Entrevista – China

Após ouvir o novo disco do China, “Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos”, imediatamente me veio a ideia, ou melhor, a necessidade de conversar com ele sobre o teor político das canções do álbum. Enviei as perguntas por e-mail e, para a minha imensa surpresa, ele respondeu em cerca de uma hora, algo muito incomum para contatos desta natureza. Parecia que ele também estava com necessidade de falar a respeito do álbum e de seu atual momento como artista e cidadão. Aqui está o resultado deste bate-papo.

Acho equivocada a visão de alguns artistas do rock sobre a situação do país, e a história mostrará o tamanho do desserviço das suas atuais opiniões

– Seu novo disco “Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos” é abertamente político e contrário às pessoas que temos no poder no Brasil hoje. Como você acha que ele contribuipara melhorar o cenário atual do país?

Esse disco é um reflexo do que vejo e ouço por aí há algum tempo. O compositor é um cronista da realidade, então não tinha como perceber tudo o que tá acontecendo com o país, com o povo brasileiro e ficar calado achando que não temos nada a ver com isso. Acho que as colocações do disco vão um pouco além do Brasil de hoje. A nossa estrutura social sempre foi montada para poucos terem muito e muitos terem nada. Claro que nosso momento político atual contribuiu para a construção das canções, mas as raízes são bem mais profundas. Historicamente o Brasil sempre foi desigual e acho que a arte tem esse poder incrível de levar mensagens para as pessoas, de fazer as pessoas refletirem sobre os temas. Espero que as pessoas que escutem esse álbum façam uma reflexão sobre as questões colocadas. A arte serve para mostrar coisas belas e também coisas que incomodam. Coisas que precisam ser ditas e ouvidas.

 

 

– Conta como foram as gravações, o processo de composição, como surgiram os temas…

Yuri Queiroga, o produtor do disco, me desafiou a escolher um tema para o disco e escrever todas as canções sobre esse tema. Com esse desafio em mente cheguei a palavra sobreviver e em tudo o que essa palavra significa. Se viver nos dias de hoje já é um luxo, imagina sobreviver? Então os temas passeiam por essa questão central. Me tranquei no estudio com Yuri e fomos desenvolvendo as bases e amarrando essa estrutura. Como a ideia era um disco que não tivesse bateria e sim uma percussão forte e furiosa, fui para Olinda gravar com Lucas dos Prazeres essa parte rítmica. Depois dessas estruturas montadas começamos a chamar os convidados e dar os últimos retoques no disco. Foi muito legal contar com Andreas Kisser, Natália Matos, Uyara Torrente, Bell Puã e Neilton participando desse trabalho. São artistas que admiro muito e que sempre quis fazer algo junto.

 

 

– Você também fica indignado com conservadorismo no rock’n’roll?

Não acho que o conservadorismo é de um estilo musical. São de pessoas. Por exemplo, o Dead Fish acabou de fazer um disco que trata basicamente dos mesmos temas do meu disco, então não da pra dizer esse conservadorismo é do Rock. Esse conservadorismo vem de algumas pessoas. E ainda assim, quem sou eu para jurar essas pessoas? Vivemos numa democracia e cada um pensa como quer. Acho equivocada a visão de alguns artistas do rock sobre a situação do país, e a história mostrará o tamanho do desserviço das suas atuais opiniões, mas eu prefiro prestar atenção em quem está fazendo a diferença e ajudando a denunciar os tempos que estamos vivendo.

 

 

– Como você concilia suas atividades de apresentador e comentarista de música no Multishow com suas convicções políticas e pessoais?

Quem me assiste nas transmissões do Multishow deve perceber que tenho total liberdade para comentar tudo o que acontece nos shows. Não só eu, mas todos os apresentadores tem essa liberdade. Comentamos a apresentação que vemos no palco. Se o artista faz um show político, temos liberdade para falar, afinal de contas, o telespectador ta assistindo aquilo, né? Não da pra negar o que o cara acabou de assistir. Obviamente, sei que tem gente de todo tipo assistindo as transmissões então o grande lance é escolher palavras que dialoguem com todas as pessoas. O bom comunicador é o cara que consegue falar com todo tipo de público, e é assim que tento fazer nas transmissões.

