Maglore lança sexto disco com pinta de campeã

Maglore – Fluxo Natural
38′, 11 faixas
(LOCO)
(4,5 / 5)
A primeira vez que ouvi uma canção da Maglore foi há onze anos. “Se Você Fosse Minha”, faixa maravilhosa de seu terceiro álbum, “III”, foi uma das mais queridas daquele 2015. O som era meio próximo de uma herança meio samba-funk, meio Jorge Ben, meio indie rock, uma mistura bem azeitada e envolvente, que legitimava a sonoridade da banda. De alguma forma esse som ainda permanecia vigente no disco seguinte, “Todas As Bandeiras”, do qual a ótima “Me Deixa Legal” foi um dos grandes destaques. Mas havia uma pequena fagulha de novidade ali – um abraço a um folk rock nacional com referências nobres de artistas mineiros dos anos 1970/80, Beto Guedes e Lô Borges à frente. O timbre vocal de Teago Oliveira ajudava nessa impressão, especialmente na semelhança com o registro mais agudo de Beto, um dos grandes e injustiçados cantores e compositores da música brasileira. Depois de um álbum ao vivo em 2019, a banda retornou ao disco no pós-pandemia com “V”, em 2022. Nele a marca sonora já era totalmente devedora dessa matriz folk rock, com pitadas fortes de Belchior e um forte – e justo – engajamento político (sem ser partidário), além de uma evidente e renovada inspiração, algo que se refletia em belezuras como “Eles” e “Espírito Selvagem”. Agora, com “Fluxo Natural”, a Maglore vem oferecer essa sonoridade folk rock totalmente assimilada, apropriada, novamente cheia de ótimas canções. E fez mais um discaço.
A banda baiana, formada, além de Teago, por Lucas Gonçalves, Felipe Dieder e Lelo Brandão, é dessas que parecem escrever e gravar canções boas sem fazer muito esforço. Sempre há um belo achado melódico, um trecho de letra, algo que chama a atenção do ouvinte logo de cara. Não é diferente com a ótima safra de “Fluxo Natural”. Um elemento decisivo do que se entende por folk rock nacional, conduzido nos anos 1970 por gente, além de Beto e Lô, como Secos e Molhados, Tavito, Boca Livre e o Roupa Nova inicial, era a celebração de um humanismo intrínseco em suas letras. Como eram tempos bicudos, de ditadura civil-militar, esses artistas mimetizaram uma versão própria da aura hippie e transformaram em celebrações de uma vida mais simples, mais comunitária, mais igual. A Maglore incorporou essa visão de mundo, devidamente atualizada para os nossos tempos. É meio triste pensar que isso ainda soa tão revolucionário quase cinquenta anos depois de composições como “Lumiar” ou “Clarear” terem sido gravadas. De qualquer forma, o que os baianos conseguem aqui é colocar sua produção na continuidade natural desses artistas e, sinceramente, não consigo pensar em elogio maior ou mais justo.
Um grande exemplo dessa proximidade está na belíssima “Palestina Nos Seus Olhos”, que, além da melodia linda, tem um arranjo que evoca uma levada de teclados meio Beach Boys e incorpora versos que usam figuras como “Se outros impérios vão surgir, nosso amor irá permanecer”, “Vem logo pra mesa tem café, vou contar histórias pra você, de noite poder te ninar” ou “Ninguém quer um novo Dia D, a gente precisa se encontrar”. Tudo isso, que poderia estar numa canção como “O Sal da Terra”, por exemplo, é atualizado pelo lindo achado “Outro sol renascerá pra ver a Palestina nos seus olhos”, que traz o desejo por esse bem-querer e a ótica humanista à questão do conflito no Oriente Médio e, por tabela, a toda uma visão de mundo, que identifica a banda. E isso é absolutamente necessério neste tipo de som. Em “Sul-Americano” a banda também faz reflexões do contexto mundial, ao mesmo tempo assumindo e exaltando uma identidade local, igualmente necessária num momento como o atual, algo que vem refletido em linhas como “Sendo sul-americano posso me dar bem, sempre me dano // Sendo sul-americano posso me dar bem, sempre me engano”.
O engajamento político também pode vir de outro espectro, no caso, o jeito como se olha para a importância do amor. Nada mais próximo dessa galera mencionada acima do que achar que esse sentimento é capaz de mudar praticamente tudo, seja no âmbito pessoal, seja na empatia, seja na sociedade. E dá pra dizer que há vários momentos em que a banda reflete sobre isso. Em “Sonho Real”, que tem meio nome de canção e disco de Lô Borges, Teago fala sobre essa questão. Em “O Rio e o Mar”, a melodia tem muito do rock mais clássico e totalmente beatlemaníaco pela ótica de gente como Tavito ou, novamente, Beto Guedes, com mais uma reflexão sobre o amor, dessa vez, sobre o transcorrer do tempo e a capacidade de um sentimento não morrer. E tem a homenagem escrita, assumida e intitulada, no caso de “Para Lô”, que recorda a importância do autor de “Trem Azul” para a banda e para a vida de todos nós. A melodia é confortável, os vocais pontuam a letra – de Lucas Gonçalves e Karime Elmor – que adentra o território habitual das canções do mineiro: “Chá de coragem, com água do Sol // Um meio que atravessa margem, no dia em que brilha o toró”. E praticamente todas as outras canções têm alguma beleza marcante, do romantismo declarado de “Raio de Sol”, ao roquinho pianístico da ótima “Amor Sci-Fi”, passando pela simplicidade totalmente setentista de “Tudo Bem”, chegando ao arranjo bonitão de “Caravelas”, que fecha o disco.
“Fluxo Natural” é um discaço. Afirma a Maglore como uma das mais importantes bandas brasileiras dos últimos dez, quinze anos e a coloca no topo dos que ainda insistem em soar interessantes, inéditos e criativos. Bravo.
Ouça primeiro: o disco todo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
