “Rádio Pirata Ao Vivo”, do RPM ou o álbum homônimo de Lulu Santos (que tem “Casa”) mas qualquer avaliação de relevância artística da produção daquele ano estará incompleta sem dar a importância devida a “Vivendo e Não Aprendendo”, o segundo álbum do Ira!. Talvez ele seja o mais querido entre os fãs do “rock” como um estilo, muito por conta de uma fidelidade estética que a banda manteve com o mod ao longo de sua carreira, especialmente nos quatro primeiros discos que lançou, a saber, “Mudança de Comportamento” (1985), “Vivendo…” (1986), “Psicoacústica” (1988) e “Clandestino” (1990). Há várias abordagens e maneiras de ver esse contexto de 1986: relevância artística, vendas, importância e, sobretudo, como as obras atravessaram o tempo. Neste quesito, “Vivendo” é surpreendentemente atual, muito por conta das letras de Edgard Scandurra, que, quase sempre brilhante como autor, tem aqui o ponto mais controverso de sua trajetória. Há muito o que falar sobre o disco, vamos lá.
Uma olhada nas paradas de sucesso de 1986 vai mostrar dois desses quatro grandes álbuns com muito protagonismo: “Dois” e “Cabeça Dinossauro”. Várias canções deles tocaram demais em rádio e TV, ainda que fossem “difíceis”, como “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “AA UU” ou “Homem Primata”. Um pouco abaixo vinham os Paralamas, com “Alagados”, que era anunciada no Rio como “a modinha de guitarra dos Paralamas”, tamanha a estranheza que seu arranjo causava na plateia ávida por rock. E vinha o Ira! correndo por fora, primeiro com “Envelheço na Cidade”, depois com “Dias de Luta”, os dois singles que anunciaram a chegada de seu segundo disco. Antes disso, ainda que houvesse uma quantidade enorme de ótimas canções em sua estreia, “Mudança de Comportamento”, a banda só conseguiu cravar “Núcleo Base” como hit nacional. Sendo assim, em termos de execução, o Ira! era o menos conhecido e menos tocado desses quatro grandes grupos. E aí veio o inesperado: “Flores em Você”, com um arranjo de cordas tipicamente britânico, foi parar na abertura da novela global “O Outro”, tocando todo dia no horário nobre da TV. Nenhuma banda de rock nacional havia conseguido tal feito, ainda mais com uma canção tão diferente. O fato é que tal situação chamou definitivamente a atenção para o Ira!, que saiu das páginas da revista Bizz e dos meios mais alternativos para o sucesso nacional.
Mas “Vivendo e Não Aprendendo” ainda tinha muitas surpresas. A começar pela expectativa que gerou entre os admiradores do grupo, que entrou em estúdio no início de 1986 disposto a se tornar uma das forças indiscutíveis do rock nacional. Se “Mudança” deu a certeza do potencial do Ira!, agora era hora de confirmar isso e a Warner, gravadora do quarteto, entendeu que Liminha seria o produtor certo para fazer a banda confirmar tudo isso. Cabe aqui um parênteses: em 1986, o rock nacional era “dividido” entre a produção de Rio e São Paulo. As bandas das duas cidades eram muito distintas e as imprensas especializadas locais se alfinetavam e atiçavam uma rivalidade estética e, vá lá, sociológica, na qual o rock “de verdade” era paulistano, justo por guardar semelhança com cidades como Detroit ou Manchester, metrópoles cinzentas e lúgubres. Ora, o rock não poderia florescer numa cidade à beira mar, como o Rio. Sendo assim, a Warner apostava neste choque de visões, quando colocou no mesmo estúdio os quatro integrantes do Ira!, talvez a banda mais paulistana daquele tempo – Edgard Scandurra, Nasi, André Jung e Ricardo Gaspa – com o produtor Liminha e seu mítico estúdio Nas Nuvens, no coração da Zona Sul carioca.
A gravadora lembrou da química sensacional que Liminha havia obtido com os Titãs, outra banda eminentemente paulistana, mas diametralmente oposta ao Ira! em termos de ideias e influências. A pluralidade titânica de estilos e abordagens conversou muito bem com a visão que Liminha tinha para o rock nacional, algo que poderia – e deveria – seguir um rumo próprio, com seus próprios valores e estética. Daí veio o Ira!, querendo fazer um disco inspirado em The Jam e The Who, duas bandas que, em pleno 1986, significavam conservadorismo total aos ouvidos de Liminha. Não deu certo. O produtor enxergava o Ira! como uma banda que precisava de um “banho de loja” de teclados, algo que, claro, não ressoou entre os membros do quarteto. Além disso, as guitarras de Edgard, a própria fundação do som do Ira!, soavam desafinadas aos ouvidos de Liminha. Esses choques de visão estética minaram a relação entre os músicos e o produtor, resultando em vários atritos. A própria gravação de “Flores em Você”, com o arranjo de cordas, teve a sugestão de Liminha e foi, a princípio, rejeitada pelo grupo, mas o produtor bateu pé. Várias discordâncias sobre o jeito como o vocalista Nasi atuava, além de detalhes técnicos de todo o tipo, culminaram com um desgaste insuportável, eclodindo após Liminha cutucar o vocalista, perguntando como era gravar com uma banda afinada, logo após ele colocar a voz em “Flores”. A banda pegou todo o material que havia registrado, voltou para São Paulo e finalizou o disco lá mesmo, com a presença do engenheiro de som português Paulo Junqueiro e o produtor Pena Schimidt, que assinara o seu primeiro trabalho.
“Vivendo e Não Aprendendo”, como dissemos, tem muitas histórias. Além dessa rusga com Liminha, o Ira! conseguiu sofrer um boicote da Globo no mesmo momento em que adornava a abertura de sua novela principal. No fim de 1986, a banda, então no topo das paradas e na abertura de “O Outro”, foi escalada para o especial de Natal do Chacrinha, que era o principal programa musical do país naquele tempo. Chegando para gravar no Teatro Fênix, os integrantes do grupo receberam a notícia de que iriam gravam com toquinhas de Papai Noel, algo que todas as atrações estavam fazendo. Prontamente os quatro recusaram e bateram pé, dizendo que jamais fariam aquilo. A produção não recuou e o resultado veio forte: o Ira! não se apresentou no Chacrinha novamente, sendo considerado “persona non grata” por todas as atrações da emissora, algo que prejudicou sensivelmente a divulgação do álbum. Outro revés surgiu com a canção “Pobre Paulista”, cuja letra foi considerada xenófoba por fazer alusão a “gente feia” e “esses ignorantes”, numa linha de pensamento que poderia significar preconceito contra nordestinos na cidade de São Paulo. Mesmo que Edgard Scandurra tenha alegado que a letra fala sobre juventude contra velhos burgueses da cidade (ele escreveu a letra com 20 anos), a banda acabou retirando a canção de seus shows com o passar do tempo, para não suscitar qualquer dúvida quanto à sua postura sobre o caso.
Longe das polêmicas, de fato, “Vivendo e Não Aprendendo” é um discaço. Tem uma das melhores aberturas do rock nacional, com “Envelheço na Cidade”, que talvez seja a canção de felicitações mais triste de todos os tempos, trazendo como poucas o sentimento de solidão e desajuste de alguém em relação a uma coletividade. Tem “Gritos Na Multidão”, que, assim como “Pobre Paulista”, aparecia no disco em versão ao vivo, registrada na Broadway, em São Paulo, em 3 de maio daquele ano. Tem a já mencionada “Dias de Luta”, uma das canções mais mod já feitas fora da Inglaterra, além de um monte de faixas criminosamente esquecidas. “Vitrine Viva” é uma prévia do flerte que a banda manteria com o funk e o hip hop, algo que se confirmaria a partir do próximo álbum, “Psicoacústica”. Tem a ótima “Casa de Papel”, que fala sobre como era estreita a perspectiva das pessoas naqueles tempos de pós-ditadura militar, ainda sob o governo das mesmas figuras nefastas, achatadas sob as botas da recessão econômica. E tem “Quinze Anos” e “Nas Ruas”, duas canções clássicas do ideário do Ira! enquanto banda, com reflexões existenciais sobre o passar do tempo e quanto isso custa para a manutenção de uma integridade diante dos fatos. Pura poesia adolescente.
De todos esses álbuns de 1986, “Vivendo…” é o mais paradoxal. Não olhava para o futuro em termos estéticos, mas atravessou o tempo com suas reflexões. E olhava para o presente em termos sonoros, ficando talvez irremediavelmente datado naquele tempo. De qualquer maneira, é um evidente exemplo de como a produção de bandas nacionais atingiu um ponto de excelência criativa e comercial ao longo dos anos 1980. Um clássico inegável.
Em tempo: as versões ao vivo de “Pobre Paulista” e “Gritos Na Multidão” não foram incluídas na edição em CD do álbum, que foi disponibilizada em streaming. Você as encontra nas versões em vinil da época e, na malandragem deste editor, na “I Collection”, do Ira!, que também está no streaming, mas meio esquecida. Colocamos abaixo pra você.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Não citar na lista O Concreto Já Rachou…