“Watchmen” na TV: episódio de estreia é arrebatador

 

Já passava da meia-noite quando a última – e perturbadora – sequência do primeiro episódio de “Watchmen” foi exibida pela HBO. Foi a estreia mundial da série de Damon Lindelof (Lost, Leftovers), inspirada nos clássicos quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons e, a julgar pelo resultado, a série pode ter vida própria e conseguir o respeito dos fãs da história. Digo isso porque, com “Watchmen” não se brinca. O filme de 2009, dirigido por Zach Snyder, era bom mas deixou um gosto estranho na boca, muito porque a mitologia e a própria HQ sejam muito complexos para outro meio que não seja a literatura, mas, talvez Lindelof tenha encontrado um … atalho para torná-la viável.

 

E foi um atalho simples. A história da série de TV se passa em 2019, ou seja, trinta e tantos anos depois dos quadrinhos. E isso dá liberdade para que se criem novos personagens, mesmo que seja sob o peso dos fatos históricos transcorridos entre os meados dos anos 1980 – quando se passa a ação original – e o “presente”. As aspas estão aí porque, caso você ainda não saiba, “Watchmen” existe numa realidade alternativa à nossa. Claro, quando Moore a escreveu, ele pensava exatamente nos dilemas morais, na maldade e nas contradições do nosso próprio mundo, daí ter um país que “defende a liberdade” usando mão de ferro na Guerra do Vietnã (no caso, a ação de alguns Watchmen sobre o país asiático) para vencê-la e perpetuar o governo de Richard Nixon por décadas, entre outras coisas. O fato é que “Watchmen” é sobre vigilantes – heróis – que não são necessariamente bonzinhos – pelo contrário – e o efeito que suas ações têm na sociedade e na vida das pessoas, em diversos planos.

 

Esta década de 1970/80 alternativa é o passado da série de TV. Sendo assim, o mundo vive um 2019 em que o Vietnã é, de fato, um estado americano, algo que os quadrinhos já mostravam. E os Estados Unidos tem em Robert Redford – sim, o ator – o seu presidente desde o fim dos anos 1980. Seu governo é uma tentativa de reparação aos danos causados por tantos anos de Nixon. Ele implementa medidas de compensação a minorias e desagrada os conservadores, especialmente os supremacistas, que se organizam em milícias e empreendem ações contra a ordem estabelecida. A mais organizada e letal parece ser a 7th Kavalry, que usa máscaras inspiradas no anti-herói Roscharch, defendendo a volta da ordem social anterior, uma espécie de Ku Klux Klan moderna, anabolizada e letal, responsável por algo ocorrido no passado recente, a “Noite Branca”, um massacre de policiais, que obrigou os defensores da lei a usarem…máscaras, para não serem reconhecidos.

 

Todas essas informações vão sendo dadas ao espectador nos primeiros dez, quinze minutos do episódio e vão emparelhando com as dos quadrinhos, dando sentido à trama. A partir daí, temos a entrada em cena dos vigilantes, que atuam em sincronia com a polícia de Tulsa, Oklahoma, onde a série parece transcorrer. Temos Sister Night, Red, Panda e mais alguns mascarados, que, num universo de policiais mascarados, mostram o quanto a sociedade americana vive uma época difícil. O chefe de polícia Judd (vivido por Don Johnson, veterano de Miami Vice) não pode usar seu uniforme em público e lidera as ações contra a tal 7th Cavalry. Regina King vive Sister Night, na verdade, o alter-ego de Angela Abar, nascida no tal estado americano do Vietnã, mãe de dois filhos. Os outros heróis ainda não foram abordados, mas a vida dela tem relação com os eventos mostrados logo na abertura do episódio, ocorridos em 1921, num ataque de brancos a um bairro negro, na mesma Tulsa.

 

Os heróis deste Watchmen não parecem ter poderes extravagantes. Claro que ainda estamos na expectativa de ver os justiceiros originais – Ozymandias, Nite Owl, Silk Spectre e, especialmente, Doutor Manhattan – surgirem nesta trama, muito porque eles têm papel decisivo no estabelecimento dos fatos transcorridos. O que dá real sentido à série é a forma como Lindelof parece ter encadeado os eventos ficcionais com a realidade mundial de 2019, na qual o conservadorismo, o preconceito e a violência dão a tônica. Misturar este clima real da América de trump com a realidade imaginada por Moore e Gibbons parece ser o pulo do gato para que esta versão televisiva cumpra seu papel, conquiste novos e velhos fãs para a série e dê uma nova – e duradoura – sobrevida para o original.

 

Procurei escrever este texto com o mínimo de spoilers, levando em conta que o fã de Watchmen já estava grudado na TV ontem, na hora da exibição ou que já conseguiu baixar o torrent do episódio. Desde já uma das séries de 2019 a serem obrigatoriamente vistas.

PS: Lindeloff conseguiu escrever algo que é muito Watchmen e que não precisa obrigatoriamente de conhecimento prévio da história. Claro que isso ajuda e amplia a sensação de prazer ao assistir, mas não é algo indispensável. Logo, você, que nunca ouviu falar nos personagens e tudo mais, pode ver, sim.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em ““Watchmen” na TV: episódio de estreia é arrebatador

  • 23 de outubro de 2019 em 16:51
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    Nunca li, mas o vi o filme, que mal lembro. Recordo sim do interessante “presente alternativo”. Mas gostei do clima da série e das abordagens sociais. Fui conferi porque era vidrado em Leftovers e adorei rever o impagável Don Johnson.
    Não percebi nenhum spoiler, considerei elucidações para que a coisa faça sentido para quem não conhece.

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