Rocketman e Sua Trilha Sonora

 

É melhor se preparar para um dos filmes do ano: no dia 30 de maio estreia “Rocketman”, uma espécie de biografia fantasiosa autorizada do cantor inglês Elton John. O projeto tem a direção de Dexter Fletcher, que também assinou “Bohemian Rapsody”, responsável por conta a história de outra entidade britânica da música como personagem: o grupo Queen. Mais especificamente, seu vocalista, Freddie Mercury.

 

Apesar de muito eficiente e premiado, “Bohemian Rapsody” dividiu opiniões entre os fãs da banda e os próprios admiradores da música pop como objeto de assunto para o cinema. Muita gente acusou o filme de poupar o espectador das situações barra pesada pela qual o Queen passou, especialmente no que diz respeito às questões sobre orientação sexual e uso de drogas. Vá lá, é uma opção do roteiro e do diretor, que, bem ou mal, trouxe benefícios para o resultado final. Mas com “Rocketman” a coisa parece que será bem diferente do estilo linear de “Bohemian…”. Quem vive Elton é o ator inglês Taron Egerton, que ganhou fama por estrelar os filmes da série “Kingsman”.

 

Será diferente porque Fletcher se dispôs a contar a história de Elton com uma série de licenças poéticas, mergulhando nos fatos, mas construindo painéis abstratos a partir dele, como se fosse uma história recontada. Pode funcionar lindamente como pode, também, desagradar aos mesmos espectadores carentes de narrativas lineares. A verdade é que a vida de Elton, cheia de altos e baixos, além das mesmas questões sobre orientação sexual e uso de drogas, em níveis equivalentes às de Freddie Mercury, pode render uma narrativa inesquecível ou ser aviltada em nome de um resultado final chapa branca. A julgar pelos trailers, isso parece distante do que o filme trará. A gente vai falar dele aqui quando chegar a hora, fica ligado/a.

 

Por ora o que nos interessa aqui é a parte musical. O filme tem uma trilha sonora de 21 canções de Elton, que são interpretadas por Egerton. A julgar pelo resultado de “Rocket Man”, que já foi divulgada, o ator dá conta do recado. O fato é que a música do cantor e pianista inglês sempre foi majestosa, estando, em muitos momentos de sua carreira, em pé de igualdade em relação à produção de Beatles e Beach Boys. E este período – o início dos anos 1970 – é largamente abordado pelas canções escolhidas para o filme. Nada mais justo, até porque, a produção de Giles Martin – filho de George Martin e responsável pelas remasterizações recentes dos álbuns dos Beatles – promete respeitar, porém, acrescentar novas nuances às interpretações de Egerton. O que parece é que as leituras do ator não servirão apenas como objeto de curiosidade e serão descartadas com o tempo. E isso é ótimo, todo mundo sai ganhando.

 

Vamos dar uma passeada pelas canções e discos que estão na trilha sonora? Vem.

 

 

– Thank You For All Your Loving – Demo 1968, gravada pelo grupo Dukes Noblemen

Uma das primeiras composições de Elton, gravada pelo grupo Dukes Noblemen, com ele no piano e vocais de apoio. É uma canção nitidamente de inspiração soul/R&B, como muitas de sua carreira.

– Border Song

– Rock & Roll Madonna

– Your Song

– Take Me To The Pilot

 

Quatro canções do segundo disco “Elton John”, de 1970, entre elas, a impressionante “Your Song”, uma das gravações mais belas da história da música pop. A letra e a melodia, perfeitas, servem como representação da maravilhosa parceria de Elton e o letrista Bernie Taupin. Além dela, dois clássicos de sua carreira, de menor alcance: “Border Song”, com um arranjo impressionante de cordas e “Take Me To The Pilot”, outra gravação encharcada no espírito r&b. “Rock’n’Roll Madonna” também vai pela mesma trilha, tendo sido lançada em single na mesma época do disco.

 

– Amoreena

 

Outra canção mais conhecida dos fãs, “Amoreena” está no impressionante disco “Tumbleweed Conection”, também de 1970. É um disco tão belo que poderia fornecer mais canções, especialmente “Taking Old Soldiers”, uma das baladas mais perfeitas da lavra da dupla. Ainda que não seja exatamente uma balada lenta, “Amoreena” tem feeling e beleza de sobra, com o piano de Elton em primeiro plano em meio a uma das muitas melodias brilhantes que ele fazia na época, como quem coça o nariz.

 

– Tiny Dancer

 

A imagem do ônibus de “Quase Famosos” cantando “Tiny Dancer” é responsável por uma pequena reavaliação que a obra de Elton experimentou no início dos anos 2000. Não que fosse preciso, pois a canção e o disco que a contém – “Madman Across The Water”, de 1971 – são irretocáveis. É outra balada cinematográfica de Elton/Bernie, com fraseados de piano que fazem parte do inconsciente coletivo. É outro disco que poderia fornecer mais canções para a trilha, talvez “Levon”, quem sabe?