 

– Um outro disco de rock nacional lançado há pouco tem a mesma temática: o novo do Dead Fish. Seria interessante ver uma turnê nacional de vocês dois…

Acabei de falar deles, né? Seria demais isso. Até mandei no twitter esses dias essa ideia. Vou trabalhar para que isso role, pois além dos discos com discursos parecidos, gosto muito da banda, então será massa se isso acontecer.

 

 

– Como você vê o atual cenário do rock nacional? E da música brasileira como um todo?

Eu não separo a música em rótulos, pra mim é tudo música brasileira, e acho que estamos num momento muito legal. A cena independente cresce a cada dia e hoje disputa de igual pra igual com artistas do mainstream. Vários discos interessantes sendo lançados e escuto músicas que com certeza ficarão marcadas para sempre, serão atemporais. Vejo uma cena forte e coesa. Claro, estamos em tempos sombrios, várias casas de show estão fechando, mas ao mesmo tempo percebo os artistas se unindo e criando outros espaços, fazendo a correria para levar sua música para todas as pessoas. Vejo um momento muito interessante na nossa música e fico feliz de participar disso.

 

 

– Muitas pessoas dizem que é a hora da política no plano pessoal, por conta de uma crise de representatividade em relação aos políticos, aos partidos…O que você acha disso?

Estar vivo nos dias de hoje já é um ato político. Acho importante falarmos sobre política sim, mas antes disso tudo, estudar a nossa história. Por exemplo, todos os golpes de estado que tivemos, e isso vem desde os anos 30, seus principais autores falam da ameaça comunista e assim vão metendo medo em gente desinformada. O discurso de Vargas, quando deu o golpe, é muito parecido com o discurso dos militares em 64, que também é igualzinho ao discurso de Bolsonaro. Ou seja, vamos sendo enganados há décadas por um tema que nunca vimos acontecer. Sou louco para conhecer um comunista de verdade… (risos)… mas nunca vi isso no Brasil. Enfim, é muito importante que o povo fale sobre política, que se intere sobre os assuntos do país, mas é de extrema importância estudar história, conhecer a nossa história, ler e ter uma boa base educacional. Olhar além da nossa bolha social, porque senão é só mais um bradando coisas de que não faz nem ideia. É tipo ver gente pedindo a volta dos militares sem conhecer a história, sem saber que esse período foi truculento, que matou muita gente e que afundou o país economicamente. É ver gente na rua pedindo o fim do STF, do congresso, sem perceber que isso é pedir o fim da democracia.  Por isso é muito importante se informar, estudar. Pra não ficar aí defendendo causas que são um tiro no próprio pé.

 

 

– Voltando ao seu disco, há um uso interessante de eletrônica e samples. Como você lida com as ferramentas eletrônicas no estúdio?

O estúdio é um lugar de experimentação constante e adoro esse movimento. Yuri trabalha muito bem com samples e programações e também tivemos a ajuda de Matheus, meu filho, que toca há alguns anos na festa Mamba negra sob a alcunha de Entropia. Ele manja muito de música eletrônica e contribuiu bastante no processo do disco. Acho que em estúdio não tem regra e tudo deve ser experimentado, então para mim acaba sendo muito natural o uso dos equipamentos eletrônicos nas canções.

 

 

– Quando o Sheik Tosado surgiu, em fins dos anos 1990, ele pertencia a uma segunda leva de bandas e artistas do chamado manguebeat, que não chegaram a acontecer de fato. Você concorda? Se sim, a que atribui isso?

