26 anos depois: O que “Superunknown” tem a dizer?

 

 

 

A história do Soundgarden está intimamente ligada ao surgimento do som de Seattle dos anos 80 e 90. Isso porque foi o guitarrista da banda, Kim Thayil, que apresentaria Bruce Pavitt a Jonathan Poneman – os dois nomes que criariam, mais tarde, o selo Sub Pop Records. Também seria o Soundgarden a primeira banda da região a assinar com a gravadora, cuja chegada foi essencial para a cena musical que se criaria a partir daquela época.

 

O que a Sun Records foi para o rock’n’roll dos anos 50 em Memphis, a Sub Pop foi para o rock alternativo que nasceria em Seattle a partir dos últimos anos da década de 80. Selo independente que lançou uma série de bandas, desde faixas do Sonic Youth até o visceral e espontâneo primeiro disco do Nirvana (“Bleach”,1989), a Sub Pop teve um papel decisivo na formação sonora da música na cidade mais populosa de Washington – cena que viria, mais tarde, revolucionar a cultura musical em nível global. A gravadora, na direção de Pavitt e Poneman, nasceu em 1986, mas em 1984, dois anos antes da sua criação, o Soundgarden já se formava.

 

Se o Soundgarden é, historicamente, uma banda reconhecida como precursora do rock alternativo dessa época, não por acaso o grupo também reafirmaria uma reputação distinta com o lançamento do seu quarto e inovador disco de estúdio, “Superunknown”, em 8 de março de 1994. E seria também com “Superunknown” que a banda atingiria o sucesso mundial.

 

O fantástico lançamento anterior do grupo em 1991, “Badmotorfinger”, já havia preparado território fértil para o sucesso. Isso porque o terceiro disco do Soundgarden rendeu uma grande audiência na MTV – com os singles “Rusty Cage” e “Outshined” -, uma indicação para um Grammy na categoria de Melhor Performance de Metal e um certificado como dupla platina, contabilizando 2 milhões de vendas nos Estados Unidos.

 

No ano de 1994, bandas de Seattle como o Pearl Jam e o Nirvana já haviam atingido o mainstream. Muito se pergunta sobre o motivo do Soundgarden ter alcançado uma tardia visibilidade mundial em comparação às suas companheiras. Notoriamente, questões relacionadas com o gerenciamento das bandas influenciaram na guinada para o sucesso, mas o Soundgarden tinha, ainda, algo distinto: a sonoridade das canções do grupo, ao mesmo tempo que são genuinamente underground, navegavam entre inúmeros gêneros, do heavy metal ao sempre tão falado grunge, o que fazia ser a banda dotada de uma linguagem musical um pouco mais complexa de se assimilar.

 

Julho de 1993. Era verão em Seattle e os dias ensolarados eram raridade. Quando o Soundgarden começou os trabalhos de “Superunknown” no Bad Animals Studios, a banda já tinha praticamente todas as canções prontas, sendo desnecessário que fizesse jams para ajustá-las. Matt Cameron, que viria a ser baterista do Pearl Jam, fez as vezes na bateria e percussão para os colegas do Soundgarden. Apesar de estarem confortáveis com a reputação da banda e determinados em fazer um som à altura do sucesso mundial que começavam a trilhar em razão da visibilidade de “Badmotorfinger”, o Soundgarden ainda não sabia que “Superunknown” seria o responsável por colocar a banda, dez anos após a sua formação, no mainstream do rock’n’roll e no pódio de ganhadora de dois Grammys.

 

Dentre tantas razões especiais a serem ditas, “Superunknown” traria mais experimentação, novos elementos e muito mais do que um som pesado feito até então pela banda. O quarto disco nos conduz a um forte chamado emocional, principalmente pela influência do vocalista Chris Cornell nas composições. Sentimentos como raiva, angústia, isolamento, rancor e ressentimento seriam os principais temas das letras. A criatividade dos membros da banda borbulhava, e disso nasceria o álbum que marcaria a passagem do Soundgarden do metal para o que podemos simplesmente chamar de puro rock.

 

Para isso, o Soundgarden trabalhou com o produtor Michael Beinhorn, conhecido pelas suas contribuições com Red Hot Chilli Peppers e até mesmo com Herbie Hancock. A gravadora tinha verdadeiros interesses de que o disco, de fato, vingasse. Determinado, Beinhorn tinha clareza da sua importância na produção de um álbum que sucederia o intenso “Badmotorfinger”, e soube conduzir o trabalho com a banda de maneira comprometida, ainda que isso custasse uma certa pressão e estresse entre o grupo.  Nesse pensamento, o produtor trouxe para o estúdio inúmeros equipamentos, de kits de bateria a microfones; os dias de gravação se estenderiam até setembro daquele ano e seriam carregados de muito esforço.

