“Closer”, do Joy Division, chega aos 40

 

 

Closer, do Joy Division, faz 40 anos em 2020. A data vem sendo acompanhada por uma avalanche de comentários e celebrações, que inclui até uma exposição sobre a gravadora Factory em um museu de Manchester, terra natal da banda. Não que se precise de esforço para lembrar de um álbum tão marcante na história do rock. Vale notar que Bernard Sumner e Stephen Morris, que continuam com o New Order (nascido das cinzas do Joy Division), e Peter Hook, em carreira solo, embora destoem em muita coisa, não discordam quando se trata de passar a incluir em seus shows cada vez mais músicas que compuseram com Ian Curtis.

 

Uma leitura bem comum de Closer divide o álbum em duas partes, segundo critérios que consideram tanto o estilo quanto a cronologia. Haveria, então, de um lado, músicas compostas em 1979, ancoradas na guitarra de Sumner; de outro, músicas compostas em 1980, nas quais o protagonismo é assumido por teclados e sintetizadores. Ao passo que as músicas mais antigas dialogam com aquelas do álbum anterior, Unknown Pleasures, em que a banda desenvolvia sua elaboração da sonoridade Bowie-Iggy infletida pelo punk, as mais recentes revelavam o impacto do Kraftwerk nas criações do Joy Division.

 

Essa leitura não deixa de ser correta, mas não se pode levá-la ao pé da letra. Vejamos “Love will tear us apart again”, provavelmente a música mais conhecida da banda, versátil a ponto de servir tanto para pistas de dança quanto para escutas solitárias. Na verdade, o álbum original não trazia essa faixa, lançada como um single um pouco antes de Closer sair. Mas ela foi incluída na edição brasileira, já desde uma versão pirata de 1985. De todo modo, ilustra bem o estilo das “músicas de 1980”. A guitarra marca a introdução (cuja intensidade ainda não cessou de provocar arrepios) e então dá lugar ao sintetizador acompanhado pelo baixo e a bateria inconfundíveis. Ocorre que, para quem se der o trabalho de consultar os setlists de shows e apresentações da banda, vai constatar que “Love will tear us apart” é uma música composta em 1979.

 

Outro exemplo é “Komakino”, música que, apesar de não estar em Closer, foi gravada nas mesmas sessões no Britannia Row Studios que geraram o material do álbum. “Komakino” é uma canção que, mesmo composta em 1980, dialoga com as faixas de 1979. Os dois casos me parecem suficientes para afirmarmos que o som da Joy Division continuava se fazendo em mais de uma direção – e não apenas na via kraftwerkiana sugerida por “Isolation” e “Decades”. “Heart and Soul” poderia ser usada para reforçar essa tese, pois nela teclados e guitarra andam juntos, gerando um resultado que não é igual nem às “músicas de 1979”, nem às “músicas de 1980”.

 

Vou bater nessa tecla ao apontar “Twenty Four Hours” como minha faixa preferida de Closer. É uma música que contém dois andamentos bem diferentes. O inicial e predominante, no qual destaco a ultra-criativa levada de bateria de Morris para acompanhar a originalíssima linha de baixo de Hook. Ian canta seus primeiros versos já quando a música foi conduzida a uma aceleração furiosa, e aqui a guitarra de Sumner perde a discrição. A canção vai alternando entre os dois andamentos, sem parecer uma colagem. Consigo lembrar de poucos outros exemplos em que o desespero e a agressividade fazem uma combinação de tal efeito. Em Closer, “Twenty Four Hours” está no mesmo lado e na companhia de “músicas de 1980”, mas pela data de sua composição e por seu estilo pertence, sem perder sua singularidade, às “músicas de 1979”.

 

Outra leitura bem comum de Closer é que suas letras são notas de suicídio. Certamente, muito do que ouvimos Ian Curtis cantar nesse álbum revela suas perturbações e dilemas. Seus 23 anos foram pouco para lidar com as crises de epilepsia (e medicamentos com vários efeitos colaterais) que cruzaram o caminho do vocalista de uma banda em ascensão. Também não foram suficientes para apontar uma saída para afetos divididos entre a vida com a esposa e a filhinha e o relacionamento com uma mulher que Curtis conhecera em turnê da banda. “This is the crisis that I knew had come, destroying the balance I’d kept”, de “Passover”, é parte dos muitos versos que sustentam essa interpretação “notas de suicídio”.

 

Ocorre que as letras de Closer não revelam apenas o retrato das profundezas de Curtis, mas, em sendo isso (parece até que serviram para ajudar a cavá-las), trazem pistas que apontam para além. Curtis era um devorador de livros e as letras de Closer dão indicações de seu universo de referências. “Atrocity Exhibition”, faixa de abertura do álbum, é o título de uma coleção de textos experimentais de J. G. Ballard, prefaciada por outro ator predileto de Curtis, W. Borroughs. “Colony” remete em seu título, menos em seu conteúdo, ao livro quase homônimo de F. Kafka. Se em certos trechos as letras de Curtis são mais diretas, em outras elas são rebuscadas e figuradas. Esse pendor literário é mais forte em Closer do que em Unknown Pleasures.

 

Há relatos que contam sobre o interesse de Curtis em livros sobre guerras. Sabe-se o impacto no Joy Division de referências ao período nazista, a começar pelo próprio nome da banda. As letras de várias canções de Closer parecem assoladas por experiências coletivas de sofrimento ou de abandono – não apenas as de seu autor. Além disso, figuras divinas são evocadas. Mesmo quando não o são, há vários exemplos em que o que é narrado, às vezes em tom quase épico, sugere um ponto de vista externo ou que transcende o indivíduo. Algo disso pode ser encontrado nas letras de “Atrocity Exhibition”, “Passover”, “Colony”, “Heart and Soul”, “The Eternal” e “Decades”.

 

Closer é um marco do rock, uma das obras primas do pós-punk, como mostra tudo que foi realizado sob sua influência ou inspiração. Não se pode esquecer de Martin Hannet, o produtor que foi tão responsável quanto a banda pelos registros de suas músicas no álbum. A atmosfera de Closer deve muito ao seu trabalho. A parceria que havia começado ainda antes de Unknown Pleasures atingiu outro patamar, sobretudo nas faixas que usam sintetizadores. De todo modo, como busquei mostrar, essa não era a única direção para onde estava indo o som da banda. “Atrocity Exhibition” ou “Colony” são tão criativas quanto “Isolation” e “Decades” – “Twenty Four Hours”, para mim, ainda mais. Nessa música, Curtis parece ser bastante confessional ao expor suas frustrações. Que essa exposição tenha recorrido a inspirações literárias e a ansiedades coletivas não consiste em pontos menos importantes na composição de um álbum que merecerá ser celebrado por muito tempo ainda.

 

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Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

2 thoughts on ““Closer”, do Joy Division, chega aos 40

  • 13 de junho de 2020 em 17:44
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    Obrigado pelo comentário, Pedro. O time ali é bem escalado mesmo! Sobre as fases das músicas, é um lance meio joydivisionisiaco, coisa que fã curte fazer.

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  • 11 de junho de 2020 em 13:11
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    Que texto legal, não sabia desse contexto das fases das músicas. Amo o lado b do closer, talvez o meu preferido de todos os tempos. Encaro aquela sequência de músicas como a escalação de um time histórico imbatível.

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