The Cure – Remixado e Desintegrado em 1989/90

 

Uma das cenas mais bonitas que vi recentemente no cinema pertence ao filme “Desobediência”. É um drama sobre duas mulheres que são apaixonadas desde a adolescência mas que precisam conter impulsos e sentimentos, que são totalmente recíprocos. Na cena, as protagonistas, Rachel McAdams e Rachel Weisz, duas inglesas de ascendência judaica, estão visitando a casa que era do pai de Weisz, o rabino da comunidade, recém-falecido. Lá, olhando os pertences deixados pra trás, uma delas liga o velho rádio que está sobre a lareira. A canção que sai pelo alto-falante do aparelho é “Lovesong”, do The Cure. Ambas se olham, mas, muito mais intensamente, olham pra dentro de si, percebendo/evitando as memórias que a canção lhes traz sem qualquer cerimônia. Não há diálogo, quem fala é
Robert Smith e seus versos:

Whenever I’m alone with you
You make me feel like I am home again
Whenever I’m alone with you
You make me feel like I am whole again

Sinceramente, é uma cacetada.

A canção faz parte do laureado álbum de 1989, “Disintegration”. oitavo disco de material inédito da banda. Talvez o Cure seja a formação mais importante do pós-punk inglês oitentista, como diz o site All Music Guide, é a NAU CAPITÂNIA do estilo. E não é nenhum exagero dizer isso, porque o grupo soube compreender como nenhum outro de seu tempo a importância do pop no rock. Outra formação que entendeu isso, mas com alguns anos de atraso, foi o U2, lá pelo início dos anos 1990. Robert Smith e seus amigos já sabiam disso desde 1983, quando encerraram seu período mais cinza, com a chegada de dois singles sensacionais, em sequência: “The Walk” e “The Lovecats”. Logo depois viria um disco colorido e psicodélico, “The Top”. Era a guinada da banda em direção a uma sonoridade que incorporava aos climas originais e sombrios, um tino pop que era complementar, amplificador e capaz de melhorar ainda mais a musicalidade de Smith e companhia.

Tal mudança demorou algum tempo para se confirmar e foi bastante sutil. Os discos seguintes, “The Head On The Door” (1985) e o duplo “Kiss Me Kiss Me Kiss Me” (1987) têm momentos sensacionais, todos muito próximos deste pop-pós-punk que o Cure forjou e se apropriou, deixando toda a concorrência muito atrás, seja em vendas, em público e em capacidade de sobrevivência ao teste do tempo. Canções como “In Between Days”, “Close To Me”, “Why Can’t I Be You”, “Just Like Heaven”, são marcas registradas da banda e do próprio período em que foram gravadas. Não é pouco. A história, no entanto, deu um salto de muito mais de dois anos entre 1987 e 1989. Fim do Muro de Berlim, consolidação do neoliberalismo, pré-globalização, tudo que era novo em 1987 ficou muito velho em 1989.

O próximo disco do Cure precisava trazer dois sinais: a soma de tudo que acontecera até ali, uma espécie de inventário da modernidade que a própria banda criou para si ao longo dos cinco anos anteriores e, mais que isso, precisava apontar para um futuro – que já havia chegado – em que o Cure se enxergasse como uma dessas formações do rock que são capazes de atravessar os tempos. Era um desafio e tanto, provavelmente não completamente revelado para Smith, a alma da banda e seu principal arquiteto. Por essas e outras, por esses lapsos temporais da história, é preciso enxergar este momento do Cure como marcado não por um, mas por dois discos:”Disintegration”, o álbum de inéditas e “Mixed Up”, uma coletânea de remixes, lançada em 1990. São complementares e representam a tentativa do grupo de resolver sua pendência com o passado ao mesmo tempo em que abria seu olhar para o futuro.

“Disintegration”, o disco, é um álbum pop, ainda que não pareça. Seu invólucro sombrio, até sensual em alguns momentos, mas gelado, dolorido, apaixonado em outros, é apenas uma capa estilística. O que se ouve ao longo das faixas é o mais afiado pop cureano, algo que, como já dissemos, é pessoal e intransferível. Só o Cure poderia lançar um single como “Lullaby”, com vocais sussurrados sobre uma melodia/arranjo perfeita, cheia de cordas e guitarras e tocar no rádio. E como tocou. A canção tornou-se um dos maiores êxitos da banda, mesmo com seus vocais incomuns. Outras faixas parecem seguir caminhos complicados para ocultar – numa espécie de brincadeira com o ouvinte – todo o seu garbo pop. “Pictures Of You”, o maior épico do disco, é uma das canções mais bonitas e tristes já gravadas pela banda e, apesar de seus sete minutos e meio de duração e letra tristíssima, depressiva, contemplativa. “Fascination Street” é outra faixa longa, além dos cinco minutos de duração, que faz milagres com arranjo, batida e condução. “Prayers For Rain” e “The Same Deep Water As You”, duas que não tocaram em rádios, são intensas, climáticas, com levadas hipnóticas e belos trabalhos de coras, guitarras e bateria. Épicas à sua maneira. “Lovesong”, a canção do início do texto, foi outro single do álbum, certamente é a faixa com estrutura pop mais assumida e simples.

Muita gente gosta de se referir ao disco como o momento mais sombrio do Cure. Estão enganados. Para tal, é necessário ir até o início dos anos 1980 e mergulhar em álbuns como “Seventeen Seconds” (1980), “Faith” (1981) e “Pornography” (1982), os reais momentos de tensão e desespero pós-adolescente do Cure. Como dissemos acima, depois desta fase, a banda abraçou com amor o pop e fez um som seu. Fica faltando a tal coletânea de remixes. Era o que pedia o tempo em que vivíamos, remixes, releituras, música eletrônica como catalisador criativo. Robert Smith, versátil como sempre foi, fez os remixes sozinho, no peito e na raça, mostrando razoável domínio desta linguagem, que ainda era bem recente entre artistas de rock. Não por acaso, versões de canções de “Disintegration” ocupam quase metade do álbum. Remixes bem convincentes, diga-se de passagem. A banda ainda teve tempo de se reunir em julho de 1990 e gravar uma inédita, “Never Enough”, que poderia ter feito parte do disco anterior sem qualquer
prejuízo.

Então, pleno 1989-90, enquanto a Inglaterra vivia os últimos momentos do efêmero acid rock de Stone Roses e similares, The Cure se posicionava para viver sua própria década de 1990, a bordo de um som pessoal e herdeiro direto do que conseguira anos antes. Ainda que tenha lançado um belo – e muito subestimado – disco em 1992, “Wish”, e dois álbuns ao vivo – “Show” e Paris” – em 1993/94, o grupo perdeu terreno e importância, muito mais por conta da prevalência das bandas grunge e de formações como Oasis e Blur, numa cena que ainda comportava a música eletrônica da época – que, por sua vez, era muito diferente da praticada nos anos 1980. É uma trajetória parecida com a do New Order, que se posicionou renovado no fim da década e entrou nos anos 1990 com um belo disco, “Republic”, perdendo terreno logo em seguida.

Há poucos dias a banda anunciou que fará shows para tocar todas as canções de “Disintegration”, além de ser admitida no Rock’n’Roll Hall Of Fame. São credenciais que só existem por conta da criatividade e da genialidade característicos deste fim de década. Versões de luxo de “Disintegration” e “Mixed Up”, cheias de remixes, sobras de estúdio, demos e gravações ao vivo estão disponíveis nos serviços de streaming. Vale conhecer ou redescobrir.

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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