INXS faz falta

 

 

Após sairmos de um evento como o Rock In Rio, essa constatação surge com força: como faz falta uma banda como o INXS. Com as atividades encerradas cedo demais, por conta da morte do vocalista Michael Hutchence, o grupo australiano estaria hoje, na pior das hipóteses, numa confortável posição de viver das glórias do passado. Veja, isso se, ao longo do tempo, os irmãos Farriss e o próprio Hutchence, os cérebros criativos do grupo, não tivessem pensado em nada de interessante. Restaria um catálogo de glórias pré-1997, ano que o grupo lançou o último disco com Michael, o bom e subestimado “Elegantly Wasted”.

 

Seria um show com tudo pra dar certo. Haveria o INXS raiz, aquele com canções lançadas entre 1977 e 1985, quando a banda oferecia uma interessante versão do pós-punk. É bom lembrar que o público brasileiro mais antenado só deu atenção ao grupo quando sua imagem – como quase tudo que era australiano naquela época – foi atrelada ao público surfista e skatista. Sendo assim, com compatriotas do naipe de Australian Crawl, Hoodoo Gurus, Midnight Oil, passando pelo exótico Yothu Yindi e pelo popíssimo Men At Work, os primeiros sucessos do INXS passavam em programas de rádio especializados no assunto e algumas atrações televisivas, dentre as quais, o Realce. Mas, veja, isso foi há muito tempo.

 

Quem lembra da banda, há de associar sua imagem ao primeiro disco a fazer sucesso mundial, “Kick”, de 1987, que veio turbinado por canções como “Need You Tonight”, “New Sensation” e baladonas como “Never Tear Us Apart”, sem falar em canções legais que não voaram tão alto, caso de “Mystify”, por exemplo. Daí em diante, o INXS enveredou numa trilha de crescimento exponencial de público e vendas, mesmo que tenha aberto mão do ataque inicial em favor de uma sonoridade mais polida e muito próxima do funk branquelo que o Duran Duran vinha fazendo.

 

Os trabalhos seguintes, “X”, “Welcome To Wherever You Are”, “Full Moon Dirty Hearts” e o derradeiro “Elegantly Wasted”, além do ao vivo “Live Baby Live”, foram lançados entre 1990 e 1997, mostrando que a banda estava em ótima fase, inclusive vindo ao Brasil em 1991 para se apresentar na segunda edição do Rock In Rio – show que eu testemunhei no Maracanã. Foram hits em sequência, especialmente “Suicide Blond”, “Beautiful Girl”, “By My Side”, “Not Enough Time”, entre vários outros, mostrando que os caras tinham malandragem para abraçar a era do pop videoclípico e entender as demandas do mercado consumidor por um som mais dançante e pop, mas sem abrir mão de uma certa identidade, que já era marca registrada do grupo, especialmente oriunda da fusão entre as fanfarronices instrumentais dos Farriss, que eram bons alunos do funk durannie, como de Michael Hutchence, que se via como um misto de Mick Jagger e Jim Morrison, guardadas as devidas proporções.

 

Se o INXS ainda existisse, nem que fosse como lembrança, seria divertido vê-los no palco, emulando essa sonoridade de 30 anos atrás. Se tivessem permanecido ativos, muito provavelmente fariam um som melhor do que devedores como Maroon 5, um queridinho internacional com sonoridade duvidosa, mas que é muito melhor ao vivo do que em estúdio. Seria bacana ver os Farriss fechando uma noite do Rock In Rio, algo que, certamente, aconteceria e moveria multidões para ver. Fica a saudade.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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