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O rock moderno e vibrante do Yard Act

 

 

 

 

Yard Act – You’re Gonna Need A Little Music
42′, 11 faixas
(Island)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

Outro dia conversava com meus amigos Maísa Carvalho e Erick Miranda, o Casal Distorção, sobre o Dia Mundial do Rock. A gente, como fãs de rock, acha que essa comemoração, eminentemente brasileira, é típica de uma cultura que não entende que o estilo evoluiu com o tempo. O que se celebra por aqui é o rock clássico, no máximo o rock dos anos 1990 em sua forma mais comercial e diluída, sempre com a ideia de que “rock bom é este rock”. Uma estupidez que nos irrita, não só pelo raciocínio curto, mas pela ignorância sobre o que acontece com o rock todo dia. Temos uma avalanche de lançamentos sucessivos o ano todo, de várias bandas e artistas, alternativos, novos, velhos, apontando novas direções e interpretações para o que se convencionou chamar de “rock” ao longo do tempo. Sendo assim, quando surge um disco como “You’re Gonna Need A Little Music”, dos ingleses do Yard Act, eu fico imaginando o tanto de maravilha que haveria em aproveitar uma data dessas para revelar novas bandas, novas possibilidades para o público. Mas, a realidade é bem diferente – quantas pessoas que se assumem como “ouvintes de rock” conhecem o trabalho do quarteto de Leeds? Exato, poucos, pouquíssimos, quase ninguém. No entanto, se depender da gente, seguiremos falando e apresentando essa galera, que vem levando o rock adiante. E este álbum do Yard Act é absolutamente sensacional.

 

O Yard Act iniciou sua carreira em 2019 e este é seu terceiro trabalho. Os anteriores, “The Overload” (2022) e “Where’s My Utopia?” (2024), eram mais crus, especialmente o primeiro, que aproximava a sonoridade pós-punk primordial da banda a uma abordagem quase dançante, no sentido Talking Heads do termo. No segundo disco, o grupo seguiu dando espaço para este elemento dançante, mas de um jeito mais, digamos, próximo do terreno da new-disco do início dos anos 2000, especialmente de bandas como The Rapture. Desse álbum, a gente gostou bastante de “We Make Hits” e “Dream Job”, especialmente desta última. Em “You’re Gonna Need A Little Music”, no entanto, essa afinidade com a dança ficou meio de lado, mas estamos bem longe da reclamação. Formado por James Smith, Ryan Needham, Sam Shipstone e Jay Russell, o Yard Act abriu sua paleta sonora para vários elementos novos, incorporou a produção de Justin Meldal-Johnsen, que já pilotou estúdios para gente como Beck e Nine Inch Nails, e se saiu com um trabalho cheio de detalhes bacanas.

 

Essa colaboração com Meldal-Johnsen levou a banda para gravar em Los Angeles. Boa parte do álbum foi feita por lá, com os integrantes do Yard Act trabalhando numa dinâmica inédita para eles. Dá pra perceber o quanto isso fez bem para as canções. Chama a atenção logo o início da segunda faixa, “New Beginnings”, que tem algo de “Loser”, hit do Beck, mas com uma abordagem mais focada numa ambiência rock, sem perder, no entanto, algo subliminar de funk ou hip hop nas sutilezas. A partir daí, o ouvinte já está brincando de gato e rato atrás das influências e detalhes. “Tall Tales” tem início que parece preguiçoso e próximo de uma latinidade torta, mas que é logo engolfada pelas guitarras cortantes e pelos vocais enlouquecidos de James Smith, que oscila entre um desses pregadores com placa escrita “O fim está próximo” e um sujeito oprimido pela rapidez cotidiana impossível de se acompanhar. A faixa-título lembra um pouco do amor pela dança dos álbuns anteriores, mas de um jeito bem diferente. Um piano conduz a melodia e a letra fala sobre andanças na Bay Area, em San Francisco, algo bem novo em termos de Yard Act, mas não menos sensacional.

 

A partir de “Cherophobe Rock”, a banda entabula uma sequência simplesmente matadora. Essa faixa vai em alta velocidade, com guitarras crocantes em disparada, vocais saturados e jeitão de que estamos na virada dos anos 1970/80. “Thrill Of The Chase”, por sua vez, parece uma versão “orgânica” de uma faixa do Prodigy modelo 1997, um baita elogio. A bateria vai em ritmo elíptico, os vocais vêm e vão, a melodia é louca, ideal para pular por aí. Quando você pensa que o disco entrará num modo previsível, “Janey Said” vem com sua melodia pop cinematográfica contrastando com vocais declamados e letra apocalíptica em nível pessoal, mostrando o quanto o Yard Act é capaz de surpreender. Já a ótima “Redeemer” é outra faixa genial que parece algo feito por Beck nos anos 1990, só que com um vocal mais ensandecido, cortesia de Smith novamente. “Talky Talky People” é outro aceno a algo mais convencional, mas, no sentido que Lou Reed poderia soar convencional na superfície de algumas de suas canções. Ou seja, há muito sob o belo andamento de guitarras e da melodia fofa. Fechando o trabalho, “Over The Barrel” também usa um piano safadinho para conduzir outra melodia acessível pervertida por guitarras, vocais e baixo estalado bem longe do comum.

 

“You’re Gonna Need A Litte Music” é desses discos que entram sem pedir licença entre os melhores de um ano, provam a excelência do artista e abrem espaço para uma merecida fama em nível mundial. A gente fica na torcida e recomendando desde já – ouçam, amem, passem adiante.

 

Ouça primeiro: “New Beginnings”, “Tall Tales”, “You’re Gonna Need A Little Music”, “Cherophobe Rock”, “Thrill Of The Chase”, “Janey Said”, “Talky Talky People”, “Redeemer”, “Over The Barrel”.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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