Tijuca, início dos 1990’s

 

 

Fiz uma playlist no Spotify com este título aí em cima. A ideia era recuperar um pouco da música que invadiu as rádios FM naquele tempo, coincidindo com o início da MTV Brasil. E, numa segunda esfera de sincronicidade, com uma nova fase da minha vida. Olhando hoje, tudo parecia – e era – mais fácil. É bom lembrar que este “início dos anos 1990’s” se refere a um recorte que varia de 1989 a 1994, com fronteiras borradas e pouco nítidas. Tem a ver com meus primeiros empregos, idas e vindas a lojas de disco que não mais existem, uma namorada muito querida que morava na Rua Guapeni, próxima à Praça Saens Peña (na Tijuca, claro) e minha entrada na Uerj e a chegada de um monte de amigos queridos na minha vida. Tudo está encapsulado nestas 252 músicas, número impreciso, que tende a crescer à medida que eu me lembrar de tudo.

 

As músicas da lista trazem artistas que variam de Scatman John a Legião Urbana, passando por INXS, Roxette, Kon Kan, Engenheiros do Hawai, Biquini Cavadão, entre muitas outras bandas, cantores, cantoras e gente que sumiu na poeira das ruas – como diria Paulinho da Viola. É bom que fique claro: neste tempo, com idade variando entre 19 e 23 anos, não tinha o mesmo gosto que tenho hoje. Uma das boas coisas de envelhecer é perceber detalhes e patamares, que só a calibragem da vida pode dar. Porém, se o passar dos anos traz isso, nos faz perder o viço e a sensação de não ter qualquer culpa de ouvir “Cinema”, do Ice MC, achando que é absolutamente sensacional. Para isso existe uma invenção: a memória afetiva. Ou seja, neste canal específico, posso – e devo – ouvir o que eu quiser, sem me preocupar com parâmetros e conceitos. Dane-se todo mundo.

 

Pois bem. Essas músicas sonorizaram meu primeiro emprego, o de estagiário numa agência da Caixa Econômica Federal, que ficava a poucos passos de casa, em Copacabana. Fiquei lá um ano e meio, sendo chutado dali por conta do então presidente collor, que resolveu acabar com os marajás. Em vez de cortar salários altos, o desgraçado cortou o ano seguinte do meu estágio, me obrigando a deixar aquele lugar tão querido, no qual – pasme – cheguei a jogar bola no saguão principal. Dali fui para um estágio no departamento jurídico de uma concessionária de veículos, que ficava no bairro do Estácio. Era o início da minha saída da Zona Sul, movimento necessário se você quiser ver como é a vida de verdade. Muita gente fica lá para sempre, o que é péssimo. Com esta ida diária para o Estácio e o consequente vai e vêm para o Centro do Rio, por conta das tarefas exigidas, peguei desenvoltura para andar em qualquer lugar. Do estágio, além da amizade e admiração pela minha chefe, Ellis, veio minha namorada tijucana, irmã dela, Ellen.

 

A ida para a Tijuca era a coroação desta minha incursão por novos mundos. Desde o primeiro beijo deste namoro, numa saída de sessão de “O Exterminador do Futuro 2”, no extinto Art Tijuca, até o fim, em algum ponto de 1993, meu relacionamento foi bom e me proporcionava ouvir música em muitos lugares. A Tijuca parecia uma Copacabana sem praia e era um lugar musical nesta época. Cheia de cinemas, lanchonetes, Lojas Americanas, Sub Som, Video Game Center, Gabriela, todas nas imediações da Praça Saens Peña. Ainda havia a Berinjela e a Gramophone, no Centro do Rio, todas participantes de um circuito de peregrinação quase diário  – que ainda incluía o mercado aberto da Rua Pedro Lessa, na Cinelândia, no qual, um dia, eu comprei um exemplar de “Modern Life Is Rubbish”, do Blur, com … vales-refeição.  O lugar mais musical, no entanto, era o playground do prédio da minha namorada, no qual eu a esperava e, enquanto ela não descia, ouvia vários sons vindo dos apartamentos nas imediações. Eram canções pop, dançantes, eletrônicas, tipo “Oops Up”, do Snap; “This Beat Is Hot”, do BG The Prince Of Rap; “Breakaway”, na versão remix, de Donna Summer ou mesmo “Good Vibrations” de Marky Mark And The Funky Bunch, que era o grupo do ator Mark Wahlberg, irmão de Donny, que fazia parte dos … New Kids On The Block.

 

Além delas, havia o rock nacional daquele tempo. Paralamas com “Big Bang”, “Os Grãos” e “Severino”; Legião com “Quatro Estações’, “V” e “Descobrimento do Brasil”; Engenheiros do Hawai com “O Papa é Pop” e “Várias Variáveis”, Biquini Cavadão com “Descivilização”, Barão Vermelho com “Na Calada da Noite” e Ira, com “Clandestino”, além de efemérides como Nenhum de Nós e Inimigos do Rei, todos à plena força nas rádios, que ainda tinham suas paradas de mais pedidos pelo … telefone diariamente. Eu já não ouvia tanto rádio em casa nessa época, mas era inevitável passar batido por essas músicas e discos.

 

E quando chegou a MTV Brasil, no meio disso tudo, vieram novos e novíssimos artistas, de Deee Lite, MC Hammer, Vanilla Ice e Soup Dragons a INXS e Jon Bon Jovi com a trilha sonora de “Jovens Pistoleiros 2”, materializada na clássica “Blaze Of Glory” ou “Silent Lucidity”, dos americanos Queensryche, sem falar em Extreme, com “More Than Words” e “Everything I Do (I Do It For You”, de Bryan Adams, que fazia parte da trilha sonora de uma versão legalzinha de “Robin Hood”, com Kevin Costner e Morgan Freeman, que fez menos sucesso que a balada. A gente passava pela Lojas Americanas da Saens Peña e saía na Affonso Pena, passando por dentro da loja. Nos refrescávamos do calor entrando na C&A e pegando uma carona de seu ar condicionado polar. E comíamos pizza de atum na Pizzaria Pinóquio e sorvete no Molinaro.

 

Depois teve a Uerj e toda uma lista maravilhosa de músicas que iam de “Looking At My Girl”, do Double You, que era tema do meu sumido amigo Vicente a “Violence Of Summer”, do Duran Duran, que Luciano, o maior fã de New Order deste planeta, repetia como bordão e que foi adotado por todos nós. Tinha meu amigo Léo com Banda Bel; tinha meu amigo Bené com The Sundays, tinha Chrisna com Raul Seixas. Tinha Anderson. Tinha Vicente. Tinha Tim Maia sonorizando o beijo de uma menina que eu achava gatíssima em outro cara, bem diante dos meus olhos. Tinha música em toda parte, meus amigos.

 

Esta playlist é uma tentativa esforçada e bem intencionada de trazer isso de volta. Música é uma experiência coletiva, compartilhada, significada e ressignificada. Se você estava por aí neste tempo, pegue estas canções, substitua o referencial geográfico e caia dentro.

 

Dedicado a Ricardo Benevides, Leonardo Salomão, Ellis Jussara, Ellen Jumara, Anderson Vimercati, Vicente Magno, Luciano Lanzilotti, Vivi Queridos, Cristian Klein e Chrisna Bittencourt

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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