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Rankeamos a discografia do R.E.M

 

 

Tenho um arrependimento pessoal terrível: não ter visto o R.E.M quando tive chance. Foram duas vezes – a primeira, no Rock in Rio III, em 13 de janeiro de 2001; e a segunda em 2008, quando o grupo veio para um show solo, no dia 08 de novembro, divulgando o álbum “Accelerate”. Poucas bandas na história recente da música conseguiram ocupar um lugar tão especial no coração dos fãs de rock alternativo quanto o R.E.M. Para quem cresceu acompanhando a trajetória do grupo, o quarteto de Athens, na Geórgia, nunca foi, além de uma banda de sucesso global, uma espécie de trilha sonora indispensável para a vida inteira. Eles moldaram o gosto musical de gerações ao provar que era possível aliar inteligência lírica, engajamento político e sensibilidade artística única com refrões que grudavam na cabeça de qualquer um. Com a voz enigmática e marcante de Michael Stipe na linha de frente, a bateria reta de Bill Berry, o baixo melódico e vocal de apoio arrebatador de Mike Mills e as guitarras cheias de personalidade de Peter Buck, o R.E.M. construiu uma identidade inconfundível que transformou e moldou o rock independente americano e mundial.

 

Ao longo de três décadas de uma discografia corajosa, a banda recusou qualquer fórmula engessada, navegando com liberdade criativa por todas as paragens possíveis: do jangle pop-punk rústico dos primeiros anos à densidade pantanosa do interior sulista, passando pelo colosso comercial dos estádios até chegar às experiências mais intimistas e eletrônicas de sua fase madura. É exatamente essa inquietude artística que faz a obra deles tão fascinante. É um percurso repleto de discos monumentais, reinvenções ousadas e canções que continuam dialogando profundamente com a gente.

 

Para celebrar essa trajetória inesquecível, estruturamos a seguir um ranking completo de todos os álbuns de estúdio do grupo — do menos inspirado ao ápice absoluto de sua genialidade —, revisitando passo a passo a história de uma das bandas mais amadas e influentes de todos os tempos. E da qual sentimos muita saudade.

 

 

16 – Around The Sun (2004) – Abrindo a retaguarda do ranking, este álbum carrega o peso de uma fase em que o R.E.M. soava mais burocrático e cansado, apostando em arranjos mornos e baladas arrastadas que acabaram diluindo a força melódica clássica da banda. É consenso que ele seja o momento menos inspirado do grupo, embora se salve a melancolia elegante de “Leaving New York”.

 

 

15 – Up (1998) – O primeiro passo pós-Bill Berry veio em formato de um experimento eletrônico e introspectivo que, apesar da coragem em reinventar a sonoridade com texturas de estúdio, soa muitas vezes distante e irregular para quem buscava o fôlego visceral de antes. Ainda assim, tralhava algumas lindezas como “At My Most Beautful” e “Daysleeper”.

 

 

14 – Dead Letter’s Office (1987) – Esta coletânea de lados B, sobras de estúdio e covers divertidos funciona essencialmente como um documento de bastidores e uma carta de amor às influências de garagem do grupo, sendo um prato cheio para fãs devotos, mas sem a coesão estrutural de um disco tradicional. Vale o desfile divertido por “Driver 8 (Live Acoustic)” ou pela ótima releitura de “Pale Blue Eyes”.

 

 

13 – Accelerate (2008) – Movido pelo desejo confesso de recuperar a urgência e o peso das guitarras após os anos mais mornos, o R.E.M se saiu com um disco de rock enxuto, direto e enérgico, ainda que esbarre ocasionalmente em uma certa sensação de fórmula requentada. Os pontos altos são a cáustica “Living Well Is The Best Revenge” e a eletrizante “Supernatural Superserious”.

 

 

12 – Collapse Into Now (2012) – Encerrando a discografia oficial com um aceno nostálgico aos grandes momentos do passado, o álbum junta pedaços de todas as eras da banda em uma celebração morna e competente, embora sem o fôlego inovador dos dias de glória. Quem brilha por aqui é a catártica “Überlin”.

 

 

11 – Green (1989) – O salto para o universo das grandes gravadoras veio acompanhado de uma guinada ruidosa e pop, onde mandolins acústicos convivem com hinos politizados de arena, marcando o exato momento em que o R.E.M. começou a flertar com a dominação mundial graças à inconfundível “Stand”. Além dela, “Pop Song 89′” e “Orange Crush” se destacam com força.