 

Se antes as composições se concentravam em Kim Thayil e Hiro Yamamoto, agora, Chris Cornell e Ben Shepherd colocariam mais as suas impressões no novo trabalho. Chris traria, por exemplo, as suas influências de Beatles, Led Zeppelin e Syd Barrett. O apelo emocional proposto por Cornell nas novas composições seria uma consequência do tempo em que ele e os membros do Pearl Jam (Stone Gossard, Jeff Ament, Mike McCready, Matt Cameron e Eddie Vedder) formaram o Temple Of The Dog, banda que lançou um único disco homônimo, em 1991, em tributo a Andrew Wood, grande amigo de Chris Cornell e Jeff Ament. Andrew foi vocalista da Mother Love Bone, grupo festejado na cena musical de Seattle naquela época, e faleceu em virtude de um aneurisma causado pelo consumo excessivo de drogas.

 

“Superunknown” já se mostra diferente de outros discos das bandas de Seattle porque conta com nada menos que 16 faixas. A explicação de um álbum longo reside no fato de que a banda não quis cortar nada. O Soundgarden era bastante unido. Dos discos do grupo, “Superunknown” é daqueles que se vê clareza na personalidade individual de cada membro, o que nos leva a crer no resultado de um álbum muito interessante e variado.

 

As canções de “Superunknown” nos dizem que está ali um Soundgarden com novas facetas. Quebra de ritmos, psicodelia, riffs intensos e muita criatividade em termos de execução. Além disso, há no quarto disco algo de muito especial: a impressão de que Chris Cornell encontrou, verdadeiramente, a sua voz. Chris não teve medo de colocar a sua influência de Led Zeppelin no canto, e gritava, muitas vezes, como Robert Plant fazia. É bem sabido que Chris Cornell era dono de uma das maiores vozes da música, e Beinhorn falou à Billboard, em 1994, sobre como eram impressionantes as gravações do vocalista, dizendo que, com suas palavras, “quando Chris canta alto, ele tende a cantar mais alto do que qualquer coisa nesta Terra”. Para que as gravações captassem com êxito os vocais de Chris Cornell, foram necessários variados tipos de microfones, fato inédito até mesmo pro experiente produtor Michael Beinhorn.

 

O disco rendeu cinco singles à banda: “The Day I Tried to Live”, “My Wave”, “Fell on Black Days”, “Spoonman” e “Black Hole Sun”. Destes, “Spoonman” ganhou o Grammy de Melhor Performance de Metal e “Black Hole Sun” o Grammy de Melhor Performance de Hard Rock.

 

E em “Spoonman” está uma das histórias mais legais sobre uma música do Soundgarden. O título “Spoonman” foi creditado a Jeff Ament, do Pearl Jam. Jeff foi o responsável por criar os títulos de uma fita usada pela banda fictícia, a Citizen Dick, no filme “Singles” (1992), dirigido por Cameron Crowe. O filme de Cameron Crowe se passa na cidade de Seattle e traz referências sobre o movimento musical que acontecia por lá nos anos 90. Jeff Ament e Chris Cornell estiveram nos bastidores com Crowe, pois contribuíram para a produção e a trilha sonora do filme. O nome “Spoonman” foi inspirado em um sujeito de Seattle que Jeff e Chris conheciam, costumeiramente chamado de Artis The Spoonman. Artis era um artista de rua na cidade, que usava colheres como instrumentos musicais em suas performances. Chris, fascinado pelo jeito simples e autêntico que Artis se apresentava, compôs a canção e convidou Artis a tocar na gravação da música e aparecer no videoclipe. “Spoonman” foi parar quase que despretensiosamente em “Superunknown” e se tornou um dos maiores sucessos da banda, que foi tocado até o final de suas apresentações.

 

“Superunknown” varia, sem a menor timidez, entre tristeza e socos no estômago. “Let Me Drown”, que lembra Black Sabbath, é sobre voltar no tempo e morrer; “Fell on Black Days”, sobre perceber-se infeliz; “Limo Wreck” diz sobre vergonha e decadência; “The Day I Tried To Live”, sobre tentar se abrir para o mundo e, ainda assim, falhar. Dizia Cornell que “4th Of July” era sobre LSD e que “Mailman” era o mais próximo da ideia de matar o seu chefe.

 

“Black Hole Sun”, a canção que se tornou o maior sucesso da banda e a mais tocada nas rádios e nas plataformas de streaming até os dias atuais, soa como uma “Lucy In The Sky With Diamonds”. Chris Cornell criou ”Black Hole Sun” em uma noite enquanto dirigia do estúdio para casa, durante um trajeto de aproximadamente 40 minutos. No carro, além dos Beatles, lembrou também da psicodelia de Syd Barrett, e a canção nasceu naturalmente. A faixa de maior sucesso do Soundgarden é surreal e transcendental. No primeiro momento, “Black Hole Sun” não foi muito bem recebida pelos integrantes. Mas, para a surpresa de todos, lírica e com uma linda melodia, a música caiu nas graças do público.

