A fase em que eu só se falava em Britfunk
Descobri o britfunk por algumas músicas que eu nem sabia onde encaixar. Tinham funk, jazz, soul e disco, mas soavam diferentes do que vinha dos Estados Unidos. Quando descobri que aquilo tinha nome, fui atrás de tudo e, por um tempo, britfunk virou assunto recorrente nas minhas conversas. Talvez porque seja uma das raras vezes em que a Inglaterra pegou emprestada uma invenção americana e resolveu fazer algo realmente estranho e interessante com ela.
Tudo começou no fim dos anos 1970, no sul da Inglaterra, numa mistura de jazz, funk, soul e ritmo de dança que ainda guardava um pé no gancho pop, e que precisava, evidentemente, de alguém para tocar nas pistas. Esse alguém era uma turma de DJs com nomes de personagem de novela policial britânica: Froggy, Greg Edwards, Robbie Vincent, Chris Hill, Colin Curtis. Chris Hill e sua gangue eram chamados de Funk Mafia, o que soa como piada mas era coisa séria: em maio de 1980 esse pessoal organizou em Knebworth um festival de um dia inteiro, doze mil pessoas, e quem coroou o line-up foi o Light of the World, banda que já vinha carregando aquele som havia quatro anos nas costas. Para efeito de comparação, é como se uma cena inteira de música negra brasileira tivesse decolado a partir de um puxadinho de rádio AM e uma boate de subúrbio, o que, convenhamos, tem seus paralelos por aqui.
O Light of the World, aliás, funcionou como uma espécie de árvore genealógica do britfunk. Quando a banda rachou, seus integrantes se espalharam por novos projetos. De um lado nasceu o Beggar & Co, de outro, o Incognito. O Beggar & Co nasceu em 1981 com ex-integrantes do Light of the World, Kenny Wellington, David Baptiste, Neville McKrieth, e já emplacou de cara o número 15 nas paradas com “(Somebody) Help Me Out”. O primeiro estouro do gênero tinha sido antes, em 1978, com o Hi-Tension chegando ao Top 10, prova de que a fórmula funcionava desde o começo. E tem o caso do Central Line, sexteto de jazz-funk sem muita graça até decidirem contratar Roy Carter, ex-Heatwave, que pegou o standard “Nature Boy” e trocou o smoking por um traje eletrofunk. Foi o suficiente para virar banda relevante. É a prova de que às vezes o talento já estava lá, só faltava alguém de fora para apontar a direção certa.
Mas o meu affair mesmo, o que virou uma espécie de escuta compulsiva, foi com o Loose Ends. Jane Eugene, Carl McIntosh e Steve Nichol assinaram com a Virgin em 1981 e passaram três anos sendo, digamos, um projeto promissor que ninguém sabia bem o que fazer com ele. A virada veio quando resolveram atravessar o Atlântico, ao menos artisticamente, e se juntar ao produtor americano Nick Martinelli. O resultado foi uma espécie de acordo de paz entre Londres e Filadélfia: batida eletrônica seca de um lado, corda de orquestra de verdade do outro, e no meio um trio britânico cantando como se sempre tivesse pertencido àquele mundo. Dá para ouvir, faixa após faixa, a máquina e o músico de carne e osso brigando educadamente pelo mesmo espaço, sem que nenhum dos dois vença de vez.
O acordo deu certo rápido. “Hangin’ on a String (Contemplating)” saiu em fevereiro de 85, foi discreta no Reino Unido, número 13, mas nos Estados Unidos fez história: primeiro grupo britânico a chegar ao topo da parada de R&B da Billboard. Para quem acha isso um detalhe de nicho, vale lembrar que estamos falando de uma banda inglesa entrando pela porta da frente num território que os americanos tratavam como propriedade particular havia décadas. Depois vieram “Zagora”, em 86, e “Slow Down”, segundo número um da banda na parada de soul, o tipo de sequência que qualquer gravadora mataria para ter no currículo. A festa acabou como quase toda festa boa acaba: em 89, Jane Eugene e Steve Nichol foram embora depois de quatro discos, e Carl McIntosh ficou segurando a barra sozinho, produzindo e remixando gente como D’Angelo e Caron Wheeler, provando que sabia fazer o disco dos outros tão bem quanto fazia o próprio.