Apesar de uma trajetória curta, acho que o Sheik tosado foi bem longe. Pensa; Saímos de Olinda para tocar no Brasil todo, assinamos com uma gravadora que vendeu nossos discos até no Japão, tocamos em festivais importantes, estávamos no palco mundo do Rock In Rio III. E isso tudo fazendo hardcore com frevo, um tipo de som que claramente não tocaria nas FMs. Acho que o Sheik só não foi mais longe porque acabou. Vivo de música desde os 17 anos, então de certa forma acho que consegui acontecer. Viver de música no Brasil é difícil, muito difícil. So de conseguir pagar minhas contas, ter meu estúdio, dar uma boa educação aos meus filhos, bancar meus discos, já me considero um vencedor.  Mas isso tudo vem com muito trabalho, não caiu do céu. Vivo a música todos os dias, viro noites no estúdio. Não existe descanso para quem trabalha com arte.

 

– Quando foi que você percebeu que seria um músico de rock? Que era isso que você gostaria de fazer pela vida toda?

Minha primeira experiencia de palco, por assim dizer, foi na igreja. Eu era coroinha na missa e adorava ver o público me olhando. (risos) Aos 16 montei com meu irmão mais velho, Bruno Ximarú, o Sheik Tosado. Ximarú ja tinha tocado em outras bandas, mas para mim foi a primeira experiência. Então quando subi no palco do PocoLoco, um boteco onde rolavam uns shows em Olinda, percebi que o mesmo sentimento que tive com 9, 10 anos na missa era parecido ao que tava experimentando naquele momento, só que bem mais legal. Eu não era só o coroinha na banda do padre. Agora eu tinha a minha própria banda. (risos). Nunca foi pela grana, até porque nunca teve grana mesmo. Comecei a ganhar algum dinheiro com a música muito anos depois, e acho que isso foi bem importante na minha formação, pois até hoje o foco não é o quanto vou ganhar, mas o quanto vai ser gostoso fazer aquilo. Minha mãe sempre disse que se a gente faz o trabalho direito o dinheiro vem. E assim vou vivendo.

 

 

– Você tem uma experiência grande na TV, hoje no Multishow, anteriormente na MTV. Como surgiu isso?

Uma vez fui na MTV deixar um clipe e um amigo que trabalhava lá falou que tava rolando teste para VJ e praticamente me obrigou a fazer. Nunca pensei em ser VJ, em trabalhar na tv. Quando estudei jornalismo queria ir para área editorial, textos. Enfim, fiz o teste e claro que não deu em nada. Um tempo depois me convidaram para cobrir um festival em Belém como repórter convidado. Nunca tinha ido em Belém, não gastaria nada, então topei. Foi bem legal a experiência. E logo depois a MTV me convidou para ser VJ e ter um programa dedicado a música brasileira. Topei na hora! Imagina, poder falar de todos os artistas que gosto, da música, que para mim, é uma das mais ricas do mundo? Vim embora pra São Paulo e daí as coisas foram acontecendo. Quando saí da MTV para dedicar mais tempo a minha música, recebi um convite da Band para ser apresentador do Bandfolia e mostrar o carnaval de Recife e salvador para o Brasil todo. E logo depois entrei no elenco de A Liga, programa de jornalismo investigativo, que foi uma experiência incrível, pois provei para mim mesmo que conseguia falar sobre diversos assuntos e não só a música.  Hoje continuo apresentando o Bandfolia, já são 7 anos fazendo esse trabalho que adoro, e desde 2016 faço a cobertura dos festivais pelo Multishow, que é um canal que sempre gostei e que fui recebido com muito carinho e respeito. Adoro trabalhar com eles. Mas o que mais gosto dessa experiência na tv é poder falar com esse sotaque lindo que eu tenho (risos) e quebrar um pouco o estereotipo de apresentadores “sem sotaque”. O Brasil é gigante e plural, e fico muito feliz de ser um dos representantes dessa pluralidade na televisão.

 

 

– Como estão os planos para excursionar com o disco?

Dias 24 e 25 de julho lançamos o disco no Sesc 24 de maio. E estamos trabalhando bastante para levar o show desse disco para todos os cantos do país e fora do Brasil também.

 

 

– Vamos sair dessa?

Claro que vamos! É preciso coragem para mudar, e isso nós temos.

 

Foto: Pamela Gachido

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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