 

– Hercules

– Honky Cat

– Rocket Man

“Honky Chateau”, de 1972, é um dos grandes, imensos discos de Elton John. Gravado na França, num castelo alugado especialmente para a ocasião, o álbum contém um dos maiores clássicos da carreira de Elton, que dá nome ao filme. Uma balada arrepiante, com certo acento bowieano, glam e triste ao mesmo tempo, com temática espacial para ilustrar a vida real e menor das pessoas. Um dos marcos do pop mundial em todos os tempos. Além dela, um clássico menor, “Honky Cat”, com um dos arranjos mais legais de seu tempo, no qual podemos ver a habilidade de Elton ao piano, além de metais e uma levada que evidencia o amor dele pela música negra americana. Fechando a conta, “Hercules”, a canção que encerra o disco, um boogie à la Marc Bolan, com violões e baixo em primeiro plano e vocais mais abafados que o normal.

 

– Crocodile Rock

 

Faixa de “Don’t Shoot Me I’m The Piano Player”, lançado em 1973. É um rock clássico e linear, no qual Elton, em meio a uma progressão belíssima de piano/teclado, homenageia o nascimento do estilo, lá na virada dos anos 1950/60. É outra canção que se encaixa em seu tempo, no qual muitos artistas estavam revisando estes primeiros tempos de rock. Outro clássico de Elton, “Daniel”, também deste álbum, poderia estar na trilha, né?

 

 

– Bennie and the Jets

– Goodbye Yellow Brick Road

– Saturday Night’s Alright (For Fighting)

Três clássicos incontestáveis da carreira do homem em um de seus melhores discos em todos os tempos. Entre eles, minha favorita absoluta, “Bennie And The Jets”, que levou Elton a cantar no prestigiado programa Soul Train e ser um dos poucos branquelos a figurar na parada de Soul americana na época. A canção é uma obra de genialidade, com simulação de efeitos ao vivo, palmas fora do compasso intencionais e uma letra que também faz alusão satírica aos grandes grupos do rock. “Goodbye Yellow Brick Road” é outro colosso de canção, tão bela e universalmente conhecida, que eu já a ouvi tocar nos serviço de som da Estação do Metrô da Central do Brasil certa vez. A letra, a melodia, tudo é absolutamente irretocável. Fechando, “Saturday Night’s”, outro desses rockões de Elton, com instrumental sessentista e levada incendiária.

 

 

– Don’t Let The Sun Go Down On Me

– The Bitch Is Back (Introduction)

Duas faixas que só aparecem como citações na trilha sonora, mas que são clássicos da carreira de Elton e que pertencem a um dos discos mais queridos dos fãs, “Caribou”, de 1974. “Don’t Let The Sun Go Down On Me” talvez seja, dentre todas as baladas que Elton/Taupin compuseram, a mais bela e transcendental. Foi regravada em dueto com George Michael em 1990 e foi para o topo das paradas de sucesso em todos os cantos do Sistema Solar. “The Bitch Is Back”, faixa de abertura de “Caribou” é mais um rockão/r&b tipicamente eltonjohniano, com um dos riffs de guitarra mais legais já gravados. Dá pra imaginar discípulos como Billy Joel, ouvindo e coçando a cabeça.

 

– Pinball Wizard – Interlude

 

Versão tão famosa quanto o original do grupo The Who, contida na trilha sonora do filme “Tommy”, de 1975, inspirado na ópera-rock lançada em 1972. É legal, mas poderia ser trocada por alguma canção autoral.

 

 

– Don’t Go Breaking My Heart

 

Um single sensacional, cantado em dueto com Kiki Dee, em 1975. Foi o abraço de Elton à nascente Disco Music, tornando-se uma de suas canções mais conhecidas e arejadas. O arranjo dançante, cheio de cordas e vocais de apoio é perfeito. As versões remasterizadas do álbum “Rock Of The Westies”, do mesmo ano, trazem “Don’t Go Breaking My Heart” como faixa-bônus.

 

 

– Sorry Seems To Be The Hardest Word

Outra balada perfeita, dentre tantas. Melodia linda, letra dilacerante, foi lançada como single em 1976 e depois entrou no álbum “Blue Moves”, do mesmo ano.

 

– I’m Still Standing

A trilha passa batida pelo período barra pesada da vida de Elton, entre o fim dos anos 1970 e o início da década seguinte. Ele deu sinais de retorno à sua melhor forma com este clássico da resistência diante das agruras da vida. “I’m Still Standing”, do disco “Too Low For Zero”, de 1983, é uma porrada na cara, rock básico de levada rápida e refrão que traz, segundo este que vos escreve, o segundo “yeah yeah yeah” mais legal da história do pop.

 

 

– I Want Love

Os anos 2000 marcaram uma espécie de renascimento artístico para Elton. “I Want Love”, do disco “Songs From The West Coast”, cujo clipe trazia o ator Robert Downey Jr, é uma espécie de emblema deste tempo. Não que Elton não tenha grandes canções nos anos 1980 e 1990, mas o filme parece deixar esta produção de lado. Pena.

 

 

– (I’m Gonna) Love Me Again

Canção inédita, que só estará na trilha sonora do filme.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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