 

Com “She Likes Surprises” entramos novamente na onda psicodélica, com os vocais de Chris e a guitarra de Kim que lembram, novamente, os Beatles em “Rubber Soul” ou “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. “Kickstand”, a primeira música que a banda gravou, é uma das canções com uma das motivações mais singelas: passeios de bicicleta. Chris Cornell e Jeff Ament sempre foram muito amigos em Seattle e os dois, frequentemente, passeavam de bicicleta pelas montanhas e parques da cidade. Em meio a esses passeios, estavam lembranças de Andy Wood. A morte de Wood foi, para Cornell e Ament, um marco significativo – perder o amigo fez com que ambos reconsiderassem pensamentos sobre a vida e isso, de certa forma, criou o Temple Of The Dog, levando, também, à criação do Pearl Jam, já que Eddie Vedder conheceria seus futuros parceiros de banda somente na gravação do disco único do Temple Of The Dog.

 

“My Wave” é uma das canções mais pops da banda; “Superunknown”, homônima ao disco, é uma faixa envolvente com riffs incríveis; em “Head Down” novamente há Beatles e uma linda levada de bateria; “Fresh Tendrills”, a preferida de Shepherd, é simplesmente uma ótima canção de puro rock’n’roll; “Like Suicide”, uma canção escrita por Cornell depois do vocalista ter matado um pássaro que agonizava por ter se chocado com o vidro da janela.

 

A capa marcante de “Superunknown”, chamada de “Screaming Elf”, foi, como disse o próprio fotógrafo, “um acidente glorioso”. Registrada por Kevin Westenberg, a fotografia distorcendo os rostos dos membros em tons de laranja foi um momento quase que despretensioso. Westenberg dizia que com o Soundgarden quase não havia planos, apenas confiança e uma dose de nervosismo. Assim, registou uma das capas que fazem um casamento perfeito com o conjunto musical do disco de maior sucesso da banda.

 

 

O Soundgarden só teria completa noção da grandiosidade de “Superunknown” após o disco mixado. Durante as gravações, passaram por pelo estúdio Josh Homme (que arriscou passar um tempo com a banda jogando ping pong), Adam Kasper, Nirvana e até mesmo Johnny Cash (que gravava naquele momento um tributo a Willie Nelson). As lembranças dos meses no Bad Animals Studios eram variadas: desde Chris Cornell e seus companheiros impressionados com os gráficos do jogo Doom para Playstation 1, até os momentos de pressão entre a produção e a banda em fazer um trabalho que superasse o disco anterior.

 

Assim, “Superunknown” superou as expectativas do Soundgarden e, definitivamente, as nossas. Chris Cornell, naquela época, falara à Rolling Stone que a banda gostaria de ser reconhecida como algo maior do que um grupo de Seattle. E eles conseguiram. “Superunknown” é como uma trilha sonora que varia entre gêneros e conquista diversos ouvintes. É um disco orgânico que, mesmo após 26 anos de seu lançamento, se sustenta como novo e fresco.

 

Fascinante, intenso e emocionante; desesperador, misterioso e sombrio; agressivo, versátil e depressivo, “Superunknown” vai do lírico ao seco. As afinações e experimentações na guitarra também nos levam a variadas sensações. Os arranjos criativos podem nos fazer torcer nossos narizes, mas nos proporcionam uma experiência musical desafiadora. Inevitavelmente, o disco chegou ao número 1 do ranking da Billboard 200, vendendo 310 mil cópias na sua semana de estreia. Foi, também, certificado como platina por cinco vezes e, até hoje, vendeu 9 milhões de cópias no mundo todo, atingindo o patamar do disco de maior sucesso comercial do grupo e um ideal platônico a ser seguindo por outras bandas da cena underground.

 

“Superunknown” foi lançado em 8 de março de 1994, exatamente uma semana após o Nirvana fazer o seu último show em Munique. Voltando à questão colocada no começo de tudo: por que o Soundgarden demorou para decolar internacionalmente? Nessa altura do raciocínio, eu ouso responder: não demorou. O Soundgarden ascendeu na hora certa, com um sólido álbum que, até hoje, é extremamente atual e muito mais do que um disco da Seattle dos anos 90. Esqueça os gêneros e os rótulos, “Superunknown” conseguiu captar o zeitgeist e o futuro, se consagrando pura e simplesmente como um grande disco de rock’n’roll.

10+

Maisa Carvalho

Maísa Carvalho é piauiense com toques paulistas, estuda Direito, é curiosa com as coisas do mundo, amante das artes humanas e apaixonada por música.

2 thoughts on “26 anos depois: O que “Superunknown” tem a dizer?

  • 5 de junho de 2020 em 18:28
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    Texto à altura do que foi e continua a ser “Superunkown”, encontro emblemático de vários gêneros “de peso” na sonoridade e consistência nas letras. Discoteca básica!

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  • 4 de junho de 2020 em 16:52
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    Uma resenhaa espetacular para um disco perfeito!Amo esse disco!Me lembra uma época especial de vida!!!Parabéns!!

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