Quase nada se modificou

 

 

Este texto foi publicado no querido Scream & Yell em 15 de setembro de 2011, pouco mais de um mês após a morte da minha mãe. Não espanta que a presença de Roberto Carlos evoque as lembranças de família, infância, adolescência para quem nasceu em 1970, como eu. Sendo assim, e por conta da proximidade com o octagésimo aniversário do Rei, resolvi resgatá-lo e fazê-lo falar novamente.

 

Porque, mesmo com os últimos acontecimentos da minha vida e das nossas vidas, quase nada se modificou.

 

 

Estava eu vendo o show de Roberto Carlos na noite de sábado, gravado em Jerusalém. Matutava com meus botões sobre o quanto o Rei havia se tornado uma figura caricata e distante do que era naquele ponto fulcral da virada das décadas de 60/70 do século passado. Quanto de originalidade e espontaneidade ainda poderia habitar sua mente e seu corpo após tantas idas e vindas do destino e perdas de parentes (enteada, duas esposas, mãe, pai) ao longo do tempo. Como ele lidara com tudo isso sob os holofotes da fama e fortuna? Será que a pálida e triste figura de hoje é o resultado de tudo isso? Ou será que é apenas uma pessoa envelhecendo e deixando de lado aquelas qualidades que só temos quando somos jovens?

 

Minha divagação sobre a vida do Rei cessou aos primeiros acordes de “O Portão”. Executada lá para o fim do show, minha canção predileta do repertório de RC logo me fez sentir vontade de chorar. Acho que é impossível ouvir “O Portão” sem que algum pingo de emoção tome conta do coração. Talvez seja diferente daqui a cinquenta anos, quando duas gerações de brasileiros já tiver passado a barreira dos 30 anos sem ter em sua lembrança os almoços e jantares de família sonorizados por músicas do Rei. Também não haverá mais a exibição do protocolar especial de Natal com o velho Roberto recebendo convidados e dando sua anuência para o novo sucesso da moda. Essas lembranças terão sumido para sempre, nos deixando – quem nasceu a partir de 1970/80 – prisioneiros de uma circunstância histórica.

 

O som de Roberto Carlos nos anos 70 é o som das paradas de sucesso, livre de mensagem política (quase sempre), calcado em mensagens religiosas (quase sempre) e permeado pela vontade do Rei em se dirigir para um público adulto. Era inofensivo, bondoso, simples, mas com uma característica marcante: a capacidade de despertar a identificação com o ouvinte. Quem está na casa dos 20, 30, 40 anos tem potencial para se emocionar com canções do Rei feitas nos anos 70. É o que nossas mães, pais, avós ouviam no rádio, viam na televisão, compravam na loja de discos mais próxima. Os lançamentos vinham anualmente, no mês de dezembro, para servir de presente de Natal. A partir de 1974, ano do lançamento do disco que tem “O Portão”, a Globo passou a exibir o especial de Natal do Rei, na noite de 24 de dezembro. Roberto deixava de ser um cantor/compositor de sucesso massivo e acumulava a partir daí um salário de funcionário da emissora de TV. Isso foi decisivo para uma mudança gradativa em sua carreira, uma pasteurização progressiva de seu repertório e a necessidade de emitir opinião sobre assuntos contemporâneos, entre os quais a ecologia, a brasilidade, o fim da ditadura, a inclusão social dos anos 90…

 

Em 1974, portanto, foi lançado mais um LP homônimo do Rei, cuja a terceira faixa é “O Portão”. A letra é uma das mais harmoniosas construções de Erasmo Carlos e Roberto. É possível sentir cheiros e detalhes precisos de uma jornada de arrependimento e dor, metáfora talvez dos próprios autores, na faixa dos 30 anos, meio desbundados após a fama, enfrentando um período de crescimento da MPB mais politizada de Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Os companheiros de Jovem Guarda derivaram para o território do popular, sem qualquer preocupação em revestir sua música de algum verniz buscando atingir a classe média. A Roberto e Erasmo restava manter o rumo num híbrido de pop e romântico, no qual canções como “Meu Mar” e “O Portão” são highlights. Se em “Meu Mar”, canção do disco “Sonhos e Memórias”, lançado por Erasmo em 1972, o Tremendão projetava para seu futuro o desejo de morar num paraíso a beira-mar, em “O Portão”, os dois concluem que é bom poder voltar pra casa e ser recebido pelos pais. É como se voltassem de uma guerra, de um lugar onde não foram bem vindos, feridos, sofridos e necessitados daquilo que chamamos “colo de mãe”. Quem não passou por isso na vida? Quem não saiu de casa em busca de sonhos, de aventuras e se estrepou? Quem não sente a necessidade de não ter responsabilidades mesmo que seja por pouquíssimo tempo?

 

O legal em “O Portão” é que os autores não se esquecem de algo muito importante quando se volta pra casa dos pais: lá ficou grande parte de nós, perdida em lembranças, sentimentos e, muito provavelmente, coisas mal resolvidas. Quando o personagem da letra olha para seu retrato na parede e reflete sobre o porquê de sua volta, admite ao mesmo tempo uma derrota clamorosa para a vida, notando que precisa se reencontrar para poder sair novamente em busca de algo. O encontro com a figura paterna/materna que o abraça no fim da música é a própria redenção de uma geração que se arvorou a combater um monte de coisas, a emitir opinião e participar de uma série de processos históricos de mudança social – sem sucesso. “O Portão”, meus amigos, é uma canção sobre porrada na cara, sofrimento e a necessidade de dar dois passos para trás, visando poder andar pra frente de novo. Geração Hippie voltando pra casa? Militantes de esquerda saindo da prisão? Gente de trinta anos precisando agir como adulta depois de uma adolescência prolongada? Qualquer resposta é válida para descobrir de onde vem o personagem da canção.

 

Sim, se você está pensando que essa letra ainda pode ser atual, não há qualquer engano. Às vezes o processo descrito aí pode se dar em apenas um dia de vida, noutras pode demorar muito tempo. O que fica claro é que quem volta pras coisas que deixou, o faz por necessidade, mesmo que se sinta mais maduro e forte, nunca vai se sentir imune às coisas que deixou, que viveu, ao cachorro que late assim que nos vê.

 

Duas notas sobre esse texto:

– Eu o escrevo em tom muito confessional, não só porque já precisei voltar pra casa, mas, sobretudo, pelo fato de haver experimentado o fim daquilo que eu sempre entendi por CASA nesses últimos dias. Após a morte de minha mãe, colocado o apartamento para alugar, foram-se móveis, recordações, tralhas caseiras que eram o referencial de lar. Não é fácil passar por isso.

 

– Olhe bem o vídeo do comercial de cigarro que foi sonorizado pela canção lá no início dos anos 70. Um jovem Herson Capri volta pra casa, é recebido por pais velhinhos, amigos e uma namoradinha de cabelo curto, todo feliz. Sim, o Rei musicando um comercial de cigarros…

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Quase nada se modificou

  • 14 de abril de 2021 em 11:31
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    Bah!!!!, me trouxe belas lembranças, uma perguntinha quem seria a namoradinha de cabelo curto?

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