Agora, se alguém me perguntar por onde começar a entender essa história, a resposta é sempre a mesma: “A Little Spice”, disco de estreia, lançado em 25 de maio de 1984, gravado entre 1982/84, com Martinelli de novo nos comandos. E aqui já vai um aviso ao navegante: a versão americana, que saiu no ano seguinte, trocou uma faixa de lugar e reordenou o disco inteiro. Então quem cresceu ouvindo uma versão simplesmente não ouviu a mesma coisa que quem cresceu ouvindo a outra. Ninguém avisou isso a tempo, e é por isso que existem fóruns de internet inteiros dedicados a discutir a diferença.
O disco abre com “Tell Me What You Want”, que também foi o primeiro single, lançado em fevereiro de 84, escrito por McIntosh, Ray Shell e Steve Nichol, e que nas paradas britânicas fez o modesto número 74. A Inglaterra, provinciana como sempre, não fazia a menor ideia do que tinha em mãos. Mas como abertura de disco funciona perfeitamente: groove seco de caixa eletrônica segurando tudo, guitarra picotada fazendo o contraponto, e Jane Eugene entrando com uma autoridade vocal que já avisa que ali não tem espaço para amadorismo. Em seguida vem “Feel So Right Now”, balada que existe apenas na edição britânica, porque na americana ela cedeu lugar para “Hangin’ on a String”, que na época do lançamento inglês nem tinha saído ainda. Um dos raros casos em que a gravadora decidiu, sem avisar ninguém, que dois públicos mereciam dois discos diferentes com a mesma capa.
“Let’s Rock” segue a receita uptempo do título, sem meias palavras, e teve vida longa fora do álbum: voltou remixada em 86, como lado B de “Nights of Pleasure”, com remix assinado pelos próprios McIntosh e Nichol – prova de que a banda nunca deixava faixa velha descansar em paz se pudesse tirar mais leite de pedra dela. “So Much In Love” é a segunda balada do disco, puro quiet storm de madrugada americana, feita sob medida para a estratégia de Martinelli de vender britânico sem que soasse britânico. “Dial 999”, a minha preferida, pega o número de emergência do Reino Unido, o 999 equivalente ao nosso 190, e transforma isso na faixa mais eletrofunk do lote. Como single, saiu em abril de 84 e alcançou o número 41.
“Music Takes Me Higher” não tem mistério nenhum de letra, o título já entrega tudo, mas é onde a assinatura de Martinelli fica mais óbvia: aquele choque entre bateria eletrônica seca e naipe de cordas de verdade por cima, marca que ele levaria para outras bandas britânicas depois. “Choose Me” envelheceu bem o suficiente para ser resgatada quase uma década depois, remixada em 1992 dentro do projeto “Tighten Up Volume 1”, ao lado da própria “A Little Spice” e de “Magic Touch”. E é a faixa-título que fecha o disco, também remixada naquele mesmo pacote de 92, cumprindo o papel clássico de resumo geral: guitarra funkeada, batida programada, vocal afiado, sem nenhuma pretensão de virar hit, só de fechar a conta com estilo.
No fim, britfunk nunca foi nota de rodapé bonitinha de história do funk, foi uma geração inteira de músicos negros britânicos pegando som importado e devolvendo com sotaque próprio. E “A Little Spice” é a prova mais cabal disso: um disco de estreia que já nasce maduro, coisa rara em qualquer lugar do mundo, em qualquer época. A banda não estava testando fórmula, estava aplicando uma que já tinha decidido de antemão. Foi ali, modéstia à parte dos ingleses, que a soul music britânica começou a levar a sério a ideia de disputar terreno americano. E é por isso que ainda insisto nesse disco toda vez que alguém, distraidamente, me pergunta por onde começar.

Maísa Mendes de Carvalho é piauiense com toques paulistas, advogada, criadora e apresentadora do Distorção Podcast, amante das artes humanas e apaixonada por música.
