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Kleiton, Kledir e Vitor Ramil no Vivo Rio

 

 

Vivo Rio, 22 de agosto.

 

Com cerca de dez minutos de atraso, Kleiton, Kledir e Vitor Ramil subiram ao palco do Vivo Rio lotado para a única apresentação carioca de sua turnê conjunta. Ainda que sempre tenham colaborado em diferentes momentos de suas carreiras, é a primeira vez que os irmãos fazem um show completo juntos, algo que é nada menos que merecido e sensacional, por várias razões. Kleiton e Kledir, você sabe – ou deveria saber – integraram uma dupla de muito sucesso no início dos anos 1980. Faziam um pop de alto potencial radiofônico, temperado com acenos a elementos da música do Rio Grande do Sul – os Ramil são de Pelotas. Antes disso, haviam feito parte do grupo Almôndegas, que lançou álbuns nos anos 1970, com uma receita semelhante, porém, mais gaúcha e um tanto menos pop. Ainda que tenha feito sucesso por lá, o grupo cravou uma canção em nível nacional – “Canção da Meia-Noite”, que fez parte da trilha sonora da novela global “Saramandaia”, em 1976. Foi como dupla que eles surgiram com mais força e consistência no cenário nacional, a partir da gravação de “Vira Virou” pelas vozes do grupo MPB-4, em 1980. Este também foi o ano de estreia deles em disco, com outro sucesso imenso: “Fonte da Saudade”.

 

A partir daí, a dupla lançou uma sequência de discos homônimos até 1986, cravando vários sucessos nas paradas nacionais. Vieram “Paixão”, “Deu Pra Ti”, Tô Que Tô”, “Beijoqueiro”, “Nem Pensar”, entre várias outras. E veio também “Estrela, Estrela”. Esta é a canção que Vitor Ramil, então com 17/18 anos, compôs e os irmãos gravaram, com grande sucesso, em 1981. Ela foi parar na voz de Gal Costa e vários outros intérpretes a registraram. Vitor iniciou sua trajetória neste mesmo ano, com um disco também chamado “Estrela, Estrela” e não parou mais. Construiu uma carreira à parte dos irmãos, com uma sonoridade que continha elementos pop, mas que era mais, digamos, voltada para os ritmos do sul do continente, não só do Rio Grande, mas de lugares como Uruguai e Argentina. São de sua lavra álbuns belíssimos e muito menos conhecidos do público do país, como “Tango” (1987), “À Beça” (1995), “Ramilonga – A Estética do Frio (1997), “Tambong” (2000) e por aí vai. Se a dupla K&K interrompeu atividades entre 1987 e 1994, Vitor, num ritmo mais desacelerado, manteve-se ativo e produtivo. Com a retomada das atividades dos irmãos a partir do fim dos anos 1990 e do advento da Casa Ramil, a família apresenta-se junta, com filhos, primos, pais, todo mundo junto no palco. Privilégio de poucas linhagens.

 

A apresentação do Vivo Rio traz o trio em sintonia fina. A ideia é repassar igualmente por sucessos de Kleiton e Kledir e mesclar com composições de Vitor, que adquiriram, com o tempo, um pendor dylanesco evidente, com letras surrealistas, engajadas e com muito apelo de contação de histórias das bandas de lá, devidamente realçadas pela abordagem acústica que o show propõe. Tudo isso surge num conceito à la Crosby, Stills and Nash, em que os três harmonizam suas vozes com muita clareza e tocam violões, violino, cuatro venezoelano e tudo mais. Em meio às canções, os três falam das carreiras, das histórias de algumas canções e brincam uns com os outros. Depois de cantar a belíssima “Foi No Mês Que Vem” com os irmãos, Vitor fala que Kledir teria “se apropriado” de um verso de sua autoria, “Ser feliz é tudo que se quer”, que teria ido parar na letra de “Paixão”, talvez o maior sucesso da carreira da dupla. Em seguida, todos cantam a canção, num belo arranjo de violões.

 

Ao longo do show, vão passando canções mais e menos conhecidas. Tem espaço para uma releitura bela de “Canção da Meia-Noite”, versões inspiradas de “Paixão”, “Deu Pra Ti”, “Fonte da Saudade”, “Nem Pensar”, todas muito celebradas pelo público, do mesmo jeito que composições de Vitor, como “Loucos de Cara” e Foi No Mês Que Vem” ganham muita força com o arranjo para o trio de vozes. Outros momentos belos e emocionantes – o resgate de “Roda de Chimarrão”, canção de 1984 da dupla, na qual os irmãos lembram de tradições de família em meio a projeção de fotos antigas no telão – aliás, é digna de celebração a abordagem de Isabel Ramil faz da iluminação e da parte visual do show. Tem espaço para uma versão simpática de “You’ve Got To Hide Your Love Away”, dos Beatles fase 1965, engatada com uma interpretação forte e pungente de “Vira Virou”. E tem outra homenagem às influências externas, a forte presença de “Joquim”, uma versão que Vitor fez de “Joey”, canção de 1976 de Bob Dylan em sua fase “Rolling Thunder Revue”, em que o violino de Kleiton participa ativamente.

 

Por fim, é possível ver que o repertório dos Ramil, seja o mais pop, seja o mais obscuro, tem potencial de qualidade semelhante ao de artistas como Guilherme Arantes, Vinicius Cantuária, Tavito, Cor do Som, gente que fez a transição do pop setentista nacional para o que viria nos anos 1980, sob outra linguagem e signos diversos. Sempre com qualidade, bom senso e simpatia. Um showzaço. Se esses sujeitos passarem em sua cidade, vá prestigiá-los.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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