Não deixe de ver o sensacional “Toy Story 5”

Confesso que, quando os primeiros rumores sobre “Toy Story 5” começaram a circular, minha reação foi de um ceticismo absoluto. Para mim, a franquia tinha chegado a um desfecho impecável no terceiro filme, com aquela despedida na qual Andy, a caminho da faculdade, deixa seus brinquedos para trás e se permite uma última brincadeira — um momento que, pela sua perfeição poética, me levou a decidir que não acompanharia mais nenhuma continuação. A história parecia encerrada, e qualquer novo capítulo corria o risco de desmerecer aquele adeus tão memorável. Tanto que ainda não vi o quarto filme, lançado em 2019. No entanto, movido pela curiosidade, decidi assistir a este quinto filme e, felizmente, fui surpreendido. Os roteiristas foram capazes de realizar algo que eu julgava improvável: renovaram a mensagem da franquia e elevaram o debate sobre a infância na sociedade contemporânea. Agora vou ter que ver o quarto longa.
Sob a direção firme de Andrew Stanton, “Toy Story 5” tem uma profundidade narrativa que justifica o seu retorno. Stanton não é um novato nesta seara; ele é um dos pilares da Pixar, tendo sido o roteirista de todos os filmes da franquia e o diretor de obras-primas como “Procurando Nemo” e “WALL-E”, uma das maiores criações da Pixar. Sua habilidade em equilibrar o humor com dilemas existenciais complexos é, mais uma vez, o que mantém a engrenagem funcionando com precisão. O filme evita a armadilha de demonizar a tecnologia e, em vez disso, propõe uma reflexão necessária sobre a coexistência entre o digital e o físico, defendendo que há espaço para ambos, desde que o essencial seja preservado.
O ponto central da narrativa é uma crítica lúcida à forma como a infância tem sido encurtada nos últimos tempos. “Toy Story 5” questiona a “adultização” precoce de crianças submetidas a um ritmo acelerado de estímulos digitais que, muitas vezes, priva-as do tempo necessário para o desenvolvimento da criatividade e da capacidade de sonhar. A obra resgata a ideia de que brincar com um objeto físico — um exercício de imaginação que exige que a criança projete narrativas e crie cenários por conta própria — é um passo fundamental para o desenvolvimento social e pessoal, algo que interfaces digitais puramente passivas podem acabar suprimindo.
Nesse contexto, vale uma menção honrosa aos novos personagens que o filme introduz, equilibrando inovação e nostalgia. Destaco, especialmente, o sensacional “Amigo Rolinho”, um brinquedo que personifica a tese do longa, sendo nada mais, nada menos que um … amigo para a hora da criança ir ao banheiro. Com um design que funde o minimalismo da robótica contemporânea com o charme dos clássicos brinquedos de corda, ele se torna o exemplo perfeito da harmonia entre o antigo e o novo. O “Amigo Rolinho” é tecnológico, mas carrega uma “alma” vintage, incentivando a criança ao movimento e à interação tátil, provando que a engenharia moderna pode, sim, servir à magia da brincadeira. Dá pra dizer que ele quase rouba o filme. Só não o faz por conta da sensacional intervenção de um batalhão extraviado de Buzz Lightyears, que sai em busca do Comando Estelar e acaba se inserindo na trama central.
Ao final da sessão, saí com a convicção de que a franquia não apenas se justificou, mas tornou-se relevante para os desafios atuais. O roteiro não busca apenas o apelo comercial; ele defende o direito fundamental da criança de vivenciar seu tempo de forma plena, sem ser forçada a um amadurecimento apressado e esvaziado de sentido. Ao ver o Woody e seus companheiros dialogando com essas novas realidades, compreendi que, enquanto houver espaço para a imaginação — seja ela mediada por plástico ou por circuitos digitais —, haverá esperança. É, sem dúvida, uma obra que reafirma o valor do brincar em um mundo que, frequentemente, tenta nos fazer crescer antes da hora.
Em tempo: vi na versão dublada e está sensacional.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