 

 

10 – Reckoning (1984) – O segundo disco refinou a cartilha jangle-pop de estreia com melodias ainda mais memoráveis, banhadas em uma névoa caipira e melancólica que transformou o folk-rock alternativo em um território poético fascinante e singular, ancorado na genialidade rústica de “So. Central Rain (I’m Sorry)”.

 

 

09 – Reveal (2001) – Mergulho profundo em uma estética exuberante, solar e orquestral que abraça sem pudores a herança pop dos anos 1960 e as texturas eletrônicas suaves, criando uma atmosfera litorânea das mais elegantes da fase madura. Há coisas lindas aqui, especialmente a bacharachiana “Beachball” e o brilho radiofônico de “Imitation of Life”.

 

 

08 – Fables Of Reconstruction (1985) – Imerso em uma atmosfera pantanosa, gótica e profundamente sulista, gravado sob o cinza de Londres, este trabalho aposta em arranjos tortuosos e narrativas enigmáticas que dão ao ouvinte a exata sensação de caminhar por lendas urbanas esquecidas, personificadas na beleza enigmática de “Driver 8”.

 

 

07 – Murmur (1983) – O disco de estreia que redesenhou o mapa do rock alternativo mundial, erguendo castelos sonoros de guitarras cristalinas, graves pulsantes e murmúrios indecifráveis que soavam como um sussurro misterioso vindo diretamente do underground americano, eternizado na clássica “Radio Free Europe”. Um dos melhores momentos da existência do R.E.M está aqui: “Talking About The Passion”.

 

 

06 – Out Of Time (1991) – O colosso comercial que levou a banda ao topo do planeta ao trocar as guitarras centrais por bandolins, cordas sofisticadas e o fenômeno global de “Losing My Religion”, provando que o pop alternativo podia conquistar o mundo sem perder a alma. Só que o disco ainda tem coisas como “Texarcana”, “Country Feedback” e a subestimada “Shiny Happy People”.

 

 

05 – Monster (1994) – Uma injeção estourada e suja de distorção glam-rock e ironia cibernética que pegou o público de surpresa no pós-Automatic, funcionando como um deboche brilhante contra a cultura de celebridades e o estrelato global que eles mesmos haviam alcançado, puxado pelo peso magnético de “What’s the Frequency, Kenneth?”. Além dela, uma das mais belas baladas da carreira do grupo está aqui: “Strange Currencies”.

 

 

04 – New Adventures In Hi-Fi (1996) – Um testamento genial e melancólico gravado na estrada durante turnês exaustivas, misturando o gigantismo dos estádios com a solidão em canções grandiosas, viscerais e que soam como o canto do cisne da formação original clássica. Aqui há lindezas como “Electrolite”, “E-Bow The Letter”, “Bittersweet Me” e a dolorosa “Leave”, talvez o momento mais monumental do álbum.

 

03 – Document (1988) – O ponto exato onde a urgência política, o peso das guitarras e o talento melódico absoluto colidiram, entregando hinos contundentes como “Welcome The Occupation”, “Exhuming McCarthy” e “The One I Love”. Além delas, “It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”, um dos melhores momentos da carreira do R.E.M.

 

02 – Automatic For The People (1992) – Uma obra-prima absoluta de dolorosa beleza acústica e reflexão sobre a mortalidade, a velhice e a perda, onde cada acorde de violão e arranjo de cordas parece sussurrar verdades universais em um dos discos mais humanos já gravados, perfeitamente traduzido na emoção atemporal de “Nightswimming”, “Drive” e “Everybody Hurts”, além da nossa preferida, “The Sidewinder Sleeps Tonite”.

 

01 – Life’s Rich Pageant (1986) – No topo absoluto está o momento de maior equilíbrio e vigor da banda: guitarras cortantes, consciência ecológica e social afiadíssima, e um desfile de melodias solares e urgentes que capturam o R.E.M. no ápice da sua força criativa. “Cuyahoga”, “Flowers Of Guatemala”, “Begin The Begin”, “What If We Go Away” e “Swan Swan H” são os pontos altos, junto com “Fall On Me”, nossa preferida de toda a carreira do grupo